A experiência 'surreal' de viajar de avião com o papa

Image caption A "jornalista 69", como a correspondende da BBC foi identificada na comitiva papal

Uma viagem no avião do Vaticano junto com o papa é uma experiência um tanto surreal.

Para começar, muitos dos jornalistas que viajam com Francisco, os VAMPs (Vatican Media Accredited Personnel, ou, Funcionários de Mídia Credenciados do Vaticano), fazem apenas este trabalho. As mulheres exibem a elegância italiana, usando saltos altos, e até os cinegrafistas usam belos ternos e sapatos bem polidos.

O voo entre Roma e Colombo, a capital do Sri Lanka, é confortavel e o A330 da Alitalia é decorado com cores neutras de bom gosto. Os únicos toques mais coloridos do avião são os apoios para cabeça nas cadeiras, decorados com o brasão papal.

Viajamos para Colombo no primeiro dia da visita de seis dias do papa Francisco à Ásia e deve acabar no domingo, em Manila, nas Filipinas, onde haverá uma missa para milhões de pessoas.

A caminho do avião, cada jornalista recebe o kit de imprensa, com uma prévia dos discursos - sob embargo severo, não podem ser divulgados.

Sou a jornalista 69, um número que devo usar pendurado no pescoço pelo resto da viagem de uma semana.

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Os jornalistas entram juntos pela porta de trás do avião. O papa usa a porta da frente da aeronave.

A decolagem é tranquila e então, as cortinas em frente ao local onde estamos se abrem.

De repente, quase todos os jornalistas a bordo estão segurando algum tipo de câmera: desde as equipes de televisão com suas câmeras maiores, até os jornalistas com iPhones, todos tentando uma imagem do pontífice.

Frente a frente

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Image caption Segundo a jornalista da BBC, o avião da Alitalia é confortável e decorado com cores neutras de bom gosto

O papa agora está logo à nossa frente, a imagem reproduzida em dezenas de telas de câmeras nas fileiras de assentos. Ele usa a batina papal, imaculada, e exala uma aura de poder comum àqueles que estão no topo de organizações.

O porta-voz de imprensa, padre Federico Lombardi, faz um pequeno resumo explicando para onde vamos e entrega o microfone para Franciso. Ele é mais alto do que eu esperava e começa com um sorriso brilhante, enquanto anda pelas fileiras dizendo "olá" para a maioria dos jornalistas e profissionais.

O papa aperta mãos, tem as mãos beijadas por jornalistas mais devotos, faz um sinal de concordância quando alguém pede uma oração, abençoa e até conversa um pouco com alguns conhecidos.

A equipe de filmagem do próprio Vaticano se move para trás enquanto o papa avança pelas fileiras. Eles também estão bem vestidos com seus ternos.

O padre Lombardi anda atrás do papa.

Então, de repente, o papa Francisco está na minha frente, me olhando e eu me apresento, falando um italiano vacilante. A mão dele é quente e o aperto de mão é firme.

A presença dele é imponente e ele realmente não se impressiona com o fato de estar sendo filmado por tantas câmeras.

Pergunto o que ele espera desta viagem. Ele se inclina e fica mais próximo, oferecendo a orelha para tentar decifrar meu sotaque terrível, e abre um grande sorriso.

"Veremos", diz o papa erguendo uma sobrancelha, toca o meu braço de maneira calorosa e segue em frente. Nunca com pressa, mas passando apenas o tempo necessário para fazer o máximo de pessoas sentir que recebeu atenção dele.

Bolha

Nesta viagem temos 76 VAMPs - um grupo que inclui desde pessoas que não cobriram nada além do Vaticano durante décadas até outras que cobrem o Vaticano e outros assuntos italianos.

Sou a mais nova VAMP e, tendo acompanhado uma visita papal "de fora", em dezembro em Istambul, quero muito saber como é viajar dentro da comitiva do Vaticano.

É possível perceber que esta é uma instituição que persiste há milhares de anos. E a operação de imprensa é profissional e bem preparada.

O livreto que o Vaticano produziu para os jornalistas em vários idiomas mostra cada movimento que o papa deverá fazer, tudo planejado minuto a minuto.

Não há muito espaço para atrasos, mas há planos para lidar com estes atrasos e com ameaças de segurança.

Benção

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Image caption Colombo, a capital do Sri Lanka, se preparou para receber a visita do pontífice

Enquanto leio o livreto do material de imprensa do Vaticano, é marcante o fato de o papa não ser apenas o líder de uma antiga Igreja global, mas também um diplomata experiente, bem conectado, bem mais de que muitos chefes de Estado seculares.

Ele está no topo de uma organização com representantes em quase todos os países e, em troca, diplomatas da maioria dos países estão na Santa Sé.

Roma é um lugar que permite encontro, abertos ou secretos, entre todos eles. Não foi à toa que a diplomacia do Vaticano teve um papel importante, nas últimas semanas, na retomada das relações entre Estados Unidos e Cuba.

Enquanto voamos, as bençãos, orações e melhores votos do papa são transmitidos por telegrama aos governantes dos países sobrevoados pelo avião da Alitalia: da Albânia à Grécia, Turquia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Omã e Índia.

A cada chefe de Estado do país que sobrevoamos são oferecidas orações e bençãos, enquanto o líder dos 1,3 bilhão de católicos do mundo passa pelos céus noturnos.

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