Humorista desafia aiatolás com perfil satírico no Twitter

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Image caption O "aiatolá Pênis" tem uma conta para lá de provocativa no Facebook que inclui o "desfiguramento" de uma figura histórica iraniana

Poucos iranianos têm coragem de criticar publicamente os aiatolás, os líderes religiosos que dão as cartas no país desde a Revolução Islâmica de 1979.

Mas um "comediante anônimo", usando contas fictícias em mídias sociais, está ganhando popularidade nas mídias socias fazendo exatamente sátiras e paródias do conservadorismo religioso no Irã.

Tudo isso sob o pseudômino (em persa) Ayatollah Tanasoli - o que pode ser traduzido como "Aiatolá Genitália" ou "Aiatolá Pênis".

Tanasoli tem 20 mil "curtidas" no Facebook e sete mil seguidores no Twitter. Não são números assombrosos, mas que se tornam significativos no caso do Irã, país em que críticas ao governo ou às instituições religiosas são tabu.

Anônimo

Tanasoli encarna um radical conservador que parece não ter "desconfiômetro", como mostram alguma de suas frases.

  • "Condenamos todas as formas de violência, exceto a violência que nós mesmos cometemos".
  • "Se a França tivesse uma democracia islâmica, assim como a nossa, os cartunistas não teriam sido assassinados; eles teriam sido enforcados 10 anos antes".
  • "O Islã valoriza os direitos das mulheres, especialmente os direitos das mulheres que dão à luz meninos".
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Image caption Os aiatolás dão as cartas na política iraniana desde da Revolução Islâmica de 1979, liderada pelo clérigo Khomeini

Em entrevista ao site BBC Trending, Tanasoli diz que entra em debates com partidários do governo e mesmo iranianos mais ordinários que são contra seu humor. Ele não revelou sua identidade ou locação (não é sabido se está ou não no Irã). Mas Tanasoli disse ter 30 anos e estar empregado. Confira abaixo alguns trechos da entrevista.

BBC - Por que você criou a conta do Aiatolá Tanasoli?

Tanasoli - É mandatório para todos os meninos iranianos prestar serviço militar logo depois de terminarem os estudos básicos. Mas você não recebe treinamento algum e, para passar o tempo, eles (os militares) trazem esses mulás (clérigos de alto escalão) para dar palestras.

Os meninos são levados a mesquitas e passam horas nelas todos os dias. É um processo de lavagem cerebral, e as coisas que os mulás falam sobre o Ocidente e a internet, por exemplo, são tão absurdas que te fazem rir.

É muito fácil fazer humor com isso, então era justamente o que fazia nos meus dias de folga. Criei essa personagem e meus colegas pediam para fazer sermões ou discursos. Aí eu imitava um mulá, que ficou bastante popular. Aí pensei que poderia levar isso para as mídias sociais.

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BBC - Por que seu avatar é uma imagem de um mulá com apenas um olho?

Tanasoli - A imagem é real, de um aiatolá que participou da Revolução Constitucionalista no Irã em 1906. Eu alterei sua face para um olho como forma de simbolizar que meu aiatolá só vê as coisas de uma maneira. Os aiatolás sabem tudo e tudo o que sabem é certo. E você não deve questioná-los.

BBC - Você pode dar algum exemplo de algo que tenha postado recentemente?

Tanasoli - Eu acabei de tuitar alguma coisa sobre a Revolução Islâmica de 1979 e disse que as pessoas mereciam o que aconteceu (a derrubada da monarquia e instauração de uma teocracia no Irã). Tinha dois significados: primeiro, significa que as pessoas lutaram pela revolução mas ao mesmo tempo o que aconteceu foi uma punição. As pessoas gostaram do comentário no Twitter e começaram a compartilhá-lo.

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Image caption Crimes de blasfêmia no Irã, incluindo a sátira a figuras religiosas, podem ser punidos com a pena de morte

BBC - Seus seguidores estão no Irã?

Tanasoli - Alguns sim. Deixe-me explicar o que aconteceu nos últimos dois anos nas mídias sociais: no início, as pessoas confiavam umas nas outras, encontraram amigos pelo Twitter e começaram a formar grupos - era como um turma. Mas o governo começou a infiltrar os grupos.

Tudo ficou muito perigoso e aí eu decidi criar uma personagem fictícia. Eu não costumo responder às pessoas ou mensagens diretas. Bloqueio todo mundo que penso não ser seguro ou que deixa algum comentário que não aprecio. Acho que é mais seguro assim.

BBC - Nas suas postagens você satiriza líderes religiosos e se opõe ao governo? Você não tem medo?

Tanasoli - Estou preocupado. Todo mundo está.

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BBC - Você se preocupa com o fato de que alguns de seus tuítes podem aborrecer outros muçulmanos?

Tanasoli - Essa é minha intenção. Quero que eles se aborreçam. Para que pensem.

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Image caption O aiatolá Khamenei é o atual líder espiritual do Irã

BBC - Quais são os tipos de resposta que você recebe?

Tanasoli - Não gosto de me gabar, mas recebo uma grande quantidade de mensagens. No Facebook recebo e-mails de gente mais velha (60 e 70 anos), ou gente vivendo fora do Irã, que elogia o que faço. Vi que muita gente gosta do que eu faço.

BBC - E as reações negativas? Há ameaças?

Tanasoli - Sim, especialmente no Facebook. Também recebo muitos e-mails, no começou muitos me contatavam e diziam 'você é bom, vamos fazer parceria, me passa o teu endereço, etc'. Dizia que não. Depois me ofereciam dinheiro e eu dizia que não venderia minha página. Depois começavam a me ameaçar, com e-mails dizendo 'vamos te achar, te matar'.

Eles querem te assustar. Dizem "sabemos onde você está, tua mãe é uma prostituta, tua irmã é uma prostituta, vamos estuprá-las e depois te matar". Mas eu seu que eles estão mentindo.

BBC - Você acha que as ameaças vêm das autoridades?

Tanasoli - A maioria delas, sim. Pois quando checo os perfis, descubro que são falsos também (risos).

BBC - Um usuário do Facebook - Soheli Arabi - está preso em Teerã já há um ano. Ele foi acusado de insultar o profeta Maomé - o que pode levar à pena de morte. As pessoas tem apoiado ele nas mídias sociais?

Tanasoli - Não. Porque as pessoas no Irã que são ativas na internet têm muito medo. Elas não querem ser associadas a ele.

Haverá um dia em que você poderá revelar sua identidade?

Tanasoli - Espero que sim. Não estou fazendo isso porque quero ser famoso. Sei que se estivesse trabalhando em outro lugar pelo menos poderia ser pago como escritor. Espero que algum dia as pessoas (no Irã) possam ser quem elas são e dizer o que queiram dizer.

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