O que explica a escalada de violência na Ucrânia?

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Image caption Segundo ONU, conflito no leste da Ucrânia já deixou 5,4 mil mortos

Em meio à recente escalada de violência no leste da Ucrânia, líderes europeus tentam costurar às pressas um novo cessar-fogo, já considerado, nas palavras do presidente da França, François Hollande, a "última chance" para a paz na região.

Segundo a chanceler alemã, Angela Merkel, também envolvida nas negociações, ainda não se sabe se a trégua vai ser bem-sucedida, mas "definitivamente vale a pena tentá-la".

Neste domingo, Hollande e Merkel vão discutir, por telefone, um possível acordo de paz com os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Ucrânia, Petro Poroshenko.

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Forças do governo de Kiev e rebeldes separatistas pró-Rússia travam um conflito de grandes proporções no leste da Ucrânia desde abril do ano passado. Segundo a ONU, o confronto armado já deixou pelo menos 5,4 mil mortos, além de milhares de feridos e desabrigados.

A onda de violência teve início quando insurgentes tomaram o controle de um vasto território nas regiões de Luhanks e Donetsk após a anexação da península da Crimeia pela Rússia.

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Image caption Milhares de civis tiveram de deixar suas casas em meio aos confrontos armados

O Ocidente acusa a Rússia de armar os separatistas no leste da Ucrânia, o que Moscou nega.

Até agora poucos detalhes vieram à tona sobre o novo plano de paz, mas o acordo substituiria o fracassado cessar-fogo assinado na capital de Belarus, Minsk, em setembro do ano passado.

Desde então, rebeldes separatistas pró-Rússia conquistaram mais territórios, acendendo o alarme em Kiev e em seus principais apoiadores.

Segundo Hollande, o novo cessar-fogo incluiria uma zona desmilitarizada de 50 a 70 km em torno da atual frente de batalha.

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No início desta semana, Hollande e Merkel visitaram Kiev e Moscou, numa tentativa, segundo especialistas, de discutir uma solução concreta para a crise.

As negociações diplomáticas continuaram em uma conferência de segurança internacional realizada na cidade alemã de Munique, onde o chanceler russo, Sergei Lavrov, disse esperar “sinceramente” que o acordo de paz “produza resultados”.

Já os Estados Unidos estão considerando enviar armas à Ucrânia, mas Merkel afirmou que não “poderia imaginar uma situação em que o envio de equipamento militar às Forças Armadas ucranianas impressionaria o presidente Putin a ponto de fazê-lo pensar que seria derrotado militarmente”.

Com o recrudescimento da violência no leste da Ucrânia, a BBC enumerou uma série de perguntas e respostas para entender a nova fase do conflito. Confira.

Por que o leste da Ucrânia voltou a um estado de conflito?

Os confrontos no leste da Ucrânia começaram em abril de 2014 e duraram meses até que a Ucrânia e separatistas chegassem a um acordo em 5 de setembro para interromper a violência e libertar prisioneiros.

Mas o cessar-fogo nunca vigorou por completo. Apesar da intensidade do conflito ter diminuído, os confrontos nunca realmente cessaram e ambos os lados usaram a relativa calma para reconstruir suas forças.

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Image caption Observadores internacionais afirmaram que os bombardeios que deixaram 30 mortos em Mariupol foram lançados por forças rebeldes

Uma batalha foi travada pelo controle do destruído aeroporto em Donetsk, com rebeldes apoiados pelos russos tentando tomar o local estratégico e simbólico.

Uma nova ofensiva rebelde começou no início do ano, o que resultou na tomada do principal terminal do aeroporto, em 22 de janeiro.

Enquanto isso, o número de vítimas só aumenta. Civis morreram por bombas e foguetes em áreas controladas pelos rebeldes, em especial nas cidades de Donetsk e Luhansk. Outras 30 pessoas morreram na cidade portuária ucraniana de Mariupol, em um ataque de artilharia que observadores internacionais disseram ter vindo de áreas controladas por rebeldes.

Rebeldes lançaram, ainda, um ataque planejado para tomar a cidade de Debaltseve, um centro de transporte controlado por forças do governo.

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Por que o cessar-fogo não durou?

Ambos os lados se acusam de violar o acordo do paz.

Para o governo, foi a decisão dos rebeldes de realizarem suas próprias eleições locais em novembro de 2014, em desafio às autoridades de Kiev.

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Image caption Alexander Zakharchenko foi nomeado líder da auto-declarada República Popular de Donetsk após uma votação disputada

Os separatistas, no entanto, estavam descontentes com a resposta do governo, ao dizer que acabaria com o status especial das duas regiões, Donetsk e Luhansk.

A trégua previa a retirada do armamento pesado das linhas de confronto para, pelo menos, 15 km de distância, a libertação de prisioneiros e um acordo para que observadores internacionais monitorassem o cessar-fogo e uma zona tampão na fronteira ucraniana com Rússia.

A Ucrânia também concederia maior autonomia para Donetsk e Luhansk.

Por que o conflito começou?

Em abril de 2014, ativistas pró-russos tomaram o controle de edifícios governamentais em cidades nas regiões de Donetsk e Luhansk, uma repetição do que havia acontecido na península da Crimeia.

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Image caption Em abril, separatistas pró-Rússia tomaram o controle de prédios do governo

Na Crimeia, homens armados invadiram prédios do governo em fevereiro de 2014 e hastearam a bandeira da Rússia, uma semana após o presidente eleito Viktor Yanukovich, pró-Moscou, ter sido derrubado em consequência de grandes protestos nas ruas a favor de uma aproximação à União Europeia.

Uma das primeiras tentativas dos nacionalistas de remover o russo como segunda língua alarmou muitos falantes de russo, e autoridades em Moscou retrataram os novos líderes em Kiev como nacionalistas ucranianos empenhados em violar os direitos das minorias.

Uma votação para adesão à Rússia foi rapidamente realizado na Crimea e, em um mês, a anexação da península estava completa.

Houve poucos mortos na Crimeia. O incipiente governo da Ucrânia não estava em posição de lutar, e apenas 6 mil estariam prontos para o combate.

No entanto, quando separatistas pró-russos avançaram sobre o leste da Ucrânia, região industrial do país, e as forças russas pareciam estar se fortalecendo nas fronteiras, autoridades de Kiev ordenaram uma "operação anti-terrorista".

Quem tem a vantagem agora?

Os rebeldes certamente fizeram grandes ganhos, com a captura do aeroporto de Donetsk e os avanços ao redor de Debaltseve.

O aeroporto deu aos separatistas um ativo estratégico a poucos quilômetros do centro da cidade de Donetsk, seu maior reduto.

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Image caption Uma imagem feita por um drone o que restou do aeroporto de Donetsk

Já o controle do que um comandante militar chamou de “a língua de Debaltseve” permitiria aos insurgentes ter acesso a duas importantes estradas e a uma estação de trem que, por sua vez, leva a duas regiões rebeldes.

Antes mesmo de o aeroporto ter sido capturado, a Ucrânia acusava forças separatistas de controlar uma área de 500 km², principalmente ao redor de Debaltseve e Mariupol.

Mas as forças do governo registraram ganhos significativos no verão passado, muitos dos quais ainda não foram revertidos.

Quando o cessar-fogo inicial fracassou, em junho, separatistas foram forçadas a deixar áreas-chaves no norte do Donetsk, e no início de agosto, forças ucranianas tomaram o controle de grandes cidades de Donetsk e Luhansk.

Mas antes mesmo de a trégua ser declarada, em 5 de setembro, os rebeldes já haviam recapturado o território e aberto um novo front de batalha, em direção a Mariupol, na costa do Mar de Azov, em meio a rumores de que teriam contado com ajuda de Moscou.

Há esperança de um cessar-fogo?

O cenário atual não é auspicioso. Uma tentativa de reconstruir o cessar-fogo de setembro fracassou no último dia 31 de janeiro depois da ausência de importantes negociadores rebeldes.

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Image caption A Otan acusa a Rússia de apoiar militarmente os rebeldes separatistas ucranianos

Os rebeldes querem que um eventual acordo de paz reflita seus avanços, o que levaria o governo de Kiev a acusá-los de sabotar o processo. Os rebeldes dizem, por sua vez, que as forças do governo devem evitar atacar a todo custo.

No entanto, há pouca probabilidade de que isso realmente aconteça, pois rebeldes tentam dominar Debaltseve, atualmente sob controle de Kiev.

Quem é o culpado?

A Rússia alega que o governo ucraniano vem se preparando para a guerra e, em vez de observar o cessar-fogo, já despachou militares para a fronteira.

Por outro lado, enquanto os rebeldes realizavam eleições à revelia no dia 2 de novembro, a Ucrânia excluía uma parte importante do acordo de paz de setembro – a autonomia parcial das regiões de Donetsk e Luhansk – e enviava mais militares para a cidade de Mariupol, assim como outras cidades distantes da linha de frente.

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Image caption Forças do governo ucraniano resistem à ofensiva rebelde em Mariupol, cidade considerada estratégica no conflito

Ambos os lados usaram o cessar-fogo para reconstruir suas forças. Já a Otan citou repetidamente uma presença cada vez maior de militares na fronteira com a Rússia.

O que a Rússia quer?

A Rússia participa das tentativas internacionais para restaurar o cessar-fogo no leste da Ucrânia e apóia a trégua assinada em Minsk em setembro. Moscou também concordou em outubro a voltar a fornecer gás à Ucrânia.

Mas, em última instância, os objetivos do presidente Vladimir Putin permanecem obscuros. A Rússia não reconheceu oficialmente as duas regiões rebeldes da Ucrânia, mas, recentemente, se referiu a elas como "repúblicas" pela primeira vez.

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Image caption A Ucrânia diz que dez paraquedistas russos foram capturados na fronteira com a Rússia em agosto

A principal pergunta é até que ponto a Rússia está preparada para apoiar a busca dos rebeldes por maiores ganhos territoriais.

Por diversas vezes, o Kremlim negou fornecer tropas e equipamentos militares sofisticados para os separatistas.

Alexander Zakharchenko, o líder rebelde em Donetsk, afirmou, no ano passado, que entre 3 mil a 4 mil cidadãos russos estavam lutando junto aos insurgentes, embora a Rússia insista em que eles não estão combatendo oficialmente.

Quando o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, estimou, no mês passado, que até 9 mil militares russos estariam apoiando os rebeldes, Moscou negou a acusação veementemente.

Mas se realmente estiver apoiando a ofensiva rebelde, a Rússia também apoiaria um avanço dos separatistas sobre Mariupol?

Se os rebeldes tomarem o controle da cidade, Moscou ganharia um acesso por terra à Crimeia, em vez de ter de construir uma ponte entre o país e a península, outrora território ucraniano, e orçada em cerca de US$ 3 bilhões (R$ 8,35 bilhões).