Irã e potências dão primeiros passos para acordo nuclear

Image caption Usina atômica iraniana; Obama diz que país concordou com inspeções sem precedentes em suas instalações

Após extensas negociações, Irã, Estados Unidos e outras cinco potências globais anunciaram nesta quinta-feira os primeiros passos para um acordo - ainda a ser discutido nos próximos três meses - sobre o programa nuclear iraniano, que visa evitar que Teerã desenvolva a tecnologia para produzir armas atômicas.

A chefe de política externa da União Europeia, Federica Mogherini, leu comunicado conjunto dizendo que o acerto é "um passo decisivo" que se segue a mais de uma década de debates sobre o programa nuclear de Teerã. Segundo ela, a "capacidade de enriquecimento e o estoque (de urânio)" do Irã serão limitados.

Os negociadores conseguiram um acerto geral sobre os limites do programa iraniano, mas autoridades afirmam que muitas questões ainda terão de ser resolvidas até o anúncio oficial do acordo, previsto para 30 de junho.

Em pronunciamento pouco depois do anúncio, o presidente americano Barack Obama disse que o acordo "é bom" e "cumpre nossos objetivos principais".

"A estrutura (do acordo) deve extinguir qualquer caminho que possa ser tomado pelo Irã para desenvolver armas nucleares", afirmou Obama. "O Irã enfrentará limitações em seu programa e concordou com as inspeções (internacionais) mais robustas e intrusivas já negociadas em qualquer programa nuclear da história. Então esse acordo não será baseado na confiança, mas em checagens sem precedentes."

Leia mais: Quatro anos depois, produtos de Fukushima sofrem com maldição

Pelo Twitter, o chanceler do Irã, Javad Zarif, afirmou que soluções "foram encontradas" e que o país está "pronto para começar a escrever imediatamente" um rascunho de acordo.

O Irã sempre afirmou que seu programa nuclear tem fins pacíficos e que o país não busca a bomba.

Mas o tema sempre despertou temores no Ocidente e em Israel (que, suspeita-se, também tem tecnologia para preparar bombas nucleares) porque o país escondeu seu programa de enriquecimento de urânio - importante etapa do programa nuclear - durante 18 anos, o que feriria o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

Teerã entrou nas negociações atuais para que sejam suspensas as sanções que têm prejudicado a economia do país.

Termos

Direito de imagem AFP
Image caption Negociações ocorreram na Suíça e se alongaram além do previsto

Segundo informações fornecidas pelo governo americano, Teerã concordou em reduzir significativamente o número de centrífugas de enriquecimento de urânio (de 19 mil para 6,1 mil, e só operará 5 mil delas).

Em troca, o país receberá alívio gradual das sanções impostas pelos EUA e pela União Europeia, à medida que cumprir com os termos acordados com as potências internacionais. Se os termos não forem cumpridos, "as sanções voltarão a vigorar", diz documento fornecido por Washington a jornalistas.

As resoluções impostas ao Irã pelo Conselho de Segurança da ONU serão suspensas, e uma nova resolução apoiando o futuro acordo nuclear vai incorporar termos sobre transferência de tecnologia nuclear e outras atividades relacionadas ao programa.

Leia mais: Conco pontos para entender o impasse sobre o programa nuclear do Irã

Sanções não relacionadas ao programa nuclear - envolvendo denúncias de apoio a extremistas e abusos de direitos humanos no Irã, por exemplo - não serão afetadas.

Ao comentar o acerto, Obama afirmou que o acordo sozinho não será suficiente para restaurar a confiança americana em Teerã e que se o país tentar "enganar (os termos acordados), nós saberemos".

Ao mesmo tempo, o presidente advertiu o Congresso americano - onde Obama enfrenta forte resistência da oposição republicana - que se o Legislativo rejeitar o acordo com o Irã, será responsabilizado por "um fracasso diplomático".

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, disse que o acordo permitirá à Agência Internacional de Energia Atômica que investigue qualquer local suspeito de atividades nucleares no Irã.

P5+1

Se o futuro acordo for bem-sucedido, pode ajudar a aliviar as tensões bilaterais, após 35 anos de animosidade entre Teerã e Washington.

Estas recentes negociações estavam em curso há oito dias na Suíça, envolvendo o grupo chamado de P5+1 (EUA, Reino Unido, França, China e Rússia, mais a Alemanha). A previsão era de que as conversas tivessem sido concluídas na terça-feira, mas se alongaram.

Em contrapartida, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu - um dos mais fortes críticos das negociações - afirmou, também nas redes sociais, que "qualquer acordo deve reduzir significativamente as capacidades nucleares do Irã e interromper seu terrorismo e suas agressões".

Leia mais: Discurso 'clássico' pode ajudar Netanyahu nas políticas interna e externa

O premiê israelense prometeu combater o acordo antes de sua finalização, argumentando que ele deixará grande parte da infraestrutura nuclear do Irã intacta.

Obama disse que conversaria com Netanyahu ainda nesta quinta-feira. O presidente americano investiu parte significativa de seu capital político no acordo e tenta conter o desgaste na relação com Israel.

O general Hossein Dehghan, ministro da Defesa do Irã, disse que comentários feitos por Israel e por autoridades contrárias ao acordo visavam "afetar a atmosfera racional" em que ele foi negociado.

O Irã também negociou sob pressão doméstica: ao mesmo tempo em que sentem os efeitos das sanções econômicas impostas pelo Ocidente, os iranianos não querem ceder demasiado em seu programa nuclear.