Por que a banana é a estrela do contrabando na Tunísia

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Image caption Contrabando de bananas se transformou em um ótimo negócio na Tunísia (Foto: Naveena Kottoor/BBC)

A banana está entre as frutas mais baratas em muitos países do mundo. Mas este não é o caso da Tunísia.

No país, a fruta é cerca de 30% mais cara do que na Grã-Bretanha, por exemplo. E, de acordo com um estudo do Banco Mundial, as bananas estavam na lista dos dez produtos mais contrabandeados, entrando na Tunísia vindas da Argélia e Líbia.

E agora, a fruta que se transformou em uma estrela do contrabando pode ser encontrada em bancas em todo o país.

"Bananas da Argélia custam metade do que eu pagaria no atacado (pela fruta) produzida na Tunísia", explica um vendedor de frutas de 43 anos que trabalha em Túnis mas comprou as bananas do outro lado da fronteira.

Argélia, Líbia e Tunísia não produzem bananas, mas a Tunísia tem um imposto de 36% sobre bananas importadas e apenas alguns comerciantes têm licença para importar a fruta.

No passado, contatos com o círculo do presidente deposto Ben Ali permitiam que algumas pessoas conseguissem driblar o imposto. Quatro anos depois da revolução, o imposto ainda existe e o mercado foi invadido pelas bananas contrabandeadas.

A Tunísia passou por uma transição democrática elogiada pela comunidade internacional, mas os problemas econômicos que causaram a revolução em 2011 continuam.

Image caption Vendedores de rua afirmam que frutas vindas da Argélia são mais baratas por causa dos impostos (Foto: Naveena Kottoor/BBC)

O comércio ilegal através da fronteira se transformou em um grande problema para o governo tunisiano, que está perdendo em arrecadação de impostos.

O Banco Mundial estima que, em 2013, o comércio informal atingiu um valor aproximado de US$ 1,2 bilhão (mais de R$ 3 bilhões), ou 2,2% do PIB anual da Tunísia.

Sem competição

Outro legado do antigo regime é a importação do café, que é muito controlada pelo governo e ainda tem impostos pesados, fazendo com que o café arábica em grãos seja o dobro do preço na Tunísia, quando comparado à Grã-Bretanha, por exemplo.

Alguns torrefadores locais estão isentos do imposto, mas a maioria das importações de café estão sujeitas a estas taxas pesadas.

Noussair, de 47 anos, é o gerente de um café em um bairro de classe média em Túnis. Ele acredita que os negócios melhorariam se ele pudesse oferecer aos clientes um café com preços melhores.

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Image caption Noussair quer aumento da competitividade e variedade de produtos (Foto: Naveena Kottoor/BBC)

"Caro que gostaríamos de ter mais escolha. É a competição que cria qualidade e determina o preço. Eu poderia aumentar nossa renda se pudessemos vender tipos diferentes de café, de grãos de mais qualidade, como o arábica", disse o empresário.

Este tipo de reclamação é comum entre os empresários tunisianos, que lutam contra um sistema que parece desestimular competição e crescimento.

"Regulamentações, procedimentos e barreiras impedem investidores tunisianos e também estrangeiros a entrar no mercado de vários setores", afirmou Jean-Luc Bernasconi, economista-chefe para a Tunísia no Banco Mundial.

"Mais da metade da economia tunisiana está fechada para novos participantes. É o resultado de anos de ditadura e clientelismo", ascrescentou Bernasconi, afirmando que barreiras e regulamentações que garantiram privilégios por tantos anos ainda existem no país.

Baixo crescimento

Enquanto muitos tunisianos reclamam do custo de vida cada vez mais caro e da falta de oportunidades econômicas, a economia do país está estagnada.

O crescimento tem sido pequeno demais para absorver o número de jovens que se formam nas universidades e, apenas neste ano, o investimento estrangeiro no país caiu 25%.

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Image caption Para Jean-Luc Bernasconi, do Banco Mundial, regulamentações tunisianas espantam investidores estrangeiros

Para Alia Mahmoud, americano-tunisiano de 29 anos, diretor do Centro de Inovações da Microsoft, que trabalha com empreendedores nos últimos três anos, é o legado de corrupção que prejudica os empreendedores do país.

"Por décadas não havia incentivo para tentar ir mais longe, trabalhar mais. Para quê? Era uma economia que desestimulava o sucesso (...). Até agora parece que só mesmo com alguém no bolso é que se pode conseguir gerenciar um negócio por aqui", disse.

O efeito deste legado pode ser sentido em todos os setores, mas o desempenho fraco do setor de bancos públicos é o que destaca as décadas de péssimo gerenciamento e agora atrasa a economia do país.

"Os bancos públicos foram o braço financeiro do 'capitalismo de conivência' aqui. Os recursos eram dados não a projetos que dariam lucros, mas a projetos de amigos", disse Jean-Luc Bernasconi.

Velocidade e lentidão

Em 2011, o presidente tunisiano foi tirado do cargo em uma velocidade impressionante. Mas, a reforma da economia do país e do setor público é bem mais lenta e complexa.

Uma pesquisa recente do Instituto Pew mostrou que cerca de 88% dos tunisianos descreveram a situação econômica do país como ruim.

Para o primeiro-ministro que está deixando o cargo, Mehdi Jomaa, ex-executivo de 52 anos que passou toda a carreira na França antes de voltar à Tunísia em 2013 para se juntar ao governo, diz que o país passa por um momento decisivo.

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Image caption O primeiro-ministro interirno, Mehdi Jomaa, destaca a necessidade de uma transição econômica e social (Foto: Naveena Kottoor/BBC)

"Nos esquecemos da economia, mas a economia nunca nos esqueceu. Depois de mudar o sistema político, agora precisamos mudar o sistema econômico. Estamos virando a página na transição polítíca e agora precisamos de uma transição econômica e social. Temos que conseguir isso, do contrário a democracia vai fracassar", disse.

"Se esperarmos um mês, perderemos um ano."

Mas, ainda é preciso verificar se este pedido de Jomaa será atendido. O partido Nidaa Tounes, que conseguiu o maior número de cadeiras no Parlamento, foi descrito por observadores como um partido com ligações fortes com o antigo regime.

E o próprio primeiro-ministro reconhece que será difícil convencer pessoas que eram protegidas pelo antigo regime a abrir mão de seus privilégios.

"Esta é a realidade, tínhamos um sistema e alguns levavam vantagem. Mas temos que romper com isso e olhar para o futuro."

"Estamos falando dos interesses do país. Estamos no mesmo barco, se o barco afundar, todos nós afundaremos", acrescentou.

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