Obama mira desigualdade em discurso do Estado da União; veja propostas

Barack Omaba (foto: Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Presidente americano pede que Congresso aprove uso da força contra autodeclarado "Estado Islâmico"

O presidente Barack Obama defendeu em seu discurso sobre o Estado da União uma série de medidas voltadas a atacar a crescente desigualdade social nos Estados Unidos. Entre as ações anunciadas pelo presidente na noite da terça-feira estão o corte de impostos para as famílias pobres e de classe média e o aumento de tributação de grandes empresas e dos mais ricos.

Obama voltou a defender o fim do embargo econômico imposto pelos EUA a Cuba desde os anos 60 - uma decisão que depende de aprovação do Congresso, atualmente controlado pela oposição.

Obama pediu ainda que os congressistas autorizem o uso da força contra o autodeclarado "Estado Islâmico" - grupo que controla parte da Síria e do Iraque - e que aprovem um conjunto de leis para combater ameaças cibernéticas.

O discurso do Estado da União ocorre todos os anos no Congresso e é transmitido em cadeia nacional de TV e rádio. Ele é um dos eventos mais importantes no calendário político dos Estados Unidos. Nesta terça, Obama o proferiu pela sexta e penúltima vez, já que tem apenas mais dois anos no cargo.

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O presidente deverá ter dificuldades para tirar boa parte de suas propostas do papel, já que o Partido Republicano, de oposição a seu governo, cresceu na última eleição legislativa e hoje ocupa a maioria das cadeiras nas duas Casas do Congresso.

Nos últimos dias, conforme jornais americanos passaram a antecipar detalhes do discurso, líderes republicanos prometeram barrar as propostas no Congresso, especialmente o aumento de impostos para grandes empresas.

Eles argumentam que a medida desencorajaria novos investimentos, prejudicando a economia.

Veja, abaixo, os principais pontos do discurso.

Mais impostos para ricos e grandes empresas

Segundo Obama, lobistas conquistaram incluir no código tributário americano brechas que permitem que algumas empresas se livrem de pagar impostos, especialmente se mantiverem seus lucros no exterior.

Ele propôs pôr fim a essas brechas.

Obama defendeu ainda "acabar com as brechas que geram desigualdade ao permitir que o 1% mais rico deixe de pagar impostos sobre sua riqueza acumulada".

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Ele afirmou que detalharia as propostas nas próximas semanas.

Segundo assessores da Casa Branca, o governo espera que as ações gerem receitas de US$ 320 bilhões em uma década.

Antes do discurso, o republicano Raul Ryan, referência do partido para questões tributárias, afirmou que a proposta "não era séria".

Em vez de aumentar os impostos das grandes empresas, ele defendeu simplificar o sistema e baixar as alíquotas.

Menos impostos para pobres e classe média

Obama diz que o aumento de impostos entre os mais ricos compensaria cortes para americanos pobres e de classe média. Famílias nessas categorias poderiam economizar até US$ 3 mil por ano por cada filho, o que lhes permitiria ampliar seus gastos com babás e creches, segundo o presidente.

Obama defendeu que o Congresso aumente o salário mínimo (hoje de US$ 7,25 por hora) e desafiou membros da oposição que se opõem à medida. "Se você realmente acredita que poderia trabalhar em tempo integral e sustentar sua família com menos de US$ 15 mil ao ano, tente".

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Fim do embargo a Cuba

Depois de em dezembro anunciar o restabelecimento de relações diplomáticas com Cuba, Obama voltou a defender em seu discurso o fim do embargo econômico imposto à ilha em outubro de 1960, em represália à revolução socialista liderada por Fidel Castro.

Se no caso das relações diplomáticas Obama teve como usar poderes especiais para não enfrentar um Congresso em que o partido da oposição, o Republicano, é maioria tanto entre deputados e senadores, o presidente democrata agora precisará da aprovação do legislativo para qualquer decisão relacionada ao embargo.

"Em Cuba, estamos pondo fim a uma política que já perdeu a data de validade. Quando algo que você está fazendo há 50 anos não produz resultados, é hora de tentar algo novo", disse Obama em seu discurso.

"Nossa mudança de posição tem o potencial para dar fim a um legado de desconfiança", acrescentou.

"Estado Islâmico"

Obama disse que, no Iraque e na Síria, a liderança americana - incluindo sua força militar - está freando o avanço do autodeclarado "Estado Islâmico".

"Em vez de sermos arrastados para outra guerra terrestre no Oriente Médio, estamos liderando uma ampla coalizão, incluindo nações árabes, para degradar e destruir este grupo terrorista", disse o presidente.

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Ainda assim, ele pediu que o Congresso "mostre ao mundo que estamos unidos nesta missão aprovando uma resolução que autorize o uso da força contra o Isis (sigla pela qual também é conhecido o 'Estado Islâmico')".

Obama não detalhou de que maneira a força seria usada.

Faltas remuneradas

O presidente cobrou o apoio do Congresso a uma lei que garanta aos trabalhadores americanos até sete faltas remuneradas por razões médicas ao ano. Estima-se que 44 milhões de americanos não tenham direito a receber por faltas por doença.

"Hoje somos o único país desenvolvido no mundo que não garante pagamento de faltas por doença ou licença maternidade aos nossos trabalhadores", disse ele.

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A Federação Nacional de Negócios Independentes, grupo que defende os interesses de pequenos empresários, é contra a medida e diz que ela causaria cortes em salários e em contratações.

Universidade gratuita

Conforme anunciara nas últimas semanas, Obama afirmou que enviará uma proposta que zeraria os custos dos dois primeiros anos de universidade em Faculdades Comunitárias.

Cerca de 40% dos universitários americanos optam por estudar em Faculdades Comunitárias, em geral mais baratas que as demais.

Ele diz que a medida ampliaria a oferta de mão de obra qualificada nos Estados Unidos e reduziria o endividamento dos universitários. O ensino superior é pago nos EUA.

Críticos da proposta dizem que as Faculdades Comunitárias têm baixa qualidade e que a medida geraria um rombo orçamentário.

Segurança cibernética

Obama voltou a defender que o Congresso aprove uma legislação que responda à ameaça de ataques cibernéticos, combata o roubo de dados e proteja as informações de usuários, principalmente crianças.

O presidente disse que o governo está integrando seus serviços de inteligência para combater ataques virtuais, assim como age nas ações contra o terrorismo.

Aquecimento global

Obama citou o anúncio recente da Nasa (agência espacial americana) de que 2014 foi o ano mais quente já registrado para defender ações contra o aquecimento global.

"É por isso que, nos últimos seis anos, fizemos mais do que nunca para combater a mudança climática, do modo como produzimos energia para a forma como a usamos."

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Ele ameaçou vetar ações do Congresso que revertam suas medidas no setor.

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