A verdadeira casa de Papai Noel... na China

Direito de imagem Richard SeymourUnknown Fields Division

Estou a 300 quilômetros de Xangai e há três horas não vejo a luz do dia. Também estou completamente perdido. Faz 45 minutos que tento sair deste lugar, um enorme labirinto de corredores e lojas que parecem idênticas.

Vejo-me cercado por árvores de Natal artificiais, enfeites de todo tipo, neve artificial, inúmeros acessórios de Papai Noel e renas animadas feitas com LED. Nos meus ouvidos, ecoam canções natalinas.

Este curioso lugar não vive nos meus pesadelos. Pelo contrário, é bem real e pode ser encontrado em um shopping center de atacados, o International Trade Market, na desconhecida cidade de Yiwu, na China.

Segundo a agência de notícias estatal chinesa Xinhua, mais de 60% dos enfeites natalinos do mundo são fabricados no país e boa parte dessa produção é vendida exatamente em Yiwu.

Se o Natal do mundo da fantasia nasce na Lapônia, a verdadeira festa não poderia acontecer sem essa cidade chinesa. Daquela árvore que pisca na tua sala aos enfeites pendurados nas ruas da tua cidade, o que tiver o selo "made in China" certamente passou por aqui.

Estou em Yiwu acompanhando o Unknown Fields Division, um projeto que reúne estudantes, escritores e cineastas para acompanhar a cadeia de fornecimento de todo tipo de mercadorias até sua origem. Hoje, a aventura nos trouxe para esta que é possivelmente a capital mundial do Natal.

Direito de imagem Tim Maughan

Afogado em números

Para dar uma ideia da dimensão do shopping, posso começar pelos números: mais de 4 milhões de metros quadrados, abrigando 62 mil lojas, por onde passam 40 mil visitantes por dia, sendo 5 mil deles estrangeiros. Mas só lá dentro, observando a movimentação frenética, é que se tem uma noção mais apropriada do gigantismo do lugar.

O complexo é dividido em cinco seções. Começo pela Seção 1 – um corredor forrado de lojas que exibem apenas lápis e canetas em suas vitrines. Viro uma esquina: mais lápis e canetas. Caminho por mais 15 minutos e só o que vejo são lápis e canetas.

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Ao subir uma escada rolante quebrada, enxergo inúmeros corredores cheios de lojas vendendo caixas de vidro. Um piso acima, uma subseção inteira dedicada a flores artificiais.

Direito de imagem Tim Maughan

Liam Young, que organizou a visita para o Unknown Fields Division, conta que numa outra ocasião seus alunos desistiram de percorrer todas as cinco seções ao fim de oito horas.

Mas, como toda grande loja de atacados, o shopping em Yiwu não vende produtos para o consumidor comum. As lojinhas, cada uma ocupando cubículos de 2,5 metros quadrados, são showrooms de alguma empresa ou fábrica local, que vendem para varejistas vindos de diferentes partes da China e do resto do mundo.

O mais impressionante, no entanto, é que Yiwu já viveu dias melhores e hoje está em declínio. Muito se deve ao aumento das compras por internet, principalmente com o sucessos de sites como Alibaba e Made In China.

Direito de imagem Tim Maughan

Plástico barato

Apesar da enorme variedade de produtos, nada em Yiwu tem uma marca conhecida ou um grande valor comercial. O que há aqui são aquelas bugigangas que enchem a gaveta de sua mesa de trabalho ou os brinquedinhos que teus filhos ganham como brinde e logo quebram ou esquecem. Ou ainda aquele monte de itens que lotam as prateleiras das lojas de R$ 1,99 e que você compra porque são baratos, quase que por impulso.

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A China é a líder mundial na fabricação de artigos de plástico e Yiwu é sua vitrine.

E, para ver em primeira-mão como o Natal é fabricado nessa cidade de plástico, decidimos visitar uma das fábricas da região. Após 30 minutos de viagem, chegamos à Yiwu Hangtian Arts and Crafts, uma empresa pequena mas da qual sempre me lembrarei como a fábrica mais estranha que encontrei na China.

Para começar, encontramos um grande saguão onde algumas dezenas de operários de todas as idades e ambos os sexos estão montando e pintando guirlandas, árvores de Natal em miniatura e outros itens natalinos de plástico.

Direito de imagem Liam YoungUnknown Fields Division

Em uma sala ao lado, dezenas de mulheres sentam-se, enfileiradas, em máquinas de costura. Daqui sai aquele chapéu de Papai Noel que muitos de teus colegas usam na festa de fim de ano da empresa. Observo uma jovem enquanto ela prega a aba branca no pano vermelho, a um ritmo de dois chapéus por minuto.

No andar de cima está a sala de moldes de plástico, onde rapazes trabalham sem camisa, para poder suportar o calor das caldeiras, somado aos 30 graus que fazem lá fora. Eles fabricam bonecos-de-neve e outros brinquedos. O ar está impregnado pelo cheiro de produtos químicos e plástico derretido. Tudo é repetitivo e potencialmente perigoso. Enquanto trabalham, muitos operários passam o tempo assistindo novelas chinesas em seus smartphones.

A escala de trabalho manual envolvido na fabricação do Natal me surpreende. Mas é nisso que está o verdadeiro segredo do sucesso industrial da China – manter a mão-de-obra tão barata que fazer artigos à mão custa menos do que usar máquinas. Um dos gerentes me conta que os funcionários desta fábrica ganham entre US$ 200 e US$ 300 por mês (entre R$ 530 e R$ 800), por um turno de mais de 12 horas por dia, seis dias por semana.

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Direito de imagem Liam YoungUnknown Fields Division

Isso permite que empresas como a Yiwu Hangtian Arts and Crafts decolem a partir de um investimento relativamente baixo, ao mesmo tempo que dá a elas flexibilidade para adaptar sua produção às demandas dos consumidores.

Quando saio da fábrica, vejo de relance pilhas de caixas cheias sendo colocadas em um contêiner, que será levado ao megaporto de Ningbo, e de lá, para alguma parte do mundo. Até o fim de setembro, a produção de artigos natalinos vai ser substituída pela fabricação de itens para a Páscoa e o Dia dos Namorados. Depois disso, será vez do Halloween, tendo em vista o lucrativo mercado americano. E logo virá o Natal novamente.

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Uma coisa é certa: enquanto o mundo quiser comemorar alguma coisa, a China vai estar aqui para fornecer o que for necessário. Enquanto isso, vamos tentando compreender o impacto dessa cadeia em questões que afligem o mundo, do desemprego às mudanças climáticas.

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.