Por que a reunião de Davos é relevante para o Brasil?

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Image caption Desigualdade e preços do petróleo estão entre os temas a serem debatidos no encontro deste ano

O encontro do ano passado da elite política e econômica mundial na estação de esqui suíça Davos já foi particularmente difícil para o Brasil. "Não foi fácil ouvir alguma notícia positiva sobre o país", escreveu, na época, o jornal britânico Finacial Times, que retratou o Brasil como o grande perdedor do encontro.

Mas as perspectivas para o Fórum Econômico Mundial que começou nesta quarta-feira e deve terminar no sábado não são muito mais otimistas.

Segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, o encontro é importante por dar ao Brasil a dupla chance de sinalizar que está fazendo mudanças para retomar os rumos do crescimento e de ter alguma voz em debates sobre a economia internacional que possam ter repercussão no país.

Há certo consenso de que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem condições de convencer empresários, autoridades e políticos estrangeiros de que o governo está empenhado em fazer uma mudança na política econômica e, em especial, um ajuste fiscal. Mas as dúvidas sobre se o país será capaz de melhorar o ambiente para os investimentos e voltar a crescer não devem ser dissipadas tão facilmente.

"O governo brasileiro já está passando o recado de que está comprometido com as metas fiscais e o controle da inflação", diz Christoper Garman, especialista em mercados emergentes da consultoria Eurasia Group.

"Mas falta apresentar uma agenda reformas que ajude a retomada do investimento e crescimento. E isso será muito mais complicado, porque o avanço nesta agenda depende de fatores como apoio político do Congresso."

Para Garman, o fato de a presidente Dilma Rousseff ter decidido não participar de Davos este ano (ela preferiu ir para a posse do presidente boliviano, Evo Morales) representa uma "oportunidade perdida".

Leia mais: Evo assume com desafio de retomar crescimento apesar de baixa do gás

"Provavelmente Dilma calculou que ao ir a Davos poderia ser vinculada fortemente a essa agenda de aperto monetário e fiscal - algo que está tentando evitar", opina.

Marcos Troyjo, especialista em Brics da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, concorda. "O ministro Levy pode falar sobre ajuste fiscal, mas há outros temas como política industrial, comércio exterior e combate à corrupção nas quais seria importante que o Brasil desse sinais claros de como pretende fazer avanços - e sobre esses temas ele não tem autoridade", diz Troyjo.

Já Fernando Ferrari, especialista em economia internacional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, acha que o Brasil não tem nada a perder com a ausência da presidente.

Para ele, Levy fala a "linguagem" dos mercados, sendo um interlocutor até melhor que a presidente em um fórum como Davos.

Entre os eventos na agenda de Levy nesta quinta-feira estão uma reunião com Christine Lagarde - presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), que acaba de rebaixar as previsões de crescimento do Brasil para este ano de 1,4% para 0,3%.

Levy também deve se encontrar com investidores estrangeiros e com o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luis Alberto Moreno.

Temas

O Fórum Econômico Mundial tem como objetivo o debate sobre temas relevantes para a economia internacional. Como ressalta Troyjo, apesar de seu objetivo não ser uma coordenação de políticas entre países, o encontro é uma "caixa de ressonância" de idéias e tem grande visibilidade.

"Daí a importância do Brasil usar esse palco para conseguir melhorar um pouco a credibilidade de sua economia", diz Ferrari.

Entre os temas que devem ser discutidos no encontro deste ano e que interessam ao Brasil estão o aumento da desigualdade entre ricos e pobres, a queda dos preços do petróleo e as repercussões, sobre os países emergentes, das políticas econômicas adotadas nos EUA e Europa.

Nesta quinta-feira o Banco Central europeu anunciou que irá começar a implementar um programa de compra de títulos para aumentar a liquidez na zona do euro - o que no jargão econômico é conhecido como quantitative easing, ou afrouxamento quantitativo.

Os Estados Unidos, por sua vez, no ano passado colocaram fim a seu programa de estímulos. Com indícios de que a economia americana estaria se recuperando, agora a expectativa é que haja um aperto monetário no país.

Para alguns líderes globais, porém, essa falta de sincronia poderia causar turbulências no mercado financeiro internacional que atingiria os países emergentes em um momento em que a maioria deles enfrenta uma desaceleração.

"Nesse momento delicado para a economia brasileira, qualquer debate ou decisão que ajude a impulsionar a economia global, é de grande importância para o país", diz Ferrari. "Uma retomada do crescimento mundial poderia facilitar esse imenso desafio de fazer o país voltar a crescer."

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