Cartas privadas de príncipe Charles são divulgadas após batalha legal

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Image caption Cartas foram escritas pelo príncipe em 2004 e 2005

Cartas enviadas pelo príncipe Charles a ministros e autoridades se tornaram públicas nesta quarta-feira, após uma longa batalha legal para mantê-las privadas.

O príncipe, primeiro na linha de sucessão ao trono britânico, escreveu a autoridades do governo trabalhista (que governava o Reino Unido em 2004 e 2005, de quando as cartas são datadas) para discutir assuntos diversos - desde pedidos por recursos às tropas britânicas que lutavam no Iraque até o apoio a agricultores locais e a preservação do meio ambiente na Patagônia.

São 27 cartas, conhecidas como "os memorandos da aranha negra" - uma brincadeira com a letra feia do príncipe e a tinta preta de muitas das correspondências.

O jornal britânico The Guardian vinha solicitando sua divulgação há uma década, mas só recentemente houve uma decisão final da Justiça.

O governo pedia que elas fossem mantidas em segredo, argumentando que as correspondências poderiam lançar dúvidas sobre a neutralidade política do futuro rei (uma expectativa que recai sobre os monarcas britânicos).

Já o TheGuardian argumentava que precisava ter acesso às cartas para fiscalizar se o herdeiro do trono não estaria ultrapassando os limites de seu papel constitucional e se aproveitando de sua posição para fazer lobbies.

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No ano passado, um veto do governo à publicação foi considerado ilegal pelo Tribunal de Apelações, e a decisão foi sacramentada pela Suprema Corte britânica em março.

'Inibição'

A residência oficial do príncipe divulgou as correspondências, mas afirmou que sua publicação apenas "inibirá" o monarca em expressar futuras preocupações às autoridades britânicas.

Em uma das cartas ao então premiê Tony Blair, em setembro de 2004, Charles dizia que as Forças Armadas britânicas estavam sendo forçadas a agir no Iraque "sem os recursos necessários".

Outros temas abordados pelo príncipe são críticas à pressão dos varejistas sobre os produtores agrícolas britânicos, o uso de medicamentos herbais, que ele considera perigosos, e a preservação de patrimônios arquitetônicos e ambientais.

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Correspondência dirigida à Secretaria de Agricultura expressava preocupação com a pesca ilegal e perguntava se a Marinha britânica não poderia ajudar a combater a prática.

A divulgação das cartas tem gerado debate. Algumas autoridades e cidadãos comuns defenderam que o caráter privado das correspondências deveria ter sido resguardado; outros argumentam que o fato de o príncipe ter tentado influenciar políticas públicas justifica o interesse público sobre as correspondências.

O escritório do príncipe afirmou que ele "se importa profundamente com o país e tenta usar sua posição única para ajudar os outros".

"As cartas publicadas pelo governo mostram o Príncipe de Gales expressando sua preocupação quanto a assuntos levantados por ele em público (...) e tentando encontrar formas práticas de lidar com as questões."