O que você deve fazer ao se deparar com um leão

Sair para fazer uma simples caminhada nunca tinha sido tão perigoso. Reunidos em torno de uma mesa coberta de mapas e guias - além do gin com tônica - planejávamos nosso passeio naquele final de tarde. De repente, nosso guia, Paul Ditiro, um tipo risonho e tranquilo, ficou sério e, olhando para cada um de nós, disse: "A primeira regra é não correr - jamais".

"Vamos andar em fila única, comigo na frente. Temos quatro dos cinco (leões) grandes aí fora e vocês podem se deparar com eles facilmente. Esta é a melhor maneira de nos encontrarmos verdadeiramente com a natureza. De podermos cheirá-la, tocá-la, prová-la e senti-la. É uma emoção única."

Eu estava no Footsteps Across the Delta, um pequeno acampamento no coração do famoso Okavango Delta, em Botsuana, na África. O acampamento se especializa em "safáris à pé", caminhadas pequenas que tiram os visitantes dos jipes - e de suas zonas de conforto - e os plantam direto no solo africano.

Aqui, eu faria duas caminhadas por dia, sempre acompanhado por um guia armado. O Okavango oferece uma grande diversidade de vida animal aos visitantes, mas eu só estava interessado em uma coisa: leões.

Nosso grupo consistia de um casal de escoceses de meia idade, um casal de espanhóis um pouco mais velhos, porém em boa forma física, e eu - um persistente, mas um tanto quanto apavorado, autor de livros de viagem.

Enquanto deixávamos o acampamento, andando na direção de um pequeno lago conhecido como Paul's Pan (batizado por nosso guia, Paul), a cada passo, nossas botas faziam subir nuvens de poeira. O Okavango é parte do Deserto Kalahari. Sob nossos pés, havia apenas uma camada fina de grama ressecada e, sob ela, 300 metros de areia.

Botsuana é um país eternamente com sede. Cerca de 70% do seu território é composto de desertos onde não cai um pingo de água durante dez meses do ano. Quem sabe para apaziguar os deuses das águas, a moeda nacional e o sistema de rodovias do país foram batizados de pula - em português, chuva.

Estrategicamente, nossa visita acontecia poucas semanas antes do início das chuvas anuais, que acontecem em dezembro. Sem esconderijos à sombra de folhagens, os felinos seriam obrigados a vagar pela savana nua, reunindo-se perto das poucas fontes de água restantes.

Namoro na Selva

Menos de dez minutos após iniciarmos nossa caminhada, surpreendemos um casal de girafas em um momento de muita intimidade. Tensas, as girafas se afastaram de nós, e Ditiro aproveitou a ocasião para uma aula. Nós humanos temos visão binocular e isso é algo que compartilhamos com todos os predadores, ele disse. Quando presas (zebras, antílopes e girafas, entre outros) veem olhos na frente da cabeça, instintivamente pensam que o animal (leão, leopardo ou homem) é uma ameaça.

Continuamos a caminhar até chegarmos a um outro lago, habitado por um único - e temperamental - hipopótamo. O bicho deixou claro, com seus roncos e grunhidos, que não estava feliz em nos ver. "Está nos mostrando que é bem durão", brincou Ditiro.

Durante o passeio, Ditiro contava casos engraçados que vivera em mais de uma década trabalhando como guia no Footsteps. Por exemplo, a história da hiena Albert, que morava no acampamento, e um dia mordeu a mangueira de um extintor de incêndio. O extintor explodiu mas Albert escapou ileso e estava de volta ao acampamento alguns dias depois.

Ou o caso do leopardo fêmea que trouxe sua presa para dentro do acampamento, comendo-a no alto de uma árvore, bem em cima da fogueira. Felizmente, os visitantes estavam todos acomodados dentro de suas tendas.

A conversa descontraída foi interrompida quando Ditiro viu algo estranho: dois abutres no topo de uma árvore, não muito longe de nós. Apontando para os pássaros, ele disse: "Quando você encontra 10 ou 15 desses, já sabe que tem churrasco ali embaixo".

Seguimos na direção dos abutres. Mais e mais pássaros se agrupavam no topo da árvore desfolhada ou sobrevoavam o local.

"Estranho", disse Ditiro. "Fiquem bem próximos uns dos outros, em fila única - sem deixar vãos."

Mas para nossa decepção, tinha sido alarme falso. Não havia leões ou outros predadores à vista.

Nos dias seguintes, nos aventuramos várias vezes pelas planícies e lagos da região, mas não avistamos nosso tão procurado rei dos felinos. Leões e leopardos são comuns no Okavango, mas não há como garantir um encontro. Esses bichos podem ser caprichosos, às vezes, passam dias dormindo num local e aparecem repentinamente em outro ponto, a dezenas de kilômetros de distância.

Acampamento Kanana

Ditiro me garantiu que veríamos um leão. Pela rede de rádio que conecta os moradores dessa região remota, ele ouvira relatos de que leões tinham sido avistados em outros acampamentos na redondeza. Decidimos, apenas ele e eu, deixar o grupo e continuar nossas buscas no acampamento Kanana.

Há mais de 60 parques para safáris no Okavango Delta, mas poucos deles são conectados por estradas. O acesso é feito por aviões Cessna que transportam visitantes entre acampamentos, pousando em grama ou pistas pequenas.

No Kanana, as expedições são feitas a pé e de carro. Os grupos viajam de jipe até os interiores remotos, pelo meio da grama alta e quebradiça ou na vasta savana torrada pelo sol.

Os administradores do acampamento nos disseram que leões tinham sido avistados na área - dois machos adultos no apogeu de suas existências.

Enquanto dirigíamos pela estrada arenosa, Ditiro - com uma mão na direção - inclinava-se para fora, pela lateral aberta do veículo, procurando por pegadas. "Não, não, essas são de babuínos", dizia. Ou: "Essas são velhas demais". Até que, finalmente, encontrou o que procurava - pegadas de leão, recentes. "As pegadas são a coisa mais importante, elas te levam ao animal."

O guia estacionou o jipe e pendurou um rifle 458 no ombro. Saímos andando no meio da grama alta. À primeira vista, não havia sinais de leões, mas Ditiro observava o comportamento dos animais em torno de nós - ou, mais precisamente, a ausência de animais. O fato de que a maioria das presas havia saído da área era um forte indício de que havia leões no local.

Caminhamos em um imenso, quase insano, círculo - partindo do ponto onde estava o jipe, passando por várias pradarias e rodeando um grande lago até chegarmos de novo ao jipe. Ainda assim, não conseguimos avistar os felinos.

Meio por acaso, Ditiro decidiu que devíamos voltar pelo caminho que fizéramos - e foi aí que os vimos. Dois leões grandes, abrigados atrás de alguns arbustos. Tínhamos andado a alguns metros deles, sem saber.

Sua atenção desperta, um dos leões sentou-se sobre as patas traseiras e começou a olhar para nós com uma intensidade que eu nunca tinha sentido antes. Eu me tornara uma presa. E nada, à excessão de um pedaço de savana africana, o rifle de Ditiro e o desejo caprichoso de um leão, me separava da morte certa.

Ditiro engatilhou a arma.

Enquanto o leão balançava lentamente sua cauda, Ditiro me disse para aguentar firme. "Ele está decidindo se ataca ou não", explicou, enquanto eu sentia bater no ouvido meu coração acelerado. "Ele está a 50m de distância. Pode chegar aqui em menos de 2 segundos."

Nunca tinha me sentido tão exposto. Eu era apenas um homem sozinho, em pé, diante de um dos maiores predadores do reino animal.

“Veja aqueles músculos, aquelas garras", sussurrou Ditiro. "Ele é uma máquina de matar." Depois de alguns minutos - talvez 5, talvez 15 -, era hora de partir. E o leão não nos atacou.

Balançando no jipe, de volta para o acampamento, a adrenalina correndo pelas minhas veias, senti um êxtase que não esquecerei jamais. Eu era o cara mais afortunado do mundo. Estava feliz pela incrível experiência - e tinha sorte em estar vivo.

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Travel.

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