Nigéria: eleição evidencia polarização e corrupção no país

AP Direito de imagem BBC World Service
Image caption Partidários do presidente estão confiantes de que Jonathan vai permanecer no poder

Na Nigéria, geralmente, uma eleição significa que quem está no poder deve vencer e continuar no cargo.

Mas, a votação deste sábado pode trazer uma grande mudança. Não apenas o presidente Goodluck Jonathan perdeu muito apoio desde sua vitória confortável em 2011, mas a oposição se uniu para apoiar Muhammadu Buhari, militar que governou o país por quase dois anos após um golpe militar no final de 1983.

Em um país onde as pesquisas de opinião podem ser tão confiáveis quanto uma promessa de político, será difícil prever o resultado desta eleição.

E a campanha tem sido violenta: o partido do governo, Partido Democrático do Povo (PDP), e o Congresso Progressista (APC na sigla em inglês) trocam acusações. Afinal, o que está em jogo é o controle da maior economia da África, um país onde escândalos de corrupção com bilhões de dólares são comuns.

Religiões

A Nigéria é um país muito diverso e, com a eleição, as muitas divisões regionais e religiosas foram expostas.

Os dois principais candidatos são de religiões e regiões diferentes. Jonathan é um cristão do sul do país e o general Buhari, muçulmano do norte.

Leia mais: Boko Haram será derrotado em um mês, promete presidente da Nigéria

O discurso de ódio parece ter chegado a um patamar perigoso quando a esposa do presidente, Patience Jonathan, foi filmada durante um comício dizendo à multidão que "qualquer um que vier e falar (a palavra) 'mudança', deve ser apedrejado".

Direito de imagem BBC World Service
Image caption O partido de oposição afirma que quer limpar 'a bagunça' criada pelo partido do governo
Direito de imagem BBC World Service
Image caption Depois das eleições de 2011 ocorreram episódios de violência no país
Direito de imagem BBC World Service
Image caption Durante a campanha, a esposa do presidente foi acusada de discurso de ódio, o que ela nega

A porta-voz da primeira-dama disse depois para a imprensa local que ela é uma mulher de paz.

Campanha

"Você vai descobrir políticos sem vergonha nenhuma, indo contra a lei eleitoral, distribuindo dinheiro", disse Bawa Abdullahi Wase, analista ligado à ONG nigeriana Network For Justice.

Segundo Wase, um candidato que quer ocupar um assento na Câmara dos Representantes da Nigéria precisa de um mínimo de US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,19 milhões) para a campanha. Para o Senado, é preciso ainda mais dinheiro.

Estas são as eleições mais cara já realizadas na África, e pairam suspeitas de que dinheiro público poderia estar sendo utilizado pelas duas campanhas.

"Quando eles assumem um cargo, ao invés de oferecer serviços para as pessoas como eletricidade, água, estradas e educação, eles acumulam riquezas, pois sabem que na próxima eleição terão que gastar mais do que gastaram nesta", disse Wase.

Arroz

Os principais partidos políticos nigerianos também têm distribuído sacos de arroz para os eleitores, para tentar influenciar o resultado da votação.

Direito de imagem BBC World Service
Image caption Partidário usa uma máscara do presidente nigeriano

"Vou pegar (o arroz) mas votarei para quem eu quiser", disse Peter Ayas em uma alfaiataria do bairro de Obalende, na capital comercial do país, Lagos. Ele acrescenta que acha o suborno um insulto.

Mas a opinião de Ayas não é unânime, e muitos acabam aceitando este tipo de ajuda para votar.

Leia mais: Que perigo traz a aliança entre Estado Islâmico e Boko Haram?

"A desigualdade entre os ricos e pobres é muito grande. Apenas durante a eleição você vê os ricos interagindo com os pobres, para conseguir o voto deles", disse.

Reputação

A eleição foi atrasada em seis semanas e agora a comissão eleitoral do país está mais bem preparada. Alguns analistas acreditam que o processo todo seria um fracasso se fosse realizado na data original de 14 de fevereiro.

Direito de imagem BBC World Service
Image caption Ex-general tenta conseguir a aprovação do eleitorado pela quarta vez

Alguns ainda temem que a eleição possa não acontecer neste sábado, pois muitos analistas acreditam que o partido do governo não vai arriscar ir às urnas sem uma vitória certa.

"Há a suspeita de que nenhum partido parece bem preparado para o trauma de uma derrota. O que a Nigéria precisa depois de a poeira assentar nesta eleição é não apenas um governo eficaz, mas uma oposição eficaz", disse Anthony Goldman, um especialista em Nigéria que lidera uma empresa de consultoria baseada em Londres, a PM Consulting.

Leia mais: Boko Haram: o que aconteceu em Baga?

O nível de paz neste importante período da história nigeriana vai depender do comportamento dos políticos, mas também da determinação do grupo militante islâmico Boko Haram, que pode tentar atrapalhar a democracia no país.

Motivo oficial

O motivo oficial para o adiamento da eleição era a insegurança no nordeste da Nigéria.

Considerando as grandes perdas de vidas - segundo os ativistas da Human Rights Watch os insurgentes do Boko Haram mataram cerca de mil pessoas apenas neste ano - parece não haver desculpas para o fato de uma ofensiva militar mais forte não ter sido lançada meses, talvez até anos, atrás.

Direito de imagem BBC World Service
Image caption Episódios de violência ocorreram em Gombe, Estado do norte, antes de um comício do presidente

Ainda não se sabe quantas pessoas realmente vão votar na região nordeste da Nigéria, onde 1,5 milhão de pessoas já abandonaram suas casas. Um comparecimento baixo pode favorecer Jonathan, pois o nordeste é uma área da oposição.

Leia mais: Boko Haram: como os militantes nigerianos ficaram tão poderosos?

E também há a ameaça de mais ataques com bombas, mesmo fora da região nordeste. Recentemente, cidades como Kano, Kaduna, Jos e Abuja foram alvos destes ataques e o grupo Boko Haram foi responsabilizado.

Guerra civil

O delta do rio Níger, região de onde vem Jonathan, é outro problema para a Nigéria. As rivalidades políticas nestas regiões são grandes e alguns membros de milícias prometeram caos caso o presidente não vença.

Há também uma cultura de impunidade na Nigéria quando se trata de violência eleitoral.

"No passado, a maioria das pessoas envolvidas ou indiciadas em violência eleitoral saíram livres. Não há julgamento", disse Tony Ojukwu, da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Nigéria.

Leia mais: 150 ou 2 mil? Por que os números do massacre na Nigéria são tão díspares

"Depois da última eleição (quanto pelo menos 800 pessoas foram mortas) o painel de reformas recomendou o estabelecimento de tribunais para crimes eleitorais. Mas, claro, isto não é de interesse dos políticos, pois eles são os maiores violadores (das leis eleitorais)", acrescentou.

Direito de imagem BBC World Service
Image caption As milícias da região produtora de petróleo ainda são uma ameaça

Muitos nigerianos apenas esperam que este período tenso acabe logo.

"Rezo todos os dias, mas, nesta manhã, rezei muito pela Nigéria", disse Tomiwa, que trabalha para uma companhia online em Lagos.

Na noite anterior, ela assistiu a um filme sobre a guerra civil na Nigéria, que acabou em 1970 com os militares reprimindo uma tentativa de se criar um país separado em Biafra.

"Vi tantos paralelos com a situação atual da Nigéria que me aterrorizou", afirmou.

Conheça os candidatos:

Goodluck Jonahtan

  • Gosta de chapéus no estilo fedora.
  • Vai à igreja regularmente.
  • O nome do meio, Ebele, significa "vontade de Deus".
  • Gosta de mencionar sempre que possível que não tinha sapatos quando era criança, por causa da pobreza.
  • Disse a jornalistas em 2012 que não declararia os bens que possui pois "não dá a mínima para isto".
  • Negou informações de que, em 2014, seu patrimônio líquido era de cerca de US$ 100 milhões (mais de R$ 319 milhões).

Muhammadu Buhari

  • 71 anos de idade.
  • Governante militar da Nigéria de 1984 a 1985.
  • Deposto em um golpe.
  • Histórico ruim no que diz respeito aos direitos humanos.
  • Visto como incorruptível.
  • Disciplinador - funcionários públicos que se atrasavam eram obrigados a fazer exercícios.
  • Muçulmano do norte da Nigéria.
  • Sobreviveu a uma aparente tentativa de assassinato do Boko Haram.