Novo museu judaico de SP terá utensílios e histórias de campos de concentração

Maior museu dedicado à cultura judaica na América Latina será inaugurado em 2016 em São Paulo Direito de imagem MUSEU JUDAICO DE SP
Image caption Maior museu dedicado à cultura judaica na América Latina será inaugurado em 2016 em São Paulo

Esqueça os quadros, esculturas e obras de arte suntuosas: no maior museu judaico da América Latina, que abre as portas no ano que vem em São Paulo, as grandes estrelas serão bonecas, roupas, móveis e objetos pessoais.

Mais de 700 peças cotidianas usadas por famílias judias reocuparão os salões da antiga sinagoga Beth-El, construída no final dos anos 1920 e fechada em 2007 ─ já com a estrutura comprometida e a fachada literalmente caindo.

São itens de momentos distintos na vida de refugiados judeus - dos campos de concentração, do dia a dia na Europa durante a Segunda Guerra e após a chegada ao Brasil.

O local, na rua Martinho Prado, próximo à Av. Nove de Julho, antes frequentado por algumas das famílias mais ricas do país, perdeu público com a desvalorização da região central da cidade. Hoje a área vive momento oposto ─ o investimento em restauro e ampliação do prédio histórico (que terá nova ala de vidro) deve alcançar R$ 26 milhões, dos quais R$ 900 mil vêm do governo alemão.

"O Brasil tem papel especial porque acolheu as pessoas", diz a doutora em Literatura em pela USP Nancy Rozenchan, que faz parte do conselho de curadores do futuro Museu Judaico de São Paulo. "Na Europa, a guerra teve impacto mais forte e traumático", diz.

A constatação não sugere que a experiência por aqui tenha sido simples.

"Demorou bastante tempo para que as relações com o Holocausto viessem à tona na cultura brasileira", diz a pesquisadora. "Os que sobreviveram foram pessoas que sofreram muito e perderam familias, bens, nome, identidade. Quando chegavam no Brasil, pensavam naqueles que não resistiram", diz. "Tudo muito cruel."

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Image caption Imagens mostram diferentes etapas do processo de restauro de documentos do acervo

Do centro do salão principal, o médico Sérgio Simon, presidente do novo museu, aponta para a vizinha praça Roosevelt, que, nos anos 1940, teria sido reduto de simpatizantes do regime de Adolf Hitler. "O partido nazista o os integralistas foram muito fortes aqui e o Brasil recebeu muitos nazistas", diz.

Séries de passaportes com nomes alterados e diplomas profissionais confiscados vão ilustrar as dificuldades enfrentadas pelos judeus durante o governo Vargas (1930 - 1945). "A meta é criar uma espaço de referência sobre as relações históricas do Brasil tanto com judeus, quanto com os nazistas", diz Simon.

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Talheres e suásticas

Diferente de vários museus mundo afora, o valor da maioria das peças que serão expostas é simbólico, não financeiro, afirmam os curadores.

Os ambientes iluminados por vitrais amarelos de 1929 trarão, por exemplo, garfos e facas de prata decorados com suásticas talhadas. Eles eram usados diariamente no mais sanguinário dos campos de concentração - Auschwitz, na Polônia, cuja liberação por tropas soviéticas completa 70 anos nesta terça-feira.

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Image caption Células ilustradas com estrelas de Davi eram usadas como moeda de troca no campo de concentração Theresienstadt

"O conjunto de talheres era restrito aos oficiais nazistas, não a judeus ou outros prisioneiros. São objetos que trazem uma imagem tremenda da diferença entre um lado e outro nos campos de concentração", explica a pesquisadora Rozenchan.

O trajeto entre Auschwitz e o centro paulistano se deu graças a uma judia húngara que trabalhava na cozinha do campo de concentração mais famoso do nazismo.

"Ela cozinhava para os oficiais e num gesto último escondeu estas peças, que nos foram cedidas por sua neta", diz a professora.

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Bilhetinhos e dinheiro

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Image caption Diário escrito entre 1941 e 1942 narra cotidiano de adolescente judia em meio ao nazismo

Um caderninho simples e amarelado de 28 páginas se destaca na coleção, que conta com doações dos museus judaicos de Nova York, Berlim e Jerusalém: trata-se do diário da pré-adolescente alemã Lore Dublon, escrito entre março de 1941 e janeiro de 1942.

"Era uma mocinha de 13 anos que foi com os pais da cidade alemã de Erfurt para a Bélgica, tentando escapar do regime", conta Simon. "Como Anne Frank [cujo diário escrito durante o nazismo virou best-seller e filme], ela descrevia ali seu dia a dia, guardava bilhetinhos de amigos e entradas de cinema. Teve um namoradinho que 'sumiu': ela não entendia que ele tinha ido para um campo de concentração", afirma.

Antes de chegar às mãos de um engenheiro em São Paulo, o diário foi recuperado por um tio da menina, que o enviou para parentes que viviam no Uruguai. Perdido por mais de seis décadas, o texto não dá pistas sobre o destino de Lore e seus parentes.

Os curadores respondem: "Lore e sua família foram exterminados em Auschwitz".

Tão amareladas quanto o caderno estão as células ilustradas com estrelas de Davi (nos valores de 1, 2, 5, 10, 20, 50 e 100), usadas como moeda de troca no antigo campo de concentração Theresienstadt, na atual República Tcheca.

"Este campo foi uma tentativa de camuflar o regime, transformá-lo num pseudoparaíso", avalia a professora Rozenchan. "As pessoas na prática tinham todo o seu dinheiro confiscado e trocado por estas notas que compravam nada, não serviam para nada", diz.

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Pobres e negros

Image caption Sergio Simon, presidente do museu: "Meta é criar espaço de referência sobre as relações históricas do Brasil tanto com judeus, quanto com os nazistas"

Iniciada em 2011, a construção do Museu Judaico tinha fim previsto para este ano - o que não se previu foi a dificuldade em fincar novos pilares no solo alagado da região, por onde passa um rio canalizado.

"Precisamos refazer as fundações e isso nos tomou muito tempo", afirma o presidente do museu, que recebeu doação de R$ 1 milhão do governo de São Paulo via lei Rouanet. "Este é um dos melhores projetos de museus não só do país, mas talvez do mundo", disse o governador Geraldo Alckmin, que esteve por lá.

A direção espera receber público entre 50 e 70 mil pessoas por ano após a inauguração, cuja obra envolve pelo menos 200 homens.

"Não queremos um espaço fechado pela comunidade, mas frequentado por todo mundo", diz o presidente.

"Quem serão estas pessoas?", pergunta a reportagem.

"Alunos de escolas públicas, por exemplo", responde Simon, em frente ao pesado altar de madeira recém-restaurado. "Pobres e negros no Brasil são como os judeus: sempre foram discriminados."