Por que Putin não foi a Auschwitz?

Putin fala em museu judaico em Moscou | Foto: Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Convites para as comemorações de 70 anos da liberação de Auschwitz foram abertos a embaixadas, e não enviados aos presidentes

A delegação da Rússia na cerimônia em memória dos 70 anos da liberação do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, ocorrida nesta terça-feira, não foi encabeçada pelo presidente russo, Vladimir Putin, mas por seu chefe de gabinete (o equivalente ao ministro-chefe da Casa Civil no Brasil), Sergey Ivanov.

Não há regras rígidas ou uma prática diplomática estabelecida para eventos comemorativos como esses. Os presidentes da França, da Alemanha e da Ucrânia, por exemplo, participaram da solenidade, mas o presidente americano Barack Obama não.

Em 2005, Putin esteve presente nas comemorações dos 60 anos do evento. Então por que, desta vez, o presidente russo não foi a Auschwitz?

Segundo Moscou, ele não foi oficialmente convidado. Só que, neste ano, em vez de convidar individualmente chefes de Estado ou governo, a Fundação Auschwitz-Birkenau, responsável pela preservação da memória do campo, enviou um convite aberto a embaixadas.

Na prática, especialistas veem a ausência de Putin à luz de um quadro mais amplo, que engloba as relações atuais da Rússia com o Ocidente, em geral, e com a Polônia, em particular.

"As relações estão tensas, tudo está ficando cada vez mais sensível, todo mundo está buscando motivos ocultos", afirmou o cientista político Aleksey Vorobyev ao serviço russo da BBC.

Para Vorobyev, Putin não pediu para ser convidado a Auschwitz porque temia receber uma resposta negativa "humilhante".

No próximo dia 9 de maio, Moscou será tomada por grandes comemorações em memória do 70º aniversário do Dia da Vitória Soviética na 2ª Guerra Mundial.

"Mas é pouco provável que os líderes ocidentais participem da parada que a liderança russa usará sem dúvida alguma para fazer declarações políticas de seu interesse atual", avalia Vorobyev.

Especialistas veem outras duas razões para a ausência de Putin em Auschwitz.

Em primeiro lugar, as relações entre Rússia e Polônia estão especialmente hostis mesmo após o esfriamento das tensões entre Moscou e o Ocidente. Em segundo, Moscou é particularmente sensível a investidas de seus ex-satélites soviéticos.

O governo polonês tem sido um dos maiores críticos à intervenção russa na Ucrânia. Além disso, apoiou abertamente a imposição de mais sanções econômicas contra Moscou.

"Os poloneses não estavam particularmente felizes sobre a perspectiva da vinda de Putin", disse à BBC Konstanty Gebert, colunista do jornal Gazeta Wyborcza, um dos principais da Polônia.

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Image caption Auschwitz foi maior campo de concentração nazista; 1,6 milhão ─ a imensa maioria judeus ─ teria morrido no local

"Se os russos tivessem dito 'bem, nosso presidente irá à comemoração' seria uma coisa, Putin estaria em Auschwitz. Mas Putin ficou ofendido por não ter sido especificamente convidado, e suponho que os poloneses já esperavam tal reação, evitando portanto uma situação constrangedora."

"Seria incongruente ter Putin em Auschwitz por causa das recentes ações do governo russo. Em geral, a presença da Rússia nas cerimônias de Auschwitz não é só indispensável como altamente desejável, devido ao contexto histórico", acrescentou Gebert.

O papel dos ucranianos

O estopim que anulou qualquer possibilidade de vinda de Putin a Auschwitz teria sido, no entanto, uma declaração polêmica do ministro das Relações Exteriores polonês, Grzegorz Schetyna, a uma rádio do país.

Questionado se a Polônia errou ao não ter convidado Putin individualmente para o evento, Schetyna creditou a liberação de Auschwitz aos ucranianos e não ao Exército Vermelho soviético.

A resposta de Moscou veio por meio do chanceler russo, Sergei Lavrov, que classificou os comentários de Schetyna como "blasfêmias" e "cínicos".

Lavrov também afirmou que já era tempo de a Polônia parar com "essa história ridícula" de "envolver-se nessa histeria anti-Rússia".

Segundo o chanceler russo, Auschwitz foi liberada pelo Exército Vermelho, composto de "russos, ucranianos, chechenos, georgianos e tártaros".

Na prática, o campo de concentração foi liberado pelo Primeiro Front Ucraniano do Exército Vermelho, composto, por sua vez, de ucranianos e russos. O major Anatoly Shapiro, um judeu ucraniano, liderou o batalhão que invadiu o local.

Na sexta-feira passada, Schetyna reafirmou que estava certo. Ele disse que era "óbvio" que o Exército Vermelho "multiétnico" liberou Auschwitz, mas que, na verdade, foi um militar ucraniano, Igor Pobirchenko, o primeiro a ter atravessado os portões do campo dirigindo um tanque.

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