Por que os rituais de Natal tornam a ceia mais saborosa?

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Todos nós realizamos pequenos rituais no dia-a-dia, seja ao apertarmos a mão de alguém que nos é apresentado ou ao brindar tocando taças antes de beber.

Nesta época do ano, não é diferente: montar a árvore de Natal, armar o presépio, comprar o presente do amigo secreto são tradições que transcendem fronteiras.

Esses rituais podem parecer apenas costumes pouco relevantes, mas alguns cientistas acreditam que, na realidade, esses gestos são resultado da própria evolução humana, algo que pode explicar como o homem se relacionava antes mesmo de ter uma linguagem verbal.

Nossa história começa explorando como os rituais tornam nossa comida mais saborosa. Nos últimos anos, vários estudos científicos indicaram que realizar pequenos ritos podem influenciar a maneira de uma pessoa apreciar o que come.

Em um experimento, a equipe de Kathleen Vohs, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, tentou entender como um ritual poderia afetar a experiência de comer uma barra de chocolate.

Metade dos voluntários foi orientada a relaxar por alguns instantes e aí comer o chocolate normalmente. Os demais voluntários foram instruídos a seguir um ritual simples, quebrando a barra ao meio antes de abri-la, desembrulhando e comendo cada parte de uma vez.

Seguir essas simples regras teve um efeito surpreendente. Os voluntários do segundo grupo disseram ter gostado mais do chocolate, dando uma nota 15% maior do que a dada pelos primeiros participantes.

Eles também demoraram mais para comer todo o chocolate, degustando-o por até 50% mais tempo do que a outra parcela de voluntários. Por fim, o grupo do ritual disse que pagaria até o dobro por aquele chocolate.

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Esse experimento mostra que um pequeno ato pode aumentar significativamente a apreciação de uma experiência alimentar. Vohs e seus colegas deram sequência ao teste, dessa vez pedindo aos participantes para descrever o ato de comer o chocolate.

Foi uma variável importante: os voluntários que tiveram que seguir o ritual disseram que a experiência foi mais divertida, menos chata e mais interessante do que os do grupo de controle. Uma análise detalhada mostrou que esse era o motivo pelo qual eles gostaram mais do chocolate e até pagariam mais por ele.

Comportamento tribal

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Image caption Rituais como enfeitar a árvore fazem a mente se concentrar no prazer de comer

Os rituais, portanto, parecem fazer com que as pessoas prestem mais atenção ao que estão fazendo, permitindo que se concentrem nos aspectos positivos de um simples prazer.

Mas será que existe algo mais do que isso? E já que os rituais aparecem em tantos aspectos da vida que não estão relacionados à comida – de missas a posses presidenciais –, será que eles teriam raízes mais profundas na nossa história evolucionária?

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No livro The Symbolic Species, o antropólogo Terrence Deacon afirma que os rituais tiveram um papel especial na evolução humana, particularmente no momento de transição em que começamos a adquirir as bases da linguagem.

Deacon argumenta que os primeiros "símbolos" que nós usamos para nos comunicarmos – e que se tornaram as origens da linguagem humana – não eram parecidos com as palavras que hoje usamos sem pensar.

Segundo o antropólogo, esses primeiros símbolos teriam sido uma série complexa e extensa de comportamentos realizados em grupo. Ou seja, rituais.

Esses símbolos eram necessários por causa da maneira como os primeiros humanos organizavam seus grupos familiares e, principalmente, como compartilhavam os frutos de suas caçadas.

Os primeiros humanos precisavam de uma maneira de comunicar para os demais quais eram as responsabilidades e privilégios de cada um; quem era parte da família e quem podia comer daquela comida, por exemplo. Essas ideias são difíceis de serem transmitidas somente ao se apontar para um indivíduo ou outro.

Deacon afirma que os rituais foram a resposta evolutiva ao problema de conectar grupos de humanos e verificar que todos entendiam como o grupo funcionava.

Fraco por rituais

Se você acreditar nessa narrativa evolucionária – e muita gente não acredita -, é possível compreender por que nossas mentes têm um fraco por rituais.

Um pequeno rito pode tornar uma comida mais saborosa. Mas por que ele tem esse efeito? A resposta de Deacon é que nosso amor por rituais evoluiu com a nossa necessidade de compartilhar alimentos. Nossos ancestrais que realizavam rituais tinham mais filhos, por exemplo.

Ao conectar nossas mentes aos rituais de maneira a tornar os alimentos mais saborosos, a evolução tomou um atalho para garantir a sobrevivência da espécie.

Por isso, se você pretende passar o Natal com a família, não descarte os rituais. Participe das decorações e do preparo das refeições, brinde e ouça seu tio contar aquela piada pela enésima vez.

Os rituais vão ajuda-lo a saborear mais a comida e evocar nossa longa história como espécie e todos os banquetes que nossos antepassados tiveram antes mesmo de existir o Natal.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.