Exposição na Alemanha inova ao tratar tatuagem como arte

Direito de imagem Kimberly Frost
Image caption O quadro 'Sem Título', de Thea Duskin, faz parte da exposição

Uma exposição em cartaz no Museu de Artes e Indústrias de Hamburgo, na Alemanha, inova ao abordar tatuagens como obras de arte.

“Nossa pele é uma dádiva, é um tipo especial de tela”, afirma Susanna Kumschick, antropóloga suíça que fez a curadoria da mostra. Ela conta que foi motivada a realizar a exibição pela necessidade de olhar para corpos pintados de um novo ângulo.

“Na antropologia, a tatuagem é um grande assunto, porque é observada em tantas culturas e tradições. Mas comecei a pesquisar e percebi que ela nunca tinha sido abordada em museus de arte ou design, apenas em museus de história e civilização”, conta.

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De bem com o corpo

Direito de imagem Tareq Kubaisi
Image caption Jovem tatuada por Saira Hunjan em 2010

Segundo Kumschick, a volta do interesse do público e das organizações culturais pelas tatuagens é em parte explicada pela arte que explora a imagem corporal. A autora destaca a obra da artista performática austríaca Valie Export: “Em 1970, ela tatuou uma cinta-liga em sua perna, ao ar livre, durante uma performance. Foi uma das primeiras mulheres a criticar a maneira como as pessoas olham para o corpo feminino”, explica a curadora.

Uma de suas peças favoritas na exposição em Hamburgo é uma entrevista com uma mulher falando sobre as tatuagens que cobrem as cicatrizes de uma mastectomia realizada por causa de um câncer. “As tatuagens a fizeram se sentir melhor com seu próprio corpo, o que é um dos principais motivos para se fazer uma tatuagem hoje em nossa sociedade”, afirma Kumschick.

‘Meio de comunicação’

Direito de imagem Fumie Sasabichi
Image caption A artista Fumi Sasabuchi aplica tatuagens em fotos de revistas de moda, como esta

Kumschick relembra que muitos artistas incluíram tatuagens em suas obras. “Desde cedo, eles foram inspirados pela estética – o corpo humano tem sido um tema na arte há muito tempo, assim como pinturas sobre o corpo”, explica.

Fumie Sasabuchi aplica tatuagens em modelos nas páginas das revistas de moda usando símbolos tradicionais da máfia japonesa, a yakuza. A imagem acima foi criada a partir de uma fotografia da revista Vogue Angels, de moda infantil.

“Tatuagens estão mais na moda agora porque nossa pele hoje fica bem mais exposta que antigamente, então é como se fosse um meio de comunicação”, argumenta a artista. “Dependendo do lugar onde uma tatuagem é aplicada, ela quer dizer uma coisa. Se for no rosto, é praticamente uma declaração, diferentemente do que ocorre se estiver no peito ou no tornozelo.”

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Destacando-se na multidão

Direito de imagem Christian Poveda e Agence VU
Image caption 'O Gângster da Ibéria (Mara Salvatrucha)', feita em San Salvador em 2008

Outras obras analisam como tatuagens foram usadas para estigmatizar pessoas. Um dos vídeos exibidos mostra um tatuador retocando algarismos no braço de um senhor de 92 anos, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz: é seu número de prisioneiro.

O artista polonês Artur Zmijewski acredita que manter o número é uma maneira de prestar uma “homenagem ativa”. Um texto acompanhando a obra também menciona como os oficiais da SS tinham seu tipo sanguíneo tatuado em seus braços durante a Segunda Guerra Mundial, o que acabou identificando-os quando o conflito acabou.

O fotógrafo e documentarista franco-espanhol Christian Poveda passou um ano convivendo com membros da gangue Mara 18, em El Salvador, cujos membros cobrem seus corpos com tatuagens para registrar o número de pessoas que eles matam ou marcando a data da morte de algum comparsa. Poveda foi morto em um tiroteio em 2009.

Até reis e nobres

Direito de imagem Biblioteca do Congresso em Washington
Image caption A artista de circo Maud Stevens Wagner foi a primeira mulher tatuadora famosa

Por causa de atitudes sociais contrastantes, algumas pessoas escondem suas tatuagens enquanto outras não veem problema algum em exibi-las.

“No século 19, mulheres aristocratas se tatuavam tanto quanto artistas de circo, mas não mostravam seu corpo”, diz a curadora.

Esta foto mostra Maud Stevens Wagner, uma equilibrista e contorcionista americana que foi a primeira mulher tatuadora famosa do Ocidente. Outras famosas artistas de circo tatuadas da época foram Lady Viola, que exibia no peito as imagens dos presidentes Woodrow Wilson, George Washington e Abraham Lincoln, e Artoria Gibbos, que tinha uma tatuagem mostrando um trecho da Anunciação, de Botticelli, outra com parte da Sagrada Família, de Michelangelo.

Existem poucas fotos de tatuagens de pessoas das classes mais abastadas, mas a mostra traz um curto documentário mostrando duas mulheres sendo tatuadas por George Buchett. O tatuador britânico trabalhou com membros da realeza europeia, como o rei Alfonso 13, da Espanha, o rei Frederick 9º, da Dinamarca, e o rei George 5º, da Inglaterra.

“Era algo bastante na moda até a Segunda Guerra Mundial”, diz Kumschick. “Há muitas fofocas sobre as tatuagens das celebridades hoje em dia, mas já acontecia no século 19, e os jornais estavam cheios de matérias sobre o assunto.”

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Imagens fortes

Direito de imagem Gwendal and Karl Marc
Image caption Designers inovam com tatuagens mais gráficas e diagramadas pelo corpo

Tatuadores de hoje desfilam novas habilidades. “Muitos jovens artistas vêm de diferentes origens”, diz Kumschick. “Alguns cursaram Belas Artes e depois aprenderam a tatuar, e mantêm vários tipos de trabalho. É difícil aprender como aplicar design gráfico no corpo.”

Ela menciona um grupo de ilustradores e designers suíços chamado Happy Pets. “Para eles, o corpo é como um livro, e eles dizem pensar as tatuagens como pensam um projeto de um livro – levando em conta seu tamanho e sua localização.”

Num piscar de olhos

Direito de imagem VG BildKunst
Image caption 'Fim', por Timm Ulrichs, é uma das atrações da exposição na Alemanha

Em 1981, Timm Ulrichs tatuou “The End” (“Fim”) na pálpebra de seu olho direito. A expressão só pode ser vista quando ele fecha os olhos e é uma mensagem sinistra, que evoca cadáveres.

Para Kumschick, a tatuagem é uma espécie de memento mori, um lembrete de somos todos mortais. “Nossa pele é efêmera – e é praticamente impossível fazer uma coleção delas. De certa forma, tatuagens são para sempre mas apenas enquanto nosso corpo está vivo”, filosofa.

Tim Steiner é um dos indivíduos cuja imagem está à mostra em Hamburgo: ele tem uma obra do artista conceitual belga Wim Delvoye tatuada em suas costas. A obra foi vendida em 2008 para um colecionador que mora em Hamburgo e que, segundo a explicação dada na exposição, “comprou o direito de emprestar, vender e deixar Tim Steiner para a posteridade como um objeto de empréstimo e de preservar a pele dele após sua morte.”

Poros pensantes

Direito de imagem na
Image caption Herbert Hoffmann foi um tatuador e colecionador muito conhecido em seu meio

O tatuador Herbert Hoffmann colecionou imagens de arte corporal dos anos 20 aos anos 70. Ele era bastante conhecido no meio até morrer, em 2010, e foi tatuado por artistas famosos como Christian Warlich, Tatover Ole e Horst Streckenbach.

“Não se sabe muito sobre as tatuagens mais antigas – elas não são mantidas em museus como as pinturas”, lembra Kumschick. “É difícil para os artistas tatuadores – o que você faz com seres humanos que dormem, comem e morrem? Muitas tatuagens não são arte, mas há algumas que podem ser consideradas como obras de arte.”

A curadora acredita que é preciso que críticos de arte se interessem mais por tatuagens. “Quando uma tatuagem é bem feita, ela passa a integrar aquele corpo, aquela pessoa, aquela personalidade. A estética e seu significado, a história inteira, tudo isso se mescla e se torna um todo único. É uma forma de arte que não pode ser comparada a nenhuma outra.”

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Culture.