Bélgica expõe manuscritos resgatados de guerra do Mali

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Uma exposição no Museu de Belas Artes de Bruxelas (Bozar) reúne pela primeira vez alguns dos manuscritos históricos de Timbuktu - que foram salvos em um arriscada operação sem precedentes de serem destruídos por rebeldes fundamentalistas islâmicos.

A importância histórica dos documentos levou a Unesco a declará-los patrimônio mundial da humanidade em 1988.

Sua preservação se deve ao empenho de Abdel Kader Haidara, diretor da biblioteca Mamma Haidara, fundada por seu pai e uma das 32 instituições guardiãs dos 350 mil manuscritos de Timbuktu.

Meses depois de milícias extremistas tomarem o controle da mítica cidade ao norte do Mali, em 2012, e começarem a destruir mausoléus e mesquitas, Haidara decidiu transferir os principais manuscritos à capital, Bamako.

Eles foram escondidos em cofres de metal usados habitualmente na região para o transporte de todo tipo de produtos, uma operação delicada devido à fragilidade e ao estado de conservação dos documentos.

Fora dos ambientes com ar-condicionado das bibliotecas, escondidos sob alimentos, rolos de tecido e outros ítens, os manuscritos estavam vulneráveis a mudanças de temperatura, umidade e luz, além de ataques de insetos.

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Desafio

Tirá-los de Timbuktu representava um enorme risco para as pessoas que aceitaram colaborar com a operação, na maior parte familiares dos administradores das bibliotecas locais.

Se descobertos pelos rebeldes, eles poderiam ser acusados de roubo e ter mãos ou pés amputados ou mesmo ser assassinados, de acordo com a sharia, a lei islâmica instaurada pelos novos administradores da cidade.

A viagem de Timbuktu a Bamako, separadas por cerca de mil quilômetros de estradas inóspitas, foi outro desafio. Em dias de sorte, o trajeto pode durar um dia inteiro em veículos 4x4.

Não foi o caso de Mohammed Touré, sobrinho de Haidara, que realizou a primeira transferência. Seu carro quebrou duas vezes, seu condutor errou o caminho, o grupo foi parado e e eles tiveram que subornar militares. O trajeto à capital durou uma semana.

Quando os rebeldes islâmicos bloquearam todas as estradas em direção ao sul do país, Haidara passou a enviar as caixas com manuscritos em canoas pelo rio Niger, um meio de transporte bastante comum na região, mas que leva uma semana entre Timbuktu e Bamako.

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Depois de nove meses de viagens, os principais documentos estavam a salvo em Bamako, em residências alugadas e equipadas com ar-condicionado e desumidificadores graças à ajuda de governos estrangeiros, entre eles Alemanha e Holanda.

"Foi uma das maiores operações de salvamento cultural da história", afirmou à BBC Brasil Kathleen Louw, diretora de projetos africanos no Bozar e organizadora da exposição "Timbuktu Renaissance".

Apenas 4,2 mil manuscritos de menor importância foram queimados pelos extremistas antes de abandonar Timbuktu fugindo do avanço do Exército francês.

O esforço de Haidara foi recompensado na Alemanha com o prêmio África em 2014.

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Tolerância

A exposição no Bozar, proposta pelo ministério da Cultura do Mali, reúne 16 dos manuscritos considerados mais representativos da coleção, acompanhados de tradução e contextualização.

Entre os textos, escritos em árabe e tamasheq (o idioma touareg), estão tratados medicinais, estudos do Corão, poesias, fórmulas matemáticas, descrições de batalhas protagonizadas por exércitos medievais.

Os mais antigos datam do século 11, quando Timbuktu era o epicentro espiritual, cultural e comercial do oeste africano.

Os mais recentes são do início do século 20 quando, sob a colonização francesa do Mali, Timbuktu começou a se transformar em uma localidade empoeirada e empobrecida às margens do Niger.

"Esses manuscritos revelam a complexa sociedade que havia em Timbuktu e mostram um discurso de tolerância. Por isso achamos importante realizar a exposição, principalmente no atual contexto mundial", explicou Louw.

"Eles mostram uma outra imagem do Islã, uma imagem de abertura, diferente da que a Europa tem hoje dessa religião".

Em um dos manuscritos, um líder religioso local observa: "Tragédias são causadas por diferenças e por falta de tolerância. Glória a Ele que cria maravilhas a partir de diferenças e deixa reinarem a paz e a reconciliação".

A exposição fica aberta até 22 de fevereiro.