Líder de partido anti-imigrante diz ser 'homem do povo'

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Image caption Nigel Farage se vangloria de ser um típico "homem do pub", o tradicional bar britânico

Nigel Farage ─ o líder do emergente Partido da Independência do Reino Unido (UKIP, na sigla em inglês) ─ se vangloria de ser um típico "homem do pub", o tradicional bar britânico.

Farage é o único político britânico que diz abertamente gostar de beber e fumar "porque só se vive uma única vez".

Sempre com uma caneca de cerveja ou um cigarro nas mãos, ou com ambos, ele ataca os adversários, que, em sua opinião, estão "desconectados" da realidade do povo.

Pesquisas de intenção de voto mostram que seu partido tirou eleitores dos tradicionais conservadores, encabeçados pelo atual premiê David Cameron, já que seu discurso tem maior ressonância entre os eurocéticos ─ como são conhecidos os favoráveis à saída do Reino Unido da União Europeia.

Boa parte dos analistas assinala que o UKIP pode abocanhar cadeiras importantes no Parlamento britânico a ponto de participar do jogo de poder entre conservadores e trabalhistas, se esses partidos não receberem votos suficientes para formar um governo.

Farage capitaliza em cima do binômio partidário que impera na política britânica. Falastrão e "politicamente incorreto", ele se coloca como uma terceira via, dialogando com parte do eleitorado com o qual seus rivais têm dificuldade de conversar.

Prova disso foi que, nas eleições para o Parlamento Europeu, no ano passado, o UKIP ganhou mais assentos do que qualquer outro partido.

Temas polêmicos, como a imigração, tratados com excesso de zelo pelos principais partidos, se tornaram um prato cheio para Farage.

Ele conquistou admiradores até entre opositores, como o prefeito de Londres, o conservador Boris Johnson.

"É um sujeito divertido. Detesta a pompa e o politicamente correto e também se mostra contrário às regulações absurdas da União Europeia", diz Johnson.

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Image caption "Queremos um divórcio amigável com a União Europeia", diz Farage

"Quando o vemos, nós, conservadores, reconhecemos nele, instintivamente, um de nós", acrescenta.

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Começo

Farage ganhou força na política britânica mesmo nunca tendo sido membro da Câmara dos Comuns (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil).

Além de seu discurso furiosamente anti-imigrante e antieuropeu, sua arma secreta é vender a imagem de um homem comum, que continua vivendo no mesmo vilarejo onde nasceu, e que frequenta há mais de 30 anos o mesmo pub, George & Dragon.

Farage nasceu no condado de Kent, no sudeste da Inglaterra, em 1964. Seu pai, o operador da bolsa Guy Oscar Justus Farage, abandonou a família quando o filho tinha apenas cinco anos.

Apesar disso, cresceu em uma família de classe média alta e estudou em uma escola privada, onde cultivou seu amor pelo críquete, o rúgbi e o debate político.

Farage, no entanto, decidiu não frequentar a universidade e preferiu fazer carreira no mercado financeiro de Londres tendo apenas o Ensino Médio completo.

Com menos de 30 anos, já era milionário.

Também já encarou a morte de frente várias vezes. Aos 21 anos, foi atropelado e ficou gravemente ferido. Meses depois, descobriu um câncer nos testículos, do qual também se recuperou com êxito.

Em 2010, sobreviveu à queda de um pequeno avião em que viajava. Farage foi resgatado com ferimentos graves. "Essa experiência me mudou, me tornou quem sou hoje", disse certa vez.

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Contradições

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Image caption Em discursos, Farage se manifesta contra a imigração e a União Europeia

Farage fez da oposição à imigração e à União Europeia seu principal palanque, por meio do qual espera derrotar pela primeira vez os conservadores e os trabalhistas ou, pelo menos, sair das próximas eleições com tanta força quanto eles.

"Queremos um divórcio amigável com a União Europeia e sua substituição por um acordo de livre comércio que é justamente o que foi vendido à geração dos meus pais", disse ele reiteradas vezes.

Seus críticos, no entanto, destacam contradições em seus discursos.

Farage é deputado do Parlamento Europeu, uma instituição que menospreza e que, segundo já afirmou, desmantelaria se pudesse.

Ele está na função desde 1999 e é justamente ali onde seu partido tem a maior presença.

Foi sua militância pela bandeira antieuropeia que o levou a sair do Partido Conservador, do qual foi membro desde o ensino médio até 1992.

Farage abandonou o partido descontente com a decisão do então primeiro-ministro John Major de firmar o Tratado de Maastricht. Acabou fundando o UKIP em 1993.

Outra contradição envolve a vida pessoal do político britânico. Apesar de ser um dos principais críticos à imigração, Farage é casado com uma alemã.

Além disso, críticos o acusam de ser racista, o que ele nega.

"Não acredito que ser racista é querer controlar a quantidade e a qualidade dos imigrantes que entram no Reino Unido", rebate Ferguson.

Perspectivas

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Image caption Farage - e por extensão o UKIP - já foi acusado de racismo, o que ele nega

O UKIP ganhou seu primeiro membro no Parlamento em outubro do ano passado, com uma vitória avassaladora de Douglas Carswell no distrito de Clacton, ao leste de Londres.

Logo seguiu-se outra vitória de um membro do Parlamento que abandonou o Partido Conservador e ingressou nas fileiras do UKIP pelo distrito de Rochester.

Isso levou Farage a dizer que seu partido poderia ganhar 100 (das 650) cadeiras no Parlamento, embora, na realidade, seus principais esforços se concentrem em 12 distritos eleitorais.

Ainda que as previsões sobre o eventual êxito do UKIP não se concretizem, não há dúvidas de que o partido ─ e Farage ─ mudaram o mapa político britânico.

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