Um roteiro de fé e adrenalina pelas igrejas secretas da Etiópia

 Audrey Scott e Daniel Noll/BBC

Com seus penhascos, formações rochosas surreais e torres de pedra, as montanhas Gheralta, no norte da Etiópia, lembram a paisagem dos desertos do sudoeste dos Estados Unidos. Com uma única diferença: empoleiradas no alto e escondidas nesses paredões estão mais de 30 igrejas etíopes ortodoxas, escavadas em cavernas e com mais de mil anos.

A localização remota e de difícil acesso desses templos tinha dois objetivos: trazer os fiéis para mais perto do Paraíso e sumir da vista de exércitos invasores que cruzavam os vales embaixo.

Para poder ver de perto essas igrejas, os visitantes precisam percorrer cânions, escalar paredões de arenito sem equipamentos e atravessar desfiladeiros – uma incursão cultural que não é para fracos.

As autoridades recomendam que os visitantes contratem um guia local que conheça bem a geografia das montanhas Gheralta, sua história, sua cultura e sua língua. Conheça um pouco mais sobre este lugar extraordinário nas imagens abaixo. As fotos são de Audrey Scott e Daniel Noll, da BBC.

Esculpida na pedra

Depois de uma hora de caminhada, incluindo a escalada de uma parede de 6 metros, chegamos ao templo de Maryam Korkor. Longe da vista de quem atravessa o vale, essa construção semi-monolítica (parcialmente anexada ao penhasco) tem uma fachada simples que protege seu interior de 17 metros de comprimento, entalhados na montanha.

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Cristo 'no útero'

Dentro de Maryam Korkor, pilares cruciformes e arcos de 6 metros de altura estão cobertos com afrescos religiosos feitos com tintas naturais. Historiadores da arte acreditam que eles datem do século 17, por causa de algumas características bizantinas, como a imagem de Cristo no ventre de Maria.

Poleiro precário

Aba Tesfa Silassie, de 78 anos, é um monge etíope ortodoxo que vive há 63 anos nesse local e cuida das igrejas de Maryam Korkor e Daniel Korkor. Ele raramente caminha até os vilarejos próximos. Durante nossa estadia, alguns meninos locais trouxeram água e alimentos para ele, em troca de lições sobre a Bíblia.

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Educação em imagens

Engatinhamos por uma pequena porta para entrar na igreja de Daniel Korkor, uma ambiente com duas salas cujos teto e paredes são pintados com pigmentos naturais extraídos de flores e frutos silvestres. O estilo aqui é mais simples do que em outros templos de Gheralta. Até o século 20, apenas monges e padres eram alfabetizados. A maioria das pessoas aprendia a história da Etiópia e os ensinamentos da Bíblia através de afrescos como este.

Planícies panorâmicas

A vista da planície de Hawzien a partir de um penhasco perto de Daniel Korkor. Segundo nosso guia, mulheres locais costumam percorrer a tortuosa trilha de 40 a 80 dias depois de dar à luz, com seus bebês a tiracolo, para batizá-los na igreja. O costume já dura mil anos.

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Para o alto e avante

Para se chegar à igreja de Abuna Yemata Guh, é preciso superar um paredão de arenito com cerca de 7 metros de altura. Em um gesto de respeito, tivemos que tirar os sapatos, pois já estávamos no terreno sagrado do templo. Descalços, sem a ajuda de cordas ou qualquer instrumento de escalada, nossa subida pareceu realmente um ato de fé.

Moradores locais vão para as trilhas e se oferecem para ajudar os visitantes a subir em troca de algum dinheiro.

Abuna Yemata Guh

Para chegar ao templo, ainda tivemos que atravessar uma ponte natural de pedra pendurada sobre um desfiladeiro de 250 metros de altura. Cruzamos então outra ponte de madeira e encontramos a entrada. A visão do interior compensou a adrenalina do caminho: no teto, uma pintura mostra nove dos 12 apóstolos, com os outros três em uma parede. Como em outras igrejas, os afrescos estão muito bem preservados, muito por causa de sua localização remota.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Travel.