Estado Islâmico fatura vendendo relíquias a colecionadores ocidentais, dizem especialistas

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Image caption Escultura da cabeça do rei Sargão 2º da Assíria foi apreendida nos EUA e devolvida ao Iraque

O grupo autodenominado "Estado Islâmico" (EI) é a organização extremista mais rica do mundo – basta ver a frota de 4x4 novinhos em seus vídeos, por exemplo.

Mas de onde vem tanto dinheiro? Segundo analistas, uma boa parte é fruto de doações generosas, enquanto muito é gerado com o contrabando de petróleo (até US$ 1,65 milhão por dia), sequestros (pelo menos US$ 20 milhões no ano passado), tráfico de pessoas, extorsões, roubos e, não menos importante, a venda de antiguidades.

Esta última é uma lucrativa fonte de renda: especialistas acreditam que apenas a comercialização dos artigos saqueados de Al-Nabek, a oeste de Damasco, pode ter trazido ao EI US$ 36 milhões (cerca de R$ 112 milhões).

O EI opera na arena arqueológica mais rica do mundo, o berço da civilização. Enquanto os sítios arqueológicos de Nimrud, Nineveh e Hatra estão sendo destruídos, uma enorme quantidade de artigos supostamente vindos desses lugares vem aparecendo no mercado negro ocidental.

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‘Arqueologia da escavadeira’

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Image caption Quanto menores e mais fáceis de transportar, mais valiosos são os objetos roubados

A organização extremista usa a chamada "arqueologia da escavadeira", revolvendo sítios arqueológicos usando qualquer máquina que estiver a seu alcance e que possa ser extraordinariamente destruidora. Ou contrata pessoas locais para cavar os sítios e os túmulos.

Arthur Brand, da holandesa Artiaz, uma das muitas firmas que têm tentado localizar obras de arte roubadas, chamou esse comércio ilegal de "antiguidades de sangue". Enquanto as relíquias são mais difíceis de serem transportadas do que os diamantes de sangue, elas são potencialmente muito mais valiosas.

Há inúmeros relatos de antiguidades vindas da Síria e do Iraque circulando no mercado negro europeu. Na Grã-Bretanha, a Scotland Yard estaria investigando quatro casos relacionados a antiguidades sírias – mas, sem recursos financeiros, desmantelar a rede que transporta essas relíquias pelo mundo parece ser tarefa impossível.

"Os saqueadores usam rotas de contrabando que geralmente atravessam a Turquia e o Líbano", afirma Mark Altaweel, do Instituto de Arqueologia da Universidade College London.

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Entre os itens mais procurados estão tabuletas com escritas cuneiformes, selos cilíndricos, vasos, moedas, copos e sobretudo mosaicos, que podem ser desmanchados, transportados e depois remontados. Quanto menor e mais fácil de ser escondido e transportado, mais valioso o objeto.

Christopher Marinello, do Art Recovery Group, organização em Londres que faz auditorias para compradores, diz que há uma grande especulação em relação ao valor da arte roubada. "Em tese, objetos de origem ilegal valem muito menos do que se estivessem no mercado oficial, mas tudo depende da praticidade. Um artigo grande que seja ilegal pode ser vendido por 10% a 15% de seu verdadeiro valor no mercado negro, mas objetos menores podem conseguir uma porcentagem maior", explica.

O EI não é a primeira organização extremista a usar antiguidades para financiar suas operações. Em 1974, o Exército Republicano Irlandês (IRA, na sigla em inglês) roubou quadros famosos de uma mansão ao sul de Dublin. Na época, as obras estavam avaliadas em US$ 12 milhões (ou R$ 37,5 milhões na cotação atual).

Quebrar e pegar

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Image caption EUA não evitaram saques no conflito no Iraque em 2003, de onde saiu esta estátua suméria

É possível que pouquíssimos dos milhares de objetos saqueados na Síria e no Iraque consigam ser descobertos. A maioria vai desaparecer em coleções e em cofres particulares, principalmente na Europa, nos Estados Unidos – onde existe uma demanda específica por itens pré-islâmicos –, no Japão e na Austrália.

Quando os artigos são recuperados, normalmente demora anos até que os ladrões sejam julgados e condenados.

Em março, as autoridades alfandegárias americanas exibiram cerca de 60 objetos que foram resgatados de contrabandistas, incluindo uma magnífica cabeça do rei assírio Sargão 2º, avaliada em US$ 1,2 milhão (cerca de R$ 3,7 milhões).

Os documentos que acompanhavam o lote apreendido indicavam a Turquia como país de origem das peças e declaravam o valor da cabeça como sendo US$ 6,5 mil (ou R$ 20 mil).

Outras remessas apreendidas anteriormente pela polícia americana estavam diretamente ligadas a grandes museus e galerias de Nova York. A investigação foi pioneira em indiciar organizações e indivíduos por lavagem de dinheiro, o que permitiu aos agentes congelar as contas bancárias onde as quantias era depositadas.

A maioria dos itens recuperados nos Estados Unidos data da Guerra do Iraque.

Em 2003, sabendo que o conflito traria danos irreparáveis ao patrimônio histórico e cultural local, arqueólogos, diretores de museus e outros membros do mundo das artes se reuniram com autoridades do Pentágono para convencê-las a proteger os sítios arqueológicos.

A iniciativa fracassou. Em vez disso, as forças americanas notoriamente transformaram o lugar da antiga Babilônia no que ficou conhecido como os "Jardins Suspensos de Halliburton" (em referência à empresa fornecedora do Exército americano), estabelecendo um acampamento no precioso sítio arqueológico.

A reunião no Pentágono também não conseguiu evitar o saque ao Museu Nacional de Bagdá. Mais de 15 mil objetos foram roubados do museu, incluindo joias, cerâmicas e esculturas. Os mais famosos eram um vaso do período Uruk de 14 mil anos (depois recuperado em pedaços) e a Lira de Ur, o mais antigo instrumento musical do mundo, igualmente encontrado quebrado.

Cinco séculos de registros da era otomana foram perdidos, assim como quadros de Picasso e Miró, destruídos por um incêndio. Uma estimativa calcula que o prejuízo causado pelo roubo de obras de arte no Iraque foi de US$ 10 bilhões (R$ 32 bilhões).

Décadas de esconderijo

Artefatos roubados passam por muitas mãos antes de aparecerem no mercado – e alguns podem levar décadas para surgirem. Lynda Albertson, presidente da Associação para a Pesquisa de Crimes contra a Arte, afirma ser impossível quantificar o dinheiro que o EI faz no mercado negro por causa do intervalo para uma obra reaparecer.

Por exemplo, antiguidades retiradas do templo de Angkor Wat, no Camboja, apareceram em um leilão 40 anos depois do fim da guerra civil no país.

Colecionadores que desejam comprar objetos de arte sem uma origem seguramente comprovada também são responsáveis pela destruição desse patrimônio ao redor do mundo. Mas agora o jogo ficou mais perigoso.

Os contrabandistas turcos e libaneses que provavelmente conseguiram tirar da Síria a cabeça de Sargão 2º estão mais cautelosos e suspeitos em relação a seus compradores.

Não apenas eles poderiam ser pegos e levar um prejuízo material como também poderão ser acusados de apoio ao terrorismo, se for comprovado que obtiveram objetos do EI – por enquanto, o maior fator a colocar um obstáculo nessa rota.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Culture.