Como a Costa Rica conseguiu produzir toda sua eletricidade de forma limpa

Direito de imagem Getty
Image caption Planta geotérmica usa vapor de vulcão dormente para gerar energia

Durante os primeiros 75 dias deste ano, a Costa Rica conseguiu uma marca inédita: usou apenas energia renovável para abastecer sua rede elétrica, em meio a esforços para "limpar" sua matriz energética até 2021.

O país se beneficiou de três represas cheias graças a um período excepcional de fortes chuvas, além da energia de fontes geotérmica - que usa o calor vindo do interior da Terra - , eólica, solar e biomassa, segundo o Instituto Costa-riquenho de Eletricidade.

Com isso, as usinas térmicas do país não precisaram ser usadas no período, "com consequente benefício ambiental e econômico, porque não houve necessidade de usar combustíveis (fósseis)", disse o instituto.

Por enquanto, só metade das fontes de energia primária da Costa Rica são renováveis. Neste ano, o país conseguiu avançar "limpando" a energia elétrica.

Leia mais: Obras de anel rodoviário afetam rios e nascentes de SP

Leia mais: Avião movido a energia solar tenta recorde de volta ao mundo

Leia mais: Britânicos projetam lagoas artificiais geradoras de energia

Especialistas consultados pela BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, apontam que o país tem tentado obter rendimento máximo de seus recursos naturais para evitar ter de importar hidrocarbonetos.

Um dos elementos-chave foi a integração ao Programa de Energias Renováveis e Eficiência Energética Centro-americana (4E), implementado pelo escritório de cooperação internacional do governo alemão junto à Secretaria-Geral do Sistema de Integração da América Central (SG-SICA), que trabalha para fomentar uma matriz mais limpa na região.

O diretor regional do programa 4E, Manfred Haebig, explica à BBC Mundo que o país "sempre teve a matriz energética mais 'verde' da América Central".

A matriz é composta em 80% por hidrelétricas e só 20% das energias renováveis é eólica e geotérmica (uma usina no país é abastecida pelo vapor de um vulcão dormente).

O problema disso - além do impacto da construção de hidrelétricas - é que o modelo é bastante dependente do clima: se falta água, o fornecimento de energia fica comprometido.

"Hoje as represas estão cheias e pode-se falar de 100% de energia renovável. Mas isso é dinâmico e pode mudar ao longo do tempo", explica Haebig.

A novidade, no caso costa-riquenho, é que o país tem levado em consideração as mudanças climáticas, que alteram, por exemplo, a constância das chuvas, explica Tabaré Arroyo, autor do estudo "Líderes em Energia Limpa", produzido para a organização ambiental WWF.

Direito de imagem Getty
Image caption País criou ambiente propício para investimentos em energia renovável

Arroyo explica que a Costa Rica tem investido não apenas em energia hidrelétrica, mas também eólica e geotérmica, para o caso de caírem os níveis de água acumulada nas represas.

"Obter 100% de eletricidade renovável é algo novo na América Latina", afirma.

'Líder regional'

Em seu relatório para a WWF, Arroyo explica que dois mecanismos ajudaram o país centro-americano a avançar nas energias renováveis.

O primeiro é um sistema de leilão para a compra adicional de energia limpa.

O segundo é um programa para promover a geração de energia pelos próprios consumidores - "que conectam seus sistemas solares, eólico, de biomassa e cogeração à rede", explica o especialista. Esses pequenos produtores podem vender os excedentes, o que vem ajudando a abastecer a rede energética.

Leia mais: Até quando vão durar os preços baixos do petróleo?

Leia mais: Dispositivo em sapato gera energia com a força dos passos

"Graças a seu grande potencial e um marco jurídico favorável, a Costa Rica criou um ambiente atrativo para investimentos em energia renovável", diz o relatório.

Entre 2006 e 2013, o país atraiu mais de US$ 1,7 bilhão para financiar projetos energéticos limpos.

Com isso, a Costa Rica virou o "país latino-americano mais bem posicionado no Índice de Sustentabilidade Energética", diz a WWF.

Ao mesmo tempo, reportagem do jornal britânico The Guardian ressalta que a Costa Rica ainda enfrenta muitos obstáculos para cumprir suas metas energéticas: além de ter um padrão instável de chuvas, o país ainda depende do petróleo para o setor de transportes.

O combustível consumido por carros, ônibus e trens responde por quase 70% das emissões de carbono costa-riquenhas. E são poucos os carros híbridos disponíveis, disse o jornal.

Ainda assim, em um país dependente do turismo ecológico, "faz sentido buscar fontes de energia limpas e não contaminantes", diz Jake Richardson, especialista em energia renovável do site Clean Technica.

O objetivo é também economizar na importação de combustíveis fósseis e no próprio bolso: a Autoridade Reguladora de Serviços Públicos calcula que a tarifa de eletricidade ficou até 15% mais barata graças às mudanças energéticas.

Notícias relacionadas