Como o medo está sufocando a cena musical do Paquistão

Crédito: BBC
Image caption Músicos dizem que se viram forçados a buscar outras fontes de sustento, como atuar ou fazer propagandas

Antes o local mais animado de música ao vivo em Islamabad (capital do Paquistão), Shakarpian está hoje praticamente abandonado.

O cenário desolador dessa espécie de arena a céu aberto reflete uma realidade que tomou conta do país. O medo dos ataques extremistas matou a outrora vibrante cena musical, e os shows ao vivo já não ocorrem mais.

Músicos dizem que se viram forçados a buscar outras fontes de sustento, como atuar ou fazer propagandas.

Já os diretores linha-dura das universidades estatais defendem uma proibição mais rígida contra a música.

Shows ao vivo no Paquistão estão se tornando cada vez mais e mais exclusivos, limitados a um pequeno número de convidados, normalmente em eventos corporativos.

Recentemente, casas noturnas e até músicos tornaram-se alvos de extremistas agindo no país.

Mais de 10 lojas de CD e de vídeo e pelo menos três santuários sufis, onde a música faz parte das cerimônias religiosas, foram atacadas nos últimos cinco anos.

"O fato de que se trata de uma ameaça não-declarada torna toda a situação muito mais sinistra, criando um ambiente no qual se o governo permite tais eventos, o risco de que haja atentados extremistas é alto", diz o editor da BBC Urdu Aamer Khan.

Para piorar, a internet não é uma alternativa viável para aspirantes a músicos já que o YouTube é bloqueado no país desde 2012 e há fortes restrições sobre as redes sociais.

Image caption Músico estreante Uzair Jaswal diz ser difícil se apresentar no Paquistão porque 'todo mundo está com medo'

Até artistas já estabelecidos estão enfrentando dificuldade para se apresentar em seu próprio país.

No período áureo, o conhecido cantor Aatif Faslam costumava lotar casas noturnas no Paquistão 30 vezes por ano. Agora sua banda só faz dois shows por ano no país.

"A situação é inviável. Ninguém vai fazer grandes shows a céu aberto por causa da ameaça do extremismo. Todo mundo está com medo", afirmou o músico estreante Uzair Jaswal ao correspondente da BBC Urdu Nosheen Abbas.

Universidades

Mas não é somente a ameaça dos ataques extremistas que está ajudando a silenciar a música no Paquistão.

Em muitos locais, setores mais linha-dura estão buscando uma proibição institucionalizada contra a música.

"As universidades públicas proíbem qualquer atividade musical e as músicas também não deveriam ser permitidas em instituições privadas. Os alunos não devem ser encorajados a misturar seus estudos com música. É anti-islâmico e uma mancha em nosso caráter”, disse à BBC o líder estudantil Abdul Mugeet.

Image caption Líder estudantil, Abdul Muqeet diz que misturar estudos e música é 'anti-islâmico'

Há um local, no entanto, onde a música está prosperando no Paquistão: canais de TV privados.

Tudo começou com o Coke TV show, um programa patrocinado pela Coca-Cola, com apresentações de artistas locais de dentro dos estúdios.

No ar há sete anos, o programa inspirou outros canais de TV e atraiu patrocínio de outras marcas muito conhecidas.

Pelo menos por enquanto, os estúdios de TV são o último bastião da cena musical do Paquistão.