Nepal: 'O momento em que o terremoto atingiu meu apartamento'

Direito de imagem AP
Image caption Katmandu ficou repleta de abrigos improvisados, depois de milhares de pessoas perderem suas casas

A jornalista nepalesa Bhrikuti Rai estava em casa, em Katmandu, no momento do devastador terremoto do último sábado, que matou mais de 4 mil pessoas. Ela conta à BBC como a vida dela mudou completamente, assim como a de milhares de outras pessoas no Nepal:

"Exatamente às 11h58 da manhã de sábado, meu irmão gritou 'bhuichaalo', ou terremoto.

Enquanto ele se movia em direção à porta, o espelho no meu quarto balançou com força. 'Fique aqui', ele disse calmamente, e a minha respiração ficava cada vez mais ansiosa.

Acho que eu gritei enquanto ele me lembrava de não sair debaixo da estrutura da porta - sempre aprendemos que é um dos lugares mais seguros de um prédio durante um terremoto. E esse era o grande terremoto que vínhamos temendo há anos.

Minha voz era engolida pelo tremor do espelho e do meu laptop na escrivaninha, pelos gritos dos vizinhos e pelos barulhos das portas e janelas batendo.

E depois do que pareceu uma eternidade, tudo parou, ou talvez não. Olhamos um para o outro e calçamos os sapatos. Nos segundos seguintes, antes de sair do apartamento, coloquei meu laptop, bolsa e passaporte dentro de uma sacola de viagem.

Leia mais: porcos e galinhas também esperam por resgate no Nepal

Olhei para o meu quarto - que eu havia limpado naquela manhã -, peguei minha antiga câmera e desci as escadas.

Mas antes que eu pudesse virar à porta principal, vi uma parede que cerca o nosso prédio desabar.

Corremos escada abaixo e saltamos sobre os destroços, para encontrar todos os nossos vizinhos reunidos na viela ali fora.

No jardim de um bloco vizinho, as pessoas estavam aglomeradas; algumas seguravam bebês, outras estavam em choque. Mulheres gritavam das janelas.

Os tremores continuavam.

Direito de imagem Reuters
Image caption Tremor trouxe à tona memórias da tragédia de 1934 e deve marcar uma geração de nepaleses

Como o lugar não parecia seguro, fomos mais adiante na viela, aterrorizados pelos destroços e pelas rachaduras nas paredes de concreto. Mais de dez pessoas estavam ali olhando para os fios elétricos emaranhados e os postes de luz caídos.

E então, bem no momento em que a terra deu mais um solavanco, mais pessoas correram para fora de suas casas, descalças.

Caminhamos em direção a um playground de uma escola, o único espaço aberto da vizinhança, enquanto eu tirava fotos com minhas mãos trêmulas. Fiquei arrepiada ao ver tantas pessoas ali, algumas voltando para suas casas para buscar cobertores, cadeiras e máscaras para conter o frio e a poeira.

Diante dos olhos

As pessoas tentavam desesperadamente ligar para seus entes queridos, xingando as rede telefônica e suas conexões intermitentes. Alguns se ofereciam para carregar os feridos e levar água às pessoas. Pelos telefones circulavam fotos chocantes de prédios e estradas rasgados pelo terremoto.

Nossa Dharhara - torre de 62 m reconstruída após o tremor de 1934 - havia colapsado, assim como outros antigos templos e palácios.

'Me sinto como uma refugiada', disse minha irmã, que mora no andar de baixo e nos encontrou no playground. Outro homem brincou que todos parecíamos vítimas de enchentes. Não foi engraçado.

Leia mais: Em imagens: Destruição e buscas por sobreviventes no Nepal

De repente, todas as reportagens e histórias que eu havia escrito e lido sobre um iminente terremoto voltaram à minha cabeça. O que eu havia temido durante anos, mas discutido apenas nos Dias de Segurança contra Terremotos e nos aniversários do grande tremor de 1934 estava ocorrendo diante dos meus olhos. Este dia, 25 de abril de 2015, seria o dia negro sobre o qual nossa geração falaria pelo resto de suas vidas, assim como foi com meus avós com relação a 1934.

Direito de imagem Getty
Image caption Muitas pessoas passaram as primeiras noites nas ruas, com medo de novos tremores ou sem ter onde se abrigar

Por volta das 17h, já tinham ocorrido mais de uma dúzia de abalos secundários. As pessoas caminhavam para cima e para baixo buscando suprimentos essenciais em suas casas - água, crédito de celular, macarrão instantâneo e cobertores.

Eu também voltei para casa, onde encontrei meus livros e pertences espalhados pelo chão.

A TV estava caída no chão, mas felizmente sem rachaduras. Passei os objetos da minha sacola para uma mochila, peguei um tapete de ioga, um guarda-chuva e uma grande garrafa d'água e voltei ao playground.

Com o anoitecer, mais pessoas chegaram - cerca de 300. Havia boatos de que mais um grande tremor ocorreria. Com medo de suas casas desabarem, as pessoas não tinham para onde ir. Alguns jogavam baralho sob a luz de seus telefones, enquanto outros roncavam.

Costas

De tanto mandar relatos jornalísticos, tentar contato com o Ministério de Assuntos Nacionais e checar notícias, a bateria do meu celular estava no fim. E minhas costas também. Por sorte, a energia voltou no bairro, então passadas oito horas eu e meu irmão voltamos para casa.

Depois de passar por tantos abalos secundários, achávamos que suportaríamos alguns mais, e decidimos não acampar fora de casa durante a noite.

Quase 12 horas depois do terremoto, estávamos novamente sentados sob o batente da porta, olhando um ao outro cada vez que um tremor chacoalhava as janelas.

"Não foi grande", dizíamos, e voltávamos às telas dos computadores. Ele pesquisava sobre placas tectônicas enquanto eu vasculhava as notícias, parando de vez em quando para ver se a tremedeira do meu corpo vinha de um terremoto ou das minhas pernas cambaleantes.

Minhas irmãs e vizinhos ligaram para confirmar se ficaríamos em casa. Olhei para meu irmão e decidimos nos revezar no sono, em vez de passar frio na rua. Pouco depois, quando ele havia acabado de cair no sono, as janelas balançaram com violência outra vez. Ele decidiu que era a vez dele de ficar acordado.

Naquela noite, eu dormi de sapatos e com a luz acesa. Fui acordada por mais dois abalos fortes.

Leia mais: Terremoto afetou 8 milhões, mais de um quarto da população do Nepal, diz ONU

Ainda que meu bairro não tenha sofrido tantos danos físicos, eu via o medo no rosto das pessoas, reunidas em espaços públicos, nas ruas ou beiras de rios.

No domingo, fui ver o que estava acontecendo no aeroporto e ofereci espaço no táxi a um jovem que, desesperado, tentava levar sua avó ao hospital. Ela havia machucado as costas ao tentar correr de sua casa.

Fico aliviada em dizer que nenhum dos meus amigos ou parentes ficou ferido na tragédia.

Mas o aeroporto estava caótico de tantas pessoas tentando sair do país.

Dirigindo pela cidade, eu vi mais pessoas em abrigos temporários. Com poucos veículos nas ruas, Katmandu parecia uma vasta cidade de tendas. Estavam desertas as regiões onde os edifícios haviam sido reduzidos a escombros.

Voltei para casa pensando nas milhares de pessoas que passariam mais uma noite escura e incerta sem abrigo - e em quanto tempo será necessário para que a vida volte ao normal.

Estoquei água e comida em quantidade suficiente para uma semana. Andando pelos destroços, pelos postos de gasolina e lojas fechados, percebo que as próximas semanas serão muito difíceis."