Por que Dilma demorou a demitir Graça Foster?

Graça Foster (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Para alguns analistas, demissão de Foster foi evitada ao máximo porque significaria uma derrota da própria Dilma.

A presidente Dilma Rousseff resistiu o quanto pôde às pressões para aceitar a demissão de sua indicada pessoal ao comando da Petrobras, Graça Foster. A própria chegou a colocar seu cargo à disposição duas vezes ao longo da crise, mas a presidente preferiu mantê-la até esta semana.

Políticos e analistas divergem sobre os motivos da demora. Alguns entendem que Foster foi mantida o máximo possível à frente da estatal simplesmente porque não há indícios de que ela tenha participado dos desvios na empresa.

Mas na versão da oposição, a saída de Foster foi evitada ao máximo porque significaria uma derrota da própria Dilma, já que a executiva foi uma indicação pessoal da presidente e tem estilo parecido ao seu - é descrita como técnica, centralizadora e durona.

"Foi um ato de irresponsabilidade por apego a uma relação pessoal", criticou o deputado federal Bruno Araújo (PSDB-PE), líder da minoria na Câmara. "Fica claro que esse estilo de comando (das duas) não funciona", acrescentou.

O deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) considera que a lentidão na decisão de mudar o comando da estatal é reflexo de um governo "confuso e inseguro".

Porém, na sua avaliação, não foi apenas a amizade com a presidente que deu sobrevida à Foster, mas também a longa trajetória da executiva na empresa. Foster entrou como estagiária na Petrobras em 1978.

"A Foster era uma funcionária de carreira da Petrobras, muito empenhada e sem indícios de que tenha cometido qualquer desvio. Acho que tudo isso contou. E tem também o estilo da presidente, de não querer dar o braço a torcer, o que levou a situação até o limite."

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O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) rebateu as acusações de que Dilma demorou demais para tomar uma decisão sobre a diretoria da estatal. Segundo ele, o cronograma da empresa previa a mudança do conselho até março e o governo aguardava isso para definir os novos diretores.

A previsão é de que a nova diretoria seja anunciada sexta-feira pelo conselho da Petrobras.

Gota d'água

Em meio a tantas pressões pela saída de Foster, o que teria sido a gota final para tornar insustentável a situação de ex-presidente à frente da empresa foi a divulgação do último balanço da Petrobras com dois meses de atraso, autorizada por ela no meio da madrugada na semana passada – seguido do maior tombo das ações da Petrobras nos últimos 12 anos.

O balanço não auditado informou que a estatal teria o equivalente a R$ 88 bilhões em ativos "superavaliados", ou seja, registrados na contabilidade da empresa com valores mais altos que os reais. O número teria irritado Dilma.

A primeira aproximação entre as duas ocorreu no início dos anos 2000, quando Foster era gerente da Gasbol (Transportadora Brasileira Gasoduto Bolíva-Brasil) e Dilma era secretária de Energia do Rio Grande do Sul. Na ocasião, Foster recusou a demanda gaúcha por uma ramal do gasoduto no Estado.

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As duas se tornaram realmente próximas quando Dilma a convidou, em 2003, para ser secretária de Petróleo e Gás do Ministério de Minas e Energia, cargo no qual ela permaneceu até 2005. No ano seguinte, Foster voltou à estatal para assumir a presidência da BR Distribuidora e, em 2007, a diretoria de Gás e Energia. Foi escolhida por Dilma para ser a primeira mulher presidente da companhia em 2012.

"Se houve um cargo com indicação pessoal de Dilma, foi este. Ela fez uma escolha muito no estilo (de comando) dela. É quase uma derrota (pessoal) nesse sentido", afirma o analista político Francisco Carlos Teixeira, professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Teixeira avalia que a mudança da diretoria tende a ser positiva politicamente. "Desmonta a oposição", acredita o cientista político, na medida em que abre espaço para uma nova direção menos sujeita à ataques.

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'Oportunidade'

Para o cientista político da FGV, Fernando Abrucio, apesar de ter sofrido um revés, o governo pode transformar o momento difícil de troca do comando da estatal em "oportunidade". Ele nota que a diretoria da Petrobras recebe indicações políticas desde antes do PT.

"No governo FHC também era assim, no governo Collor. A presidente poderia nomear pela primeira vez uma direção sem indicações políticas", disse.

Abrucio considera que a resistência de Dilma em dispensar sua indicada foi uma estratégia de "garantir um atestado de idoneidade a Foster e dar credibilidade ao governo".

O acadêmico nota que a presidente aguardava a apresentação da denúncia do Ministério Público Federal contra políticos e executivos investigados na Lava Jato, prevista para este mês, para então mudar o comando da empresa.

"Mas essa estratégia acabou dando errado. A saída da Foster não tem a ver com corrupção, mas com a derrocada da empresa."