Copa de 2022 no Catar: quanto calor é calor demais?

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Image caption Catar ganhou direito de sediar Copa polêmica; Fifa já mudou datas do torneio por causa do calor

Ainda faltam sete anos e uma Copa do Mundo inteira até o Mundial de 2022, no Catar. Mas o torneio já tem gerado várias polêmicas, principalmente sobre as altas temperaturas do verão local, em junho e julho – tradicionalmente os meses da competição da Fifa.

Nesta terça-feira, a entidade máxima do futebol recomendou que, para evitar o calor excessivo do Catar, a Copa de 2022 mude de data e seja realizada em novembro e dezembro – o que já tem gerado debates porque, nesse caso, as datas coincidiriam com o meio da temporada do futebol europeu.

Mas em meio a tanta polêmica, surge uma questão: quanto calor é muito calor para competições esportivas?

A temperatura no Catar durante os meses de verão, em média, costuma variar entre 40°C e 50°C. São temperaturas bem mais altas do que as enfrentadas pela grande maioria dos jogadores.

No processo de candidatura para o Mundial, o país chegou a se comprometer a construir estádios com ar condicionado para amenizar o problema. Mas eles não poderão controlar a temperatura dentro de campo e fora do estádio, por onde chegarão os torcedores.

Levando isso em consideração, a Fifa decidiu mudar as datas do torneio para novembro e dezembro, quando as temperaturas caem para algo entre 20°C e 30°C.

Mas o que acontece quando faz muito calor em competições esportivas? A BBC listou alguns eventos que foram marcados pelas altas temperaturas:

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Copa do Mundo de 1994 – Estados Unidos

Por causa da tradição de realizar a Copa do Mundo sempre quando é verão no hemisfério norte, muitos Mundiais foram realizados sob temperaturas bastante altas, como as do México em 1970 e 1986, e a da Alemanha em 2006.

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Image caption Brasil foi tetracampeão em 1994, mas o calor foi uma reclamação frequente de todos naquele Mundial

Mas foi nos Estados Unidos, em 1994, que os jogadores enfrentaram condições extraordinárias, como na partida da Irlanda contra o México em Orlando, na Flórida.

"Estava fazendo 46°C no estádio naquele dia. Como alguém pode jogar futebol nessas condições é algo que nunca vou entender", disse o goleiro Alan Kelly lembrando a situação.

"Eu estava sentado no banco, me senti mal mesmo só assistindo, então não posso nem imaginar o que os jogadores que estavam em campo sentiam".

O jogador Steve Staunton, também da Irlanda, foi obrigado a usar um boné de beisebol durante a execução dos hinos para se proteger do sol.

Mesmo com o forte calor, a Fifa proibiu as pausas extras no meio do jogo para que os jogadores pudessem tomar água e se refrescar – o que tornou as coisas ainda mais difíceis.

A Irlanda até chegou a treinar um tempo sem parar para tomar água, mas ainda assim, não conseguiu competir com os atletas mexicanos – que estavam muito mais acostumados com temperaturas tão altas. A partida acabou 2 a 1 para o México.

Fórmula 1 – O Grande Prêmio de Dallas 1984

A Fórmula 1 tem percorrido o Oriente Médio já há alguns anos. Depois do Grande Prêmio do Barein, que entrou no calendário em 2004, foi a vez de Abu Dhabi entrar no circuito do automobilismo em 2009.

Apesar da corrida de 2005 no Barein – vencida por Fernando Alonso – ter chamado a atenção por causa do calor excessivo, a boa preparação dos pilotos combinada com as modernas instalações do circuito mostraram que o GP ali era "exigente", mas não impossível de se realizar.

Não foi o caso, porém, do único Grande Prêmio realizado na cidade de Dallas, em 1984.

O circuito foi desenhado para ser temporário, mas o calor foi tão intenso (acima de 40°C), que a pista começou a derreter.

Depois de algumas voltas classificatórias, ela estava se desintegrando. Ainda que tenham feito alguns reparos na madrugada, as condições para o dia da corrida eram mais parecidas com as de uma prova de rali, com um pouco de concreto distribuído pela pista, do que com as de uma corrida de Fórmula 1.

O piloto finlandês Keke Rosberg foi quem insistiu para a corrida ser realizada – e foi quem saiu de lá com a vitória. Atrás dele, Nigel Mansell, em terceiro lugar, viu seu carro parar quando estava nos últimos metros. Ele saiu, tentou empurrar o carro para cruzar a linha de chegada, mas foi vencido pelo calor e caiu no chão, exausto.

A Fórmula 1 nunca voltou para lá, e o lugar de Dallas no calendário acabou ficando com a Austrália.

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Tênis - Australian Open de 2014

Por quatro dias consecutivos, o Australian Open de 2014 teve temperaturas acima de 40°C em Melbourne – a maior onda de calor na região em 100 anos.

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Image caption Australian Open de 2014 foi marcado por uma onda muito grande de calor; Sharapova sentiu os efeitos

O resultado foram vários problemas para jogadores e torcedores. Alguns tenistas vomitaram. Outros viram a sola de seus tênis derreter. Yaroslava Shevdova pediu para ser atendida urgentemente no meio da partida com Sloane Stephens. Jelena Jankovic queimou as costas quando sentou em um lugar não coberto.

O canadense Frank Dancevic estava claramente alucinado e desmaiou depois de jogar um set e meio. "Eu estava tonto desde a metade do primeiro set, e aí eu vi o (personagem de quadrinhos)Snoopy. Pensei: 'Uau, Snoopy, que estranho", contou ele à época.

Ivan Dodig, tenista da Croácia, perguntou em voz alta se ele iria "morrer em quadra".

Tantas reclamações fizeram com que os organizadores do torneio mudassem um pouco as coisas para 2015. Na tentativa de amenizar o calor, uma cobertura foi feita na terceira quadra e uma "política do calor" foi criada para permitir a suspensão de um jogo no fim de um set, se necessário.

Maratona feminina – Atenas, 2004

O papel crucial que o calor pode ter para decidir grandes resultados esportivos ficou bem claro durante os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

Na ocasião, a maratonista britânica Paula Radcliffe, uma das melhores atletas da modalidade naquela época, chegou à competição como grande favorita.

Image caption Em entrevista à BBC um dia após a prova, Radcliffe se mostrou bem abalada por não ter completado a maratona

Ela tinha quebrado recordes mundiais em Londres e Boston e esperava-se que ela fosse fazer o mesmo na Olimpíada.

Mas a temperatura de 35°C que fazia naquele dia acabou sendo decisiva para a prova. Era possível ver de longe que Radcliffe estava sofrendo para se manter de pé. Quando ela chegou nos 35 quilômetros, ela não aguentou e deixou a prova. Foi um choque para o esporte.

"Se a prova tivesse sido um pouco mais plana e estivesse um pouco menos quente, ela poderia aguentar", disse a psicóloga esportiva Clyde Williams.

"Mas o percurso naquele calor foi provavelmente demais para ela. Não é só que suas pernas doem, você simplesmente se sente horrível, você para, não tem como."