O desafio de criar rodas para o carro mais rápido do mundo

Bloodhound Supersonic Car Direito de imagem Stefan Marjoram
Image caption O Bloodhound Supersonic Car pretende acelerar a 1.609 km/h

O deserto de Hakskeen Pan, na África do Sul, é provavelmente a faixa de terra mais vazia do mundo. Até onde os olhos alcançam, só se vê as rachaduras do chão de terra queimada pelo sol. Mas quando alguém percorre o local a 1.609 km/h, até mesmo o terreno mais límpido apresenta perigos escondidos.

"É uma velocidade maior do que a de uma bala de revólver", explica o engenheiro Mark Chapman. "Se você passar por cima de um cascalho, é como se alguém estivesse disparando contra a roda".

Construir rodas à prova de "balas" é apenas um dos muitos desafios que Chapman enfrenta em seu posto de engenheiro-chefe do Bloodhound Supersonic Car, o carro mais rápido do mundo. "Estas serão as rodas mais velozes da história", diz ele.

O projeto Bloodhound SSC evoluiu a partir de alguns dos desenhos do Thrust SSC – o carro recordista anterior, que quebrou a barreira do som a 1.207 km/h em 1997.

Mas para o novo veículo conseguir acelerar mais do que isso, os engenheiros têm enfrentado alguns problemas singulares.

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Em busca do material ideal

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Image caption Rodas têm de resistir a superaquecimento e projeção de cascalho

Para começar, a equipe de Chapman teve que encontrar um material que pudesse resistir às forças fenomenais que são aplicadas nas rodas supersônicas.

Quando o carro circula em velocidade máxima, as rodas giram a incríveis 10.500 rotações por minuto, com as bordas sentindo uma força 55.000 vezes maior do que a da gravidade.

"Tivemos muita dificuldade para encontrar materiais que aguentassem essas velocidades", diz Chapman.

As rodas também teriam de aguentar os danos causados por pequenas pedras e cascalhos que seriam removidas do chão pelo carro e que bateriam nas rodas como uma salva de tiros. "Se as rodas rachassem, elas basicamente explodiriam".

Uma equipe de mais de 130 pessoas já está enfrentando as tempestades de areia e as altas temperaturas do deserto para tirar do percurso todas as pedras que encontrarem.

Além disso, o time de Chapman usou uma combinação de simulações matemáticas e teste físicos para chegar a uma liga de alumínio capaz de resistir a essas condições extraordinárias.

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Aro preciso

Direito de imagem Siemens NX
Image caption A prova final com o carro supersônico será em um deserto da África do Sul

Depois disso, Chapman teve de encontrar maneiras de evitar que as rodas deslizassem no chão de terra do deserto.

A uma velocidade supersônica, pneus de borracha rasgariam e se soltariam dos aros, então as rodas teriam que ser descobertas.

Primeiramente, a equipe as desenhou com um aro relativamente afiado, em forma de "V", que daria alguma aderência à superfície. Mas nos primeiros testes, eles perceberam que essa roda faria marcas profundas no chão, projetando mais pedras.

Eles então experimentaram designs mais curvilíneos e achatados, com sucesso. Essas rodas pressionam o chão e conseguem tração mas não afundam a terra.

Engenharia radical

A equipe também está preocupada com pequenos declives no percurso. O princípio é o mesmo do das lombadas – quanto mais rápido você passar por elas, mais vai sentir a diferença da superfície.

Como o Bloodhound SSC vai cruzar uma distância equivalente a um campo de futebol em apenas um quinto de segundo, mesmo a mais suave inclinação pode desestabilizar o carro. "Essas ondulações poderiam forçar a suspensão a entrar em ressonância e vibrar, tornando a experiência bem desconfortável para o piloto", diz Chapman.

Há ainda a preocupação com o superaquecimento das rodas. Em um rápido teste elas chegaram a 90 ºC. "É uma dessas coisas que não passam pela cabeça da gente, mas o ar deslocado pelas rodas se move duas vezes mais rápido que o som", afirma o engenheiro. É a fricção resultante que causa o aquecimento das rodas.

Quando essas questões forem resolvidas, a equipe espera realizar testes em asfalto na Grã-Bretanha a apenas 322 km/h, em meados deste ano, antes de seguir para Hakskeen Pan, onde esperam finalmente quebrar a barreira dos 1.609 km/h.

Será que vai valer a pena para Chapman? "Este é o melhor e o pior emprego do mundo", afirma ele.

"Estou com muitos mais cabelos brancos do que quando comecei o projeto, há sete anos. Mas os desafios são absolutamente fantásticos. Eu o descrevo como praticar engenharia radical sem rede de proteção. O que a gente está fazendo está colocando os limites muito acima do que qualquer pessoa já experimentou antes".

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.