A primeira candidata a presidente nos EUA, 143 anos antes de Hillary

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Image caption Victoria Woodhull foi candidata à Presidência dos EUA em 1872, quase meio século antes das mulheres conquistarem direito ao voto no país

Hillary Clinton, ex-secretária de Estado americana, anunciou no domingo que buscará a candidatura democrata para a Presidência dos Estados Unidos nas eleições de 2016.

O que poucos sabem é que a primeira mulher no país a participar da corrida presidencial realizou essa façanha há mais de 140 anos.

Victoria Woodhull tinha 33 anos quando foi nomeada candidata à Casa Branca pelo Partido pela Igualdade de Direitos. Sua candidatura foi apresentada em maio de 1872, quase meio século antes de as mulheres terem o direito de votar nos EUA.

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Sua vida foi uma sucessão de confrontos com as crenças da época: defendeu, em pleno século 19, o amor livre e a prostituição legal e foi corretora da bolsa de Nova York em um mundo financeiro dominado por homens.

"A agitação do pensamento é o começo da sabedoria. (E) eu gosto disso", disse Victoria.

Casamento insuportável

Alguns historiadores veem as raízes da rebeldia de Victoria em sua infância nada convencional. Foi a quinta dos sete filhos - dez, segundo alguns relatos - de Reuben e Roxanna Claflin.

A mãe era clarividente e médium e a família viajava constantemente devido à venda itinerante de remédios "milagrosos" pelo pai, que também estaria envolvido com negócios ilegais - as viagens seriam, na verdade, uma forma de escapar da Justiça.

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Image caption Delegação de mulheres defendeu o direito ao voto diante de um comitê do Congresso. Victoria expôs suas ideias políticas no semanário que fundou com sua irmã

Victoria e sua irmã Tennessee começaram como videntes ainda adolescentes e abandonaram cedo a casa dos pais. "Da crueldade dos pais, Victoria fugiu para a crueldade insuportável do seu primeiro marido", escreveu o biógrafo Theodore Tilton.

Casou-se aos 15 anos com Canning Woodhull, também vendedor de remédios. Tiveram dois filhos: Byron, que nasceu com problemas mentais, que Victoria atribuiu ao alcoolismo do marido, e uma menina, Zula.

Alguns relatos indicam que o marido teria agredido a jovem esposa com frequência antes de abandoná-la. O casal se divorciou em 1864.

A experiência dolorosa com Woodhull certamente contribuiu para que Victoria se convertesse numa defensora devota do amor livre.

A jovem se interessou nas ideias do pensador socialista francês Charles Fourier, que pregava a liberdade sexual e criou o termo "feminista".

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Na bolsa de valores

Em 1866, segundo relatos da época, Victoria casou-se com James Harvey Blood, outro defensor de ideias radicais sobre a liberdade sexual.

O casal mudou-se para Nova York, onde Victoria e a irmã conheceram o financista Cornelius Vanderbilt, que havia ficado viúvo aos 76 anos.

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Image caption Victoria e sua irmã fundaram a primeira empresa de corretores de bolsa comandadas por mulheres

A dupla atuou como médium para que Vanderbilt entrasse em contato com sua esposa morta. Em troca, ele as ajudou a conhecer os segredos do mercado de ações.

O financista também contribuiu para que elas criassem a primeira empresa de corretoras pertencente a mulheres em Wall Street, a Woodhull, Claflin and Company.

O lucro permitiu que as irmãs fundassem o semanário Woodhull and Claflin's Weekly, em 1870. Elas usaram a publicação para defender os direitos da mulher como agentes livres e independentes, capazes de tomar suas próprias decisões.

Victoria defendia "a liberdade sexual para todos, a liberdade dos monógamos praticarem a monogamia, e aos que escolherem terem diversos parceiros terem (o direito) de tê-los".

Publicaram, ainda, o Manifesto Comunista de Marx e deixaram claras suas ideias progressistas em relação à política. Para Victoria, o governo havia se convertido num mero instrumento "para que uma classe impusesse suas regras sobre a outra".

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Image caption A própria Victoria foi vítima de um casamento abusivo, quando tinha apenas 15 anos

A jovem era partidária de um sistema baseado em igualdade política e econômica, não só de direitos mas de acesso a oportunidades.

Em janeiro de 1871, Victoria participou, em Washington, de reunião da Associação para o Sufrágio Feminino (NWSA, na sigla em inglês). Em um discurso, ela defendeu o direito ao voto das mulheres dizendo que ele já estava garantida nas emendas 13 e 14 da Constituição dos Estados Unidos.

Neste encontro, ela conheceu algumas das líderes da luta pelo voto feminino nos EUA, um direito que só seria garantido em 1920.

Susan B. Anthony, Isabella Beecher Hooker e outras mulheres importantes à época expressaram admiração por Victoria. Mas outras foram se mostraram "horrorizadas", segundo alguns relatos, com as ideias da jovem sobre o amor livre.

Alguns críticos, no entanto, apontam inconsistências em suas ideias, como a defesa da igualdade econômica por um lado, e suas atividades em Wall Street do outro.

Candidata à Presidência

Em maio de 1872, um grupo dissidente da NWSA, os Reformistas Radicais Nacionais, nomeou Victoria como candidata à Presidência pelo Partido pela Igualdade de Direitos.

Mas, no período da eleição, Victoria e sua irmã estavam presas.

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Image caption Na Inglaterra, Victoria se envolveu na luta desgastante pelo voto feminino

As irmãs haviam denunciado em seu semanário a hipocrisia de personagens conhecidos da época que pregavam, mas não respeitavam, uma moralidade estrita, e chegaram a revelar escândalos de adultério.

Ambas ficaram presas por meses e ninguém sabe se ela teve algum tipo de apoio nos comícios eleitorais.

Victoria se divorciou de James Blood e, em 1877, mudou-se com sua irmã e mãe para a Inglaterra, onde se casou com seu terceiro marido, o banqueiro John Biddulph Martin.

Embora tenha ocasionalmente visitado os Estados Unidos, Victoria permaneceu na Inglaterra, onde envolveu-se na longa e desgastante luta pelo voto feminino, liderada por Emmeline Pankhurst e suas filhas, entre outras.

A ex-candidata presidencial morreu em junho de 1927, aos 88 anos.

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