De Anne Frank a Bridget Jones: por que somos fascinados por diários?

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Image caption 'Diário de Anne Frank' já vendeu mais de 30 milhões de cópias em 67 idiomas

A história é tão conhecida que nem precisa ser recontada em detalhes. Em 6 de julho de 1942, apenas um mês depois de Anne Frank ganhar de presente o diário que a tornou famosa, ela, seu pai, Otto, sua mãe, Edith, e sua irmã mais velha, Margot, passaram a viver em um esconderijo em um prédio de Amsterdã, na Holanda.

Junto com outra família judia e um dentista amigo, ficaram escondidos por dois anos e um mês até serem descobertos pelos nazistas e mandados para campos de concentração, em agosto de 1944.

Anne morreu de tifo no campo de Bergen-Belsen em março de 1945. O pai foi o único que sobreviveu à guerra.

"Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda", escreveu a garota ao iniciar o diário, em 12 de junho de 1942.

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Confessionário

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Image caption Relato de Frank testemunha o Holocausto e entra na mente de uma adolescente típica

Diários costumam ser relatos de atividades rotineiras e comuns, mas também podem servir como uma espécie de confessionário, com suas páginas em branco oferecendo um ouvido amigo e sem julgamentos para segredos de seu autor.

No caso de Anne Frank, eram seus temores pela vida de seus amigos e familiares, além das paixões e das rebeldias adolescentes. Em março de 1944, quando ouviu em uma rádio britânica um depoimento de um ministro holandês exilado pedindo para seus compatriotas documentarem suas experiências sobre a ocupação alemã, a garota decidiu transformar seu diário de algo objetivo e comum em um relato que pudesse um dia ser publicado.

Otto manteve vivo o sonho da filha e a primeira edição do Diário de Anne Frank foi publicada em 1947. Desde então, foi traduzido para 67 idiomas e já vendeu mais de 30 milhões de cópias.

O sucesso de vendas e de crítica mostra que o livro é uma obra de grande valor tanto como documento histórico como exemplo de um jovem talento literário. Mas é na união desses dois – o casamento entre o pessoal e o público, a experiência individual e a universal – que residem as particularidades do diário.

Mais de 70 anos depois de escrito, o Diário de Anne Frank ainda fascina adolescentes de todo o mundo porque é um relato ainda atual dos sofrimentos e atribulações da passagem para a vida adulta. Além, claro, de ser um forte testemunho dos horrores do Holocausto.

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Anotações sobre um escândalo

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Image caption A atriz Renee Zellweger no papel de Bridget Jones, autora fictícia de um diário

"Que espécie de diário eu gostaria que o meu fosse?", pergunta a escritora Virginia Woolf em um dos volumes de Os Diários de Virginia Woolf, redigido em 1919. "Algo tecido com uma trama frouxa, mas sem ser desleixado, algo tão elástico que é capaz de envolver qualquer coisa, algo solene, ligeiro ou bonito que me venha à mente".

Muitos escritores mantêm diários, seja como uma maneira de aprimorar sua arte, como o resultado de uma compulsão por escrever ou simplesmente por causa do mesmo impulso egoísta que nos leva a colocar a caneta sobre o papel.

Mas nosso interesse em ler essas obras é um pouco mais complicado. A tensão entre o que é público e o que é privado transparece em todos os diários já publicados. Por natureza, o que está escrito em um diário deveria ser um segredo: ler um deles é quase como uma violação, independentemente de como foram apresentados e embalados por uma editora.

Isso, em parte, explica por que eles são tão populares: esse sabor de transgressão é tentador, principalmente quando se trata de histórias escandalosas. Do Marquês de Sade a Anaïs Nin, os diários de gente famosa nos deliciam e repelem na mesma medida.

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O apelo na ficção

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Image caption Registros de Samuel Pepys trouxe informações importantes sobre a História britânica

Um diário também tem seu valor como documento histórico: os estudiosos da Londres da época da Restauração encontram no diário do funcionário público Samuel Pepys relatos inestimáveis sobre eventos como a Grande Praga, em 1665, e o Grande Incêndio que tomou a cidade, em 1666.

Há também o autor de diário voyeur, alguém cujos comentários dão ao leitor uma visão de bastidores de um mundo praticamente inatingível. Da poetisa Dorothy Wordsworth ao artista Andy Warhol, passando por todos os presidentes americanos e seus assessores, essas vozes que nos falam em um diário nos oferecem algo semelhante ao prazer cheio de culpa que temos ao esmiuçar sites e revistas de celebridades.

Mas existem ainda aqueles escritores que parecem criar um mito em torno de si ao contarem suas histórias. Afinal, diários cativam seus leitores quando funcionam da mesma maneira que um romance, despertando simpatia.

O outro lado da moeda é o apelo do diário fictício. É um recurso usado frequentemente na literatura infantil e infanto-juvenil. De Diário de um Banana, de Jeff Kinney, a O Diário da Princesa, de Meg Cabot, ou de I Capture the Castle ("Eu conquisto o castelo", em tradução literal), de Dodie Smith, ao recente As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky, esse formato é a maneira mais rápida de atrair leitores para a consciência do protagonista da história.

Grandes satiristas adoram os diários por causa desse imediatismo. A paródia The Diary of a Nobody ("O Diário de um Ninguém", em tradução literal), de George e Weedon Grossmith, que ridiculariza seu autor fictício, o playboy Mr. Pooter, não foi só um sucesso instantâneo quando foi publicado pela primeira vez, entre 1888 e 1889, como nunca deixou de ser editado na Grã-Bretanha desde então.

Mais recentemente, o divertido O Diário Secreto de um Adolescente, de Sue Towsend, se tornou um bestseller na década de 80, e gerou sete novos livros.

Os anos 90 também tiveram sua heroína dos diários: Bridget Jones, a atrapalhada solteira em busca de seu Sr. Darcy, criada por Helen Fielding.

Nós curtimos um diário imaginário pelo mesmo motivo que nos faz gostar de um relato real: a promessa de uma confissão desprovida de artifícios.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Culture.