Governos latino-americanos são os mais 'falastrões' no Twitter

Foto: Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Políticos latino-americanos usam "verborragia" como estratégia para atingir eleitores em rede social

Após uma audiência com o papa Francisco na última terça-feira, o presidente do Equador, Rafael Correa, compartilhou uma piada para os mais de 2 milhões de seguidores de seu perfil no Twitter: "todos ficaram surpresos com a escolha do nome Francisco, porque, sendo argentino, esperavam que o papa de chamasse Jesus 2º...".

Em seguida, para evitar mal-entendidos, emenda: "um abraço a nossa querida Argentina e me desculpem pela piada, mas ela veio... do próprio papa!".

Governos da América Latina são os mais "falastrões" entre as mais de 600 contas governamentais de todo o mundo no Twitter, segundo um levantamento sobre a presença de líderes e administrações de países na rede social.

A pesquisa Twiplomacy 2015 analisou, até o mês de março, 669 perfis – entre presidentes, premiês e chancelarias – de 166 países ao redor do mundo.

De acordo com Cely Carmo, diretora de Estratégias Digitais da consultoria Burson-Masteller América Latina – responsável pelo estudo –, a presença dos governos nas redes sociais vem aumentando significativamente nos últimos anos.

"Em 2007 havia só cinco contas governamentais no Twitter. Em 2013, 150 países já tinham contas e agora chegamos a 86% dos membros da ONU. Argélia, Papua-Nova Guiné, Ilhas Marshall, Zâmbia e Sudão foram os últimos países a entrar", afirma.

Apesar de não figurarem entre os cinco perfis governamentais mais seguidos, os governos do México, da Venezuela e da República Dominicana estão entre os cinco mais ativos no último ano – o México aparece com duas contas diferentes.

"O uso das redes sociais na América Latina é muito intenso se comparado com qualquer outra região do mundo. Então é cultural que os governos queiram falar bastante, se mostrar presentes. Eles se orgulham dessa verborragia", diz Carmo.

"Nem sempre fazer muitos tuítes é a ideia mais acertada, porque existe o perigo de que a estratégia tenha características de spam. Mas nestes casos, funciona."

Disputa de popularidade

Direito de imagem Reproducao
Image caption Na vanguarda, presidente colombiano foi o primeiro do mundo a usar aplicativo que transmitiu Cúpula das Américas ao vivo pelo Twitter

A conta da presidência do México (@PresidenciaMX) é a mais ativa do mundo, com uma média de 68 tuítes todos os dias. Já em terceiro lugar aparece outra conta oficial, a do governo mexicano, com 60. Segundo Carmo, a "verborragia" obedece a uma estratégia do governo para redes sociais.

"O México costuma usar os mesmos posts em horários e dias diferentes. Como a timeline do Twitter é muito rápida, eles chegam a pessoas diferentes de acordo com os hábitos delas. É o governo latino-americano que mais demonstra ter uma estratégia específica para o Twitter", avalia Cely Carmo.

O presidente americano Barack Obama, o atual líder mais popular do mundo, com 56,9 milhões de seguidores, foi também o primeiro a fazer um perfil na rede social, quando ainda era senador, em 2007. No mesmo ano, o presidente mexicano Enrique Peña Nieto também criou seu perfil pessoal.

No entanto, só agora Peña Nieto tornou-se o líder mais seguido na América Latina, ultrapassando a campeã anterior, a presidente argentina Cristina Kirchner.

Envolvida em escândalos e ausente da esfera pública durante boa parte do no ano passado, Kirchner continuou a ganhar seguidores, mas foi atropelada pelo presidente mexicano.

Já o líder colombiano Juan Manuel Santos manteve o segundo lugar usando estratégias inovadoras. Em sua última campanha, divulgou nas redes sociais um jogo em que aparecia como um super-herói, o "SuperSantos". Este ano, chamou a atenção como o primeiro líder em todo o mundo a usar o aplicativo Periscope (para a transmissão ao vivo de eventos), durante na Cúpula das Américas.

A presidente brasileira Dilma Rousseff continuou na quarta posição entre os líderes latino-americanos com mais seguidores. Desde a campanha eleitoral de 2010 até meados de 2013, a conta de Dilma permaneceu inativa. A partir dos protestos de junho de 2013, no entanto, o projeto para recuperar a popularidade de Dilma passou a incluir a presença mais assídua nas redes sociais.

Leia mais: Hiperatividade de Dilma em redes sociais revela nova estratégia

No pessoal e no profissional

O presidente equatoriano Rafael Correa, por sua vez, ficou fora dos cinco mais seguidos no continente, mas assume outro posto de destaque: é o terceiro, entre 172 contas pessoais de líderes em todo o mundo, que mais responde a seus seguidores, algo raro em perfis oficiais.

Direito de imagem Reproducao
Image caption Presidente equatoriano contou piada que ouviu do papa, o líder mais influente do mundo no Twitter

"É bem difícil que os governantes interajam para além de retuitar perfis do próprio governo. Mas desde o primeiro estudo, em 2013, Rafael Correa aparece sempre entre os líderes que mais conversam com seus usuários. Na América Latina é o único que tem esse número tão alto de respostas", diz Carmo.

Para a especialista, isso se deve ao fato de Correa ir na contramão da tendência de outras contas oficiais, que é a profissionalização. Cada vez mais os perfis, mesmo os pessoais, são administrados por equipes especializadas, que costumam concentrar-se em divulgar frases de discursos, programas governamentais e tuítes de outros perfis ligados à administração.

Eventualmente, surgem líderes que quebram o protocolo e entram em debates com eleitores e críticos, como o presidente de Ruanda, Paul Kagame, o líder mais seguido do continente africano.

Kagame aparece no topo da lista dos mais "conversadores" no Twitter, com 86% de seus tuítes sendo respostas a outros usuários. Ele causou controvérsia quando, em 2011, respondeu a um repórter do jornal britânico The Guardian que ele não tinha "direito moral" de criticar seu governo. O presidente também costuma conversar publicamente com seus filhos pela rede social.

Leia mais: Candidatos à Presidência pegam carona em derrota contra Alemanha