Saiba quem são os hutis, os rebeldes que derrubaram o governo do Iêmen

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Image caption As milícias xiitas houthis invadiram e assumiram o controle de Sanaa, capital do Iêmen, em setembro de 2014

Depois de quatro dias de combates e negociações entre militantes xiitas hutis, o presidente do Iêmen, Mansour Hadi Abdrabbuh, e membros de seu gabinete apresentaram suas renúncias na quinta-feira.

Com isto, os hutis, que em setembro passado assumiram o controle da capital Sanaa para exigir uma maior participação dos xiitas no governo e na tomada de decisões no país, se consolidaram como o poder de fato no Iêmen.

Abu al Malek Yousef al Fishi, um dos líderes do grupo, recebeu a renúncia do governo e propôs o estabelecimento de um conselho presidencial que inclua grupos políticos liderados pelos próprios hutis, pelo Exército e alguns partidos iemenitas.

A renúncia do gabinete de governo ocorreu no auge da mais grave crise dos últimos anos no Iêmen e parece encerrar a transição do país para a democracia, que começou logo que o presidente Ali Abdullah Saleh foi obrigado a abandonar o poder em 2011.

O governo de Abdrabbuh, que era mantido em prisão domiciliar pelos rebeldes, foi formado em fevereiro de 2012 com apoio da ONU.

'Partidários de Deus'

Os hutis são membros de um grupo rebelde que também é conhecido como Ansar Allah ("Partidários de Deus", em tradução livre), que seguem uma corrente do islamismo xiita conhecida como zaidismo.

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Os zaidistas formam um terço da população e governaram o Iêmen do Norte seguindo um sistema conhecido como imanato durante quase mil anos, até 1962.

O nome "hutis" deriva de Hussein Badr al Din al Huti, que liderou a primeira revolta do grupo, em 2004, em uma tentativa de conseguir mais autonomia para a província de Sadá, que os rebeldes consideram a terra deles, e também para proteger a religião zaidista e suas tradições culturais.

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Image caption Os rebeldes controlam não apenas a capital, mas outras regiões do Iêmen, um país predominantemente sunita

Os soldados iemenitas mataram Huti no fim de 2004; a família do líder rebelde assumiu o controle do movimento e liderou outras cinco rebeliões antes que um cessar-fogo fosse fechado com o governo, em 2010.

Em 2011, os hutis se uniram aos protestos contra o ex-presidente Saleh, cujo regime durou mais de 30 anos, e se aproveitaram do vácuo de poder para expandir o controle territorial nas províncias de Sadá e Amran.

Em fevereiro de 2014, eles participaram da Conferência para o Diálogo Nacional, na qual o presidente Abdrabbuh anunciou os planos para que o Iêmen se convertesse em uma federação de seis regiões.

Em julho deste ano, os hutis, com apoio do principal partido sunita islâmico do país, o Islah, impuseram várias derrotas a grupos tribais e milícias na província de Amran.

O grupo alega que os iemenitas tinham acolhido estes grupos porque se sentiam frustrados com o governo de transição dominado por setores ligados ao antigo regime, incluindo as famílias Saleh e Ahmar e o próprio partido Islah.

Instabilidade

Nos últimos anos, a instabilidade tem sido uma realidade constante em praticamente todas as regiões do Iêmen.

O norte do país tem sido cenário de conflitos entre o governo e os hutis e, no sul, ocorrem distúrbios separatistas. Também ocorrem ataques frequentes da Al-Qaeda na Península Arábica e há lutas de poder entre facções tribais e militares.

Também foram registrados confrontos violentos entre partidários do ex-presidente Saleh e ativistas a favor da democracia.

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Image caption O presidente deposto, Mansour Hadi Abdrabbuh, continua cercado, preso dentro da própria casa

Acredita-se que mais de dez milhões de iemenitas sofrem com a insegurança alimentar em um país marcado pelo desemprego, os altos preços dos alimentos e os serviços sociais limitados.

Em agosto, o grupo liderou grandes manifestações contra o governo que exigiam a redução do preço do combustível e a nomeação de um novo governo.

O líder do grupo, Abdul Malik al Huti, exigiu que o presidente Mansour Hadi Abdrabbuh revogasse a decisão de acabar com subsídios, decisão que afetou muito os mais pobres do país.

Ele também pediu para que o governo "corrupto" fosse substituído por um mais representativo das diferentes facções do Iêmen.

Enquanto isso, os hutis se infiltravam na capital com milícias fortemente armadas e partidários de grupos tribais. Em setembro, eles assumiram o controle da cidade.

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Pouco depois, em meio a um período turbulento, o governo, partidos políticos e o movimento houthi firmaram um acordo de paz no dia 21 de setembro, mas este acordo não foi totalmente implementado.

Os líderes hutis entenderam que poderiam usar a força militar para mudar o mapa político e o equilíbrio de poder a seu favor: como não venceram a batalha política, os combatentes se propuseram a mudar tudo no campo de batalha.

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Image caption Partidários dos houthis participaram de protestos que exigiam a redução dos preços dos combustíveis e um novo governo

Eles avançaram sistematicamente em novos territórios, em confrontos violentos com milícias tribais, forças do governo e militantes da Al-Qaeda e estabeleceram um certo grau de controle em pelo menos nove das 22 províncias do Iêmen.

Financiamento iraniano?

A estabilidade do Iêmen é uma prioridade dos Estados Unidos e seus aliados no Golfo Pérsico devido à sua posição estratégia: um dos vizinhos é a Arábia Saudita, o maior exportador de petróleo do mundo.

Também é a base da Al-Qaeda na Península Arábica, um dos braços regionais mais ativos da Al-Qaeda, o mesmo que os EUA estão tentando enfrentar com uma combinação de ataques com drones e incentivando o combate antiterrorismo local e dando assistência em questões de segurança.

Muitos temem que as vitórias do hutis possam aumentar as tensões sectárias e políticas da região.

A Arábia Saudita, por exemplo, que é o principal poder sunita da região, acredita que os rebeldes recebem apoio militar, financeiro e político do Irã, que é seu grande oponente xiita na região.

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Image caption Os moradores da capital, Sanaa, protestam contra a presença de combatentes armados na cidade

O Irã e os hutis negam esta associação.

No Iêmen, os membros do partido Islah já falaram de seu temor de perseguição por parte dos hutis, e esperam que o grupo tente reinstalar o imanato zaidista no país.