Qual o segredo do sucesso de ‘A Noviça Rebelde’?

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Image caption Lady Gaga cantou um medley de 'A Noviça Rebelde' no último Oscar

Esqueça as cuecas do ator Neil Patrick Harris e o discurso politizado da atriz Patricia Arquette: a grande atração do Oscar deste ano foi Lady Gaga cantando um medley em homenagem aos 50 anos do lançamento de A Noviça Rebelde.

Quem imaginaria a artista pop que um dia causou furor ao usar um vestido feito de carne crua metida em um longo branco e entoando as canções do filme com voz de fada? A apresentação foi não só um testemunho da capacidade de Lady Gaga de se reinventar como também uma demonstração de que o filme resiste à passagem do tempo.

Os acontecimentos que inspiraram A Noviça Rebelde ocorreram na Áustria entre os anos 20 e 30. O autobiografia de Maria von Trapp, relatando esses eventos, foi publicada em 1949 e foi transformada em musical na Broadway dez anos depois, por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein. Aí veio o filme.

A estreia, em 1965, foi seguida por uma vitória arrebatadora no Oscar. E o LP com a trilha sonora foi o mais vendido em alguns países não só naquele ano, mas também nos anos seguintes.

Entre os críticos, Cantando na Chuva pode até ser considerado o melhor musical de Hollywood. Mas o mais popular é, indisputavelmente, A Noviça Rebelde.

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Mais show do que filme

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Image caption 'A Noviça Rebelde' ganhou cinco Oscars e foi sucesso de bilheteria

Todos nós conhecemos algumas canções do filme, principalmente Dó-Ré-Mi, e imediatamente o associamos à imagem de Julie Andrews cantando no topo de uma montanha dos Alpes.

E mesmo sem assisti-lo, sabemos do que trata sua história: uma aspirante a freira chamada Maria (Julie Andrews) é convidada a cuidar dos sete filhos de um capitão da Marinha viúvo. Teimosa, ela consegue arrebatar o coração das crianças e do durão capitão Von Trapp (Christopher Plummer). Mas o que mais há no filme?

Para ser honesto, não muito mais. É verdade que os Von Trapp têm que fugir dos nazistas na última meia hora, em uma sequência quase totalmente separada do resto, mas não há muito mais o que ver.

Certamente não é um filme com uma trama cheia de reviravoltas. Como Maria consegue conquistar as birrentas crianças Von Trapp? Cantando My Favourite Things. O que convence o capitão Von Trapp de que ela é uma boa influência para os filhos? A apresentação de teatro de fantoches acompanhada de The Lonely Goatherd. E o que convence o público de que o capitão também se rendeu ao encanto de Maria? Um recital de Edelweiss.

Em comparação com musicais mais elaborados que fizeram de Julie Andrews uma estrela dos palcos (My Fair Lady) e das telas (Mary Poppins), A Noviça Rebelde parece mais um show do que um filme – uma série de números com músicas que grudam na cabeça, ligadas por um ou outro diálogo.

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Fenômeno nos anos 90

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Image caption O fato de o filme parecer mais com um show explica parte de seu sucesso

Mas isso não é uma crítica. O fato de o filme parecer com um disco de sucessos é possivelmente um dos segredos de seu enorme êxito.

"De certa maneira, A Noviça Rebelde segue a clássica estrutura dos musicais de privilegiar as músicas em detrimento da trama", afirma Caryl Flinn, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, e autora de um guia do Instituto Britânico de Cinema sobre o clássico. "Estudiosos do cinema classificam os musicais junto com filmes pornográficos ou de terror por esse mesmo motivo: o enredo não é o que geralmente atrai as pessoas a assistir esses gêneros."

É a atenção que o filme dá a suas canções inigualáveis a responsável pelo fenômeno "sing-along", sessões de cinema em que fãs vão vestidos a caráter e cantam em voz alta junto com os personagens, e que se tornaram muito populares a partir dos anos 90.

A estrutura baseada nas músicas também ajuda a explicar por que o filme é sempre exibido na TV. As músicas ajudam as emissoras a encontrar um bom momento para fazer um intervalo comercial, enquanto o telespectador pode mudar de canal e voltar para o filme sem perder muito do enredo.

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'Simples e sincero'

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Image caption Christopher Plummer (ao centro) admitiu que filme é menos açucarado do que parece

E não foi só a história que foi simplificada. O diretor Robert Wise e o roteirista Ernest Lehman tinham realizado Amor, Sublime Amor em 1961, um filme cheio de cores e danças acrobáticas. A Noviça Rebelde, ao contrário, quase não tem coreografias e aposta no cenário de Salzburgo para definir seu encanto visual.

"Creio que isso reflete o desejo dos produtores de fazer algo simples e sincero, e não correr o risco de ser exagerado ou cafona", explica Caryl Flinn.

É verdade que o filme exibe um teatro de fantoches e um bando de crianças correndo com roupas combinadas feitas de cortinas, mas Wise e Lehman realmente diluíram a sentimentalidade açucarada que a versão para a Broadway tinha. Nenhuma das crianças tem tempo de ser muito chata, nenhum dos romances se tornam enjoados demais.

Até o final é discreto para os padrões de hoje. Vemos os Von Trapp caminhando pelas montanhas e longe dos nazistas, mas não há nenhum texto dizendo o que aconteceu com eles depois, nem fotos da família verdadeira. Se o filme tivesse sido feito hoje, pode apostar que teria os dois.

Depois de criticar abertamente o excesso de doçura do filme por muitas décadas, Plummer finalmente admitiu que a produção é mais suave do que parece. Em uma recente entrevista à revista Vanity Fair, ele diz que o diretor conseguiu evitar que "o filme caísse em um mar de mel".

Plummer tem razão. A Noviça Rebelde pode estar à beira desse mar, mas nunca cai. E é esse equilíbrio milagroso que nos mantém ligados ao filme, 50 anos depois.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Culture.