No Malauí, população vive 'submersa', mas sem água para beber

AP Direito de imagem BBC World Service
Image caption Enchentes devastaram o Malauí nas últimas semanas

As enchentes que ocorreram recentemente no Malauí deixaram centenas de mortos, muitos outros desabrigados e devastaram lavouras. A repórter da BBC Rosie Blunt visitou as áreas mais afetadas.

Há mais de uma semana, o ciclone Bansi atingiu o Malauí, mas ao observar o que antes era um mercado aberto ao lado do rio Phaloni, a impressão é de que as fortes chuvas e vento atingiram o local na segunda-feira.

A água barrenta atinge as janelas das lojas e o cheiro de esgoto, com o calor, é forte. Várias pessoas estão passando em barcos, tentando recuperar alguns objetos.

Quando saí do Malauí para minhas férias, no meio de dezembro, o avião decolou em meio a uma paisagem seca e sedenta. Três semanas depois, voltei para um cenário verde e fértil ─ e as chuvas começaram.

Depois de uma seca de um mês, a chuva foi recebida com alívio. Antes, ficávamos sem água nas torneiras durante dias e havia o temor de que as lavouras morreriam.

Leia mais: Impacto de crise da água é o mais temido por elite mundial

Então, as primeiras chuvas chegaram, intercaladas com sol quente.

Mas, de repente, começaram as chuvas torrenciais, pesadas, martelando os telhados durante a noite, com gotas grandes e pesadas. Caminhos e ruas ficaram cheios de água e a chuva não parou durante três dias.

A segunda noite chegou com os ventos. Telhados e árvores foram arrancados. Postes foram derrubados e a fiação ficou caída na água, expondo pedestres ao risco.

Desde então, centenas de pessoas foram mortas ou estão desaparecidas. Outras milhares perderam as casas.

Mais do que afogamentos

As enchentes não matam as pessoas apenas por afogamento. Elas matam ao destruir lavouras, o que pode provocar fome. Elas matam ao espalhar doenças. As enchentes também mataram ao levar embora casas, posses e o sustento.

Este não foi apenas um desastre que vai durar alguns dias ou semanas e depois desaparecer. Para muitos, o problema se estenderá por anos.

Outro dia visitei Phalombe, uma das áreas mais afetadas. Mais de 20 mil casas foram destruídas e cada uma tinha, em média, cinco moradores. Algumas áreas estavam embaixo de 2,5 metros de água.

Direito de imagem BBC World Service
Image caption Grandes áreas cultiváveis foram alagadas e lavouras foram perdidas

As enchentes já tinham castigado as estradas de terra e eu viajei pela região na garupa de uma moto. É uma viagem longa e acidentada.

No primeiro vilarejo, Chimombo, o líder local aponta para o pescoço quando pergunto a que altura a água chegou. Até onde se pode ver, a terra está coberta de lama, com alguns brotos verdes revelando o que são lavouras arruinadas.

Leia mais: Cheia agrava situação de imigrantes no Acre

Pilhas de madeira e tijolos podem ser vistos em meio à lama. Foi exatamente isso que restou das casas.

Acampamentos

A maioria das pessoas que vivia aqui agora estão no Acampamento de Emergência de Miwemba, que já recebeu mais de 2 mil pessoas. Felizmente, o Unicef doou três barracas enormes e há um poço funcionando perto do local.

Os desabrigados se sentam na sombra das árvores. Quando aceno e digo olá, eles são simpáticos e respondem com entusiasmo à minha tentativa limitada de falar o idioma local, o chicheua.

À primeira vista, você não imaginaria que estas famílias e pessoas perderam tudo ─ abrigo, comida, animais e o todo o dinheiro que possuíam, pois as pessoas nos vilarejos raramente têm contas em bancos.

Mas eles simplesmente estão escondendo o desespero. Como começar de novo não tendo absolutamente nada? Pergunto a um agricultor, que simplesmente responde: "Estou esperando alguém nos ajudar".

O segundo acampamento de emergência, que acomoda aqueles que viviam nos vilarejos às margens do rio Phaloni, está bem pior do que Miwemba.

Não há barracas, poços e há pouca comida.

Três prédios abrigam 713 pessoas, incluindo 193 crianças com menos de cinco anos. A maioria precisa dormir do lado de fora, apesar da chuva. A tristeza é muito mais palpável aqui.

As pessoas ficam sentadas no sol, parecem não ter vida nem esperança. As crianças estão desnutridas.

"Sem água, sem abrigos, os mosquitos estão picando", disse uma idosa, o que causou risos entre as outras pessoas.

Apesar das risadas, é preciso lembrar que a malária é comum no país e dormir ao relento aumenta ainda mais o risco de contaminação.

Direito de imagem AP
Image caption Em alguns acampamentos de emergência, os desabrigados ficam ao relento

Outro problema grave é a contaminação por cólera, que Mandinda Zungu, coordenadora de programas para a Comissão Católica de Desenvolvimento no Malauí, descreve como uma bomba-relógio.

"Os encanamentos estão bloqueados ou destruídos. Por isso, o fornecimento de água potável foi cortado. As pessoas estão tomando banho em riachos e bebendo a mesma água logo mais abaixo. Elas também usam os campos como banheiros e, quando chove, tudo é levado para os rios. Poucos poços estão funcionando, aqueles em funcionamento podem estar contaminados", disse.

Esta é a crueldade das enchentes ─ água, água por toda parte mas nenhuma gota para beber. A chuva que muitos esperavam trouxe apenas devastação.