Por que os voos não são rastreados em tempo real?

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Image caption Equipes de buscas demoraram 3 dias para encontrar destroços do voo da AirAsia

Por algumas horas nesta semana, parecia que o avião da AirAsia que sumiu dos radares no domingo durante o voo da Indonésia para Cingapura seria o segundo que desapareceria por completo em um ano.

A tragédia do voo MH370, da Malaysia Airlines, ainda está fresca em nossa memória: mais de oito meses após o seu desaparecimento, em 8 de março, o avião ainda não foi encontrado.

O que aconteceu nesses dois acidentes, assim como a perda trágica do voo 447, da Air France, em 2009, contrasta com a percepção do senso comum de que hoje é quase impossível, tecnologicamente, perder alguma coisa: mesmo os mais simples dispositivos eletrônicos vêm equipados com tecnologia de navegação por satélite.

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Para especialistas, essas tragédias mostraram que o rastreamento em tempo real dos voos poderia ser uma solução para permitir a localização mais rápida de aviões que caem no mar ou em locais remotos. Mas por que os voos não são rastreados em tempo real?

Comunicação frequente, mas não constante

Atualmente, aeronaves transmitem informações sobre sua localização utilizando transponders e comunicações de rádio.

Estas comunicações se encerram quando os transmissores param de funcionar - o que pode ocorrer quando eles falham, quando alguém deliberadamente os desliga ou graças a um impacto contra o mar ou a terra.

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Image caption Mais de 8 meses após desaparecimento, avião da Malaysian Airlines não foi localizado

Após a tragédia da Air France e da Malaysian Airlines, alguns especialistas sugeriram que a indústria deveria tornar obrigatória a utilização de um sistema de rastreamento de voos em tempo real. Esta posição é defendida pelo Secretário-Geral da União Internacional de Telecomunicações das Nações Unidas, Hamadoun Toure, como dito em maio.

A tecnologia de satélite que tornaria isto possível já existe e seu desenvolvimento seria relativamente simples, mas a agência da ONU responsável pelos voo de passageiros, a Organização Internacional para a Aviação Civil (ICAO, na sigla em inglês), ainda não tomou uma decisão sobre sua implementação.

O rastreamento em tempo real não impediria um acidente, mas facilitaria as buscas.

Mas quais são as dificuldades para colocar em prática um sistema global como este?

Necessidade

Por um lado, as companhias aéreas já tem seus sistemas de comunicação eficazes. Colocar em funcionamento um sistema que atualize constantemente o status de um aeronave poderia ser extremamente custoso.

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A magnitude do tamanho dos dados recolhidos e o custo de compartilhar esta informação com o tráfego aéreo mundial poderia ser uma das razões pelas quais as companhias aéreas não querem arcar com o sistema de rastreamento em tempo real.

"A princípio é uma boa ideia, mas realmente, dado o número de aviões que voam diariamente e a baixa probabilidade de que ocorra um acidente, não é um investimento prático para as companhias aéreas", diz Greg Waldron, editor para Ásia da revista de aviação FlightGlobal.

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Image caption Voo da Air France que seguia do Rio para Paris chamou a atenção para fragilidades do sistema de comunicação

Por outro lado, Ilias Maragakis, porta-voz da Agência Europeia de Segurança en Aviação (EASA na sigla em inglês), aponta que "90% dos acidentes aereos acontecem em aeroportos ou em seu entorno", ou seja, durante a decolagem e aterrisagem.

Desta forma, são poucos os acidente em que localizar os destroços de um avião seja de fato um problema. Normalmente, isto é resolvido em questão de horas.

Certamente, os casos da Air France e da Malaysian Airlines deixaram uma marca profunda na indústria de aviação.

Mas, segundo Maragakis, o acidente da Air France foi um marco pela combinação de fatores, semelhantes, até certo ponto, com o caso da Malaysian.

O acidente ocorreu em mar aberto, e por isso os restos do avião continuaram a se movimentar depois da queda. Além isso, ocorreu longe da costa, em um lugar de difícil aceso e com mau tempo.

Nestas condições adversas, quase se perdeu a corrida contra o tempo para localizar os destroços, recuperar a caixa preta e os corpos.

Soluções alternativas

Enquanto a Organização Internacional para Aviação Civil se pronuncia sobre um futuro sistema de rastreamento em tempo real, estão sendo testados sistemas alternativos para melhorar a comunicação nos voos comerciais.

Uma alternativa que está sendo estudada se chama transmissão ativada, surgida na esteira do caso da Air France. Ela só transmite um alerta quando acontece algo fora do comum, que poderia ser um acidente.

A vantagem da transmissão ativada sobre a transmissão contínua de informação é que é necessário transmitir muito menos informação.

Entretanto, a EASA, que regula a indústria na Europa, já introduziu uma série de mudanças após o acidente da Air France, que serão obrigatórias a partir de 2018.

Entre elas está uma atualização do dispositivo de localização debaixo d'água (ULD na sigla em inglês), que aumentará a vida da bateria após o contato com a água de algumas horas para 30 dias.

Também foi aventada a utilização de um novo dispositivo que aumenta de forma significativa o raio de distância pelo qual é possível detectar o sinal de uma caixa-preta por até 90 dias.

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