Câmeras em time-lapse revelam vida secreta dos pinguins da Antártida

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Image caption Voluntários ajudaram a contabilizar penguins nas quase 200 mil imagens produzidas

Observar o ciclo de vida dos pinguins da Antártida é extremamente difícil: o clima extremo e a localização remota de muitas colônias acabaram fazendo com que estudos científicos contínuos só tenham sido realizados em alguns locais.

Mas como algumas das populações de muitas espécies, como o pinguim-de-barbicha (Pygoscelis antarctica) e o pinguim-de-adélia (Pygoscelis adeliae), estão em rápido declínio, os cientistas precisavam de novas maneiras de estudar essas aves e as ameaças que elas enfrentam.

Para resolver o problema, no ano passado, pesquisadores da Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, e da Divisão Antártica Australiana instalaram câmeras automáticas por todo o continente antártico e subantártico e gravaram cada minuto da temporada de acasalamento em várias colônias diferentes.

Quase 200 mil imagens foram produzidas e precisavam ser analisadas cuidadosamente. Tarefa prontamente adotada por 1,5 milhão de voluntários que viram as fotografias na internet: eles ajudaram a fazer uma contagem dos pinguins, assim como de seus filhotes e seus ovos, e reportaram comportamentos estranhos ou surpreendentes, em um projeto coletivo chamado Penguin Watch.

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Descobertas sem interferência

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Image caption Condições climáticas extremas dificultam a observação contínua de pinguins

Além de avaliar a saúde de cada colônia individualmente, os cientistas conseguiram usar as informações coletadas para realizar várias novas descobertas.

Uma delas foi que certos grupos de pinguins usam suas fezes (ou guano) para derreter o gelo do solo antes do que seria desaparecimento natural.

Os pesquisadores também observaram várias pombas-antárticas (Chionis alba) cercando as colônias de pinguins no inverno, apesar de até então se acreditar que essas aves migravam para a América do Sul nessa época.

Agora, mais 500 mil novas imagens de pinguins estão sendo divulgadas para marcar o Dia Mundial do Pinguim, em 25 de abril.

Além disso, os cientistas também continuam a instalar novas câmeras na região.

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Image caption Recentemente, projeto lançou na internet 500 mil novas imagens da Antártica

"Esperamos que essas novas câmeras revelem a frequência com que os pinguins alimentam seus filhotes e quanto tempo eles têm para chegar ao mar para se alimentar, nas diferentes regiões do continente", afirma Tom Hart, líder da pesquisa na Universidade de Oxford.

"Até agora, isso só era possível instalando GPS nos pinguins. A expectativa é que, ao desenvolvermos um método não invasivo, consigamos rastrear pinguins em todo o Oceano Austral sem que os pesquisadores perturbem os animais", explica.

As informações obtidas a partir das fotos vão ajudar os cientistas a entender o que os pinguins fazem no inverno, como as mudanças climáticas e a atividade humana afetam sua procriação e sua alimentação, e por que algumas colônias e espécies estão lutando para sobreviver enquanto outras estão prosperando.

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Image caption Cientistas esperam que projeto ajude a entender e mitigar ameaças às populações de penguins

"O problema é que os pinguins enfrentam desafios diferentes em todas as suas espécies, o que pode ser resultado das mudanças climáticas, da pesca ou de outra interferência humana direta", diz Hart.

"As câmeras em time-lapse revolucionaram nossa capacidade de recolher dados vindos de um grande número de locais simultaneamente. Monitorar mais regiões e comparar aquelas onde a atividade pesqueira é maior com onde ela é menor, por exemplo, vai nos permitir entender quais dessas ameaças estão modificando as populações e como podemos mitigá-las."

Os cientistas também esperam usar o trabalho dos voluntários para "ensinar" um computador a contar os pinguins com precisão e a identificar indivíduos de diferentes espécies.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Earth.