Novos militantes seguem Al-Qaeda como ‘torcedores’, diz autor de livro

Mesquita em Paris Direito de imagem EPA
Image caption Jovens muçulmanos radicalizados podem estar "recuperando" a capacidade do Al-Qaeda de atacar alvos europeus

Enquanto deixavam os escritórios da revista de sátira política Charlie Hebdo, em Paris, na semana passada, os irmãos Cherif e Said Kouachi disseram ter agido sob ordens do grupo Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP). Nesta quarta-feira, o grupo publicou um vídeo assumindo a autoria do atentado.

Mas para um dos principais pesquisadores das atividades da rede extremista islâmica, o jornalista britânico Jason Burke, a ação que resultou na morte de 12 pessoas e chocou o mundo tem muito jeito de ter sido objeto de uma associação mais informal do que um plano mais elaborado de retomada de atividades em alcance global. Nem por isso menos perigosa.

Leia mais: Quem são os mandantes dos ataques na França?

"Há grande preocupação com os muçulmanos radicalizados na Europa porque eles dão a grupos como Al-Qaeda e 'Estado Islâmico' uma oportunidade de causar estragos na Europa de uma forma que vem sendo limitada, sobretudo depois do enfraquecimento da rede Al-Qaeda com as campanhas militares americanas no Afeganistão e no Iraque", explica Burke, autor do livro Al-Qaeda: A Verdadeira História do Radicalismo Islâmico, considerado uma espécie de "biografia" da rede extremista.

"Torcedor"

"Mas nem por isso devemos assumir que havia uma ligação formal entre os irmãos Kouachi e o AQAP. O perfil da militância radical islâmica mudou muito. O que antes era participação direta em atividades evoluiu para uma associação por afinidade. É algo comparável com a relação entre um time de futebol e um torcedor vivendo num país distante", acrescenta.

Direito de imagem French Police
Image caption Cherif (à esquerda) e Said Kouachi, autores do atentado à Charlie Hebdo, disseram estar agindo em nome do Al-Qaeda na Peninsula Arábica

Burke afirma que o fato de Saif Kouachi ter visitado o Iêmen em 2011, tendo possivelmente recebido treinamento militar e encontrado lideranças da Al-Qaeda como o clérigo Anwar al-Awlaki (um dos principais líderes da organização após Osama Bin Laden ter desaparecido nos anos seguintes ao 11 de setembro) não deve ser interpretado com um sinal imediato de que os irmãos foram preparados especialmente para um ataque.

"Sim, Kouachi recebeu algum tipo de treinamento, mas o ataque em Paris foi bem menos ambicioso que os atentados a bomba levados a cabo pela Al-Qaeda na década passada, que causaram centenas de mortes. O perigo aqui é que organizações como a Al-Qaeda e o 'Estado Islâmico' têm uma forte presença regional e sua propaganda radical chega facilmente a imigrantes de segunda e terceira geração marginalizados em países europeus", diz Burke.

Leia mais: O que é o jihadismo?

Segundo o jornalista, isso explica a preocupação das autoridades europeias com os jovens muçulmanos radicalizados que se juntaram temporariamente à militância armada em países como o Iraque e a Síria e agora retornam para casa - acredita-se, por exemplo, que pelo menos mil muçulmanos franceses tenham ido lutar na fileiras do "Estado Islâmico" na Síria. Mas, para Burke, é uma simplificação da situação.

Direito de imagem Getty
Image caption Coulibaly divulgou vídeo com a bandeira do 'Estado Islâmico', mas não há evidência de ligações formais com o grupo extremista

E ele usa como exemplo o caso de Amedy Coulibaly, autor do ataque a tiros a uma policial no sul de Paris na quinta-feira passada, e que no dia seguinte matou quatro pessoas ao invadir um supermercado judaico na capital francesa.

Coulibaly, assim como os irmãos Kouachi, foi morto pela polícia e em contatos com a mídia francesa durante o cerco ao supermercado disse estar agindo sob comando do "Estado Islâmico", alegação também feita num testemunho póstumo em vídeo divulgado no fim de semana. Mas não há registros de que tenha saído da França.

"Não será nenhuma surpresa para mim se vier à tona que os irmãos Kouachi e Coulibaly agiram por conta própria e buscando alguma legitimidade com uso do nome da Al-Qaeda e do 'Estado Islâmico', como se fossem "torcedores" das duas organizações. Eles tinham armas sofisticadas mas a França tem um histórico de ligações entre militantes radicais e traficantes de armas. Não dá para ser evidência imediata de algo mais sofisticado", acredita Burke.

Em seu livro, publicado seis anos após os atentados de 11 de setembro, o britânico defendeu o argumento de que a Al-Qaeda deve ser vista muito mais como uma espécie de "franquia ideológica", sendo como uma rede de militantes. Ele rejeita o uso do termo "ressurgimento" que comentaristas têm usado para se referir à retomada de atividade mais intensa do grupo.

"Como ideologia, aAl-Qaeda nunca saiu de cena. Seu campo de atuação global pode até ter diminuído bastante, mas as possibilidades de associação, mesmo que informais, com militantes na Europa é algo que precisa ser levado bastante a sério".

Notícias relacionadas