Para empresários, Paes muda tom, critica Copa e enaltece Olimpíada 'privada'

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Image caption Eduardo Paes em evento do grupo de líderes empresariais LIDE, em São Paulo

Sob aplausos e até um pedido para que se candidate à Presidência, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, apresentou seu projeto de "legado" dos Jogos Olímpicos de 2016 a líderes empresariais em evento realizado em São Paulo nesta terça-feira.

E se ele costuma ser mais contido ao comentar o que vê como problemas na organização da Copa do Mundo de 2014 quando fala para jornalistas, o prefeito se mostrou mais confortável para criticar o evento para o empresariado.

"A Copa, na minha opinião, foi uma oportunidade perdida", disse Paes.

"Como evento, ela foi um sucesso. Mas qual imagem marcamos ali?", questionou. "Será que marcamos que nós somos uma republiqueta de bananas em que todo mundo superfatura estádio e termina fora do prazo? Ou será que nós marcamos ali que esse país constrói coisas no prazo, de maneira decente, no custo estabelecido na origem?".

Mudança de tom

No ano passado, logo após a Copa, Eduardo Paes disse à BBC Brasil que, na Copa, "o Brasil mostrou que era capaz de entregar um grande evento" e criticou apenas a "jornada tortuosa" na organização do Mundial, com o atraso das obras.

No início deste mês, em nova entrevista, o prefeito disse que o fato de previsões pessimistas sobre o Mundial não terem se confirmado ajudaram a acalmar os ânimos olímpicos.

"Veio a Copa, que o Brasil realizou com muito sucesso. As coisas funcionaram, o país funcionou, a vida girou", disse o prefeito do Rio na ocasião.

Paes, no entanto, foi mais veemente nas críticas feitas à Copa nesta terça-feira. Consultada pela reportagem, a assessoria dele explicou que o evento "não era uma entrevista para jornalistas, por isso o prefeito estava mais à vontade" no discurso para os empresários.

Apoio

Do início ao fim, o evento organizado pelo LIDE, grupo de líderes empresariais, foi marcado por uma troca de "elogios e gentilezas" entre Eduardo Paes e o público presente.

Ao apresentá-lo, João Doria Júnior, presidente do grupo, descreveu toda a carreira política de Paes, a quem chamou de "um dos melhores ativos da política brasileira, que traz decência a ela". O prefeito, por sua vez, começou a palestra retribuindo os elogios, dizendo que "Doria é uma inspiração para todos os brasileiros".

Ao longo do discurso, Paes aproveitou para mencionar frequentemente, com agradecimentos ou elogios, alguns dos "amigos" empresários presentes - como os representantes das empreiteiras responsáveis pelas obras olímpicas.

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Image caption Prefeito elogia empreiteiras responsáveis por obras olímpicas

"Temos que mostrar um Brasil que tem capitalistas como o doutor Carlos Carvalho (da empreiteira Carvalho Hosken), que está do meu lado, aquele senhor que está ali é talvez o maior capitalista da Olimpíada", disse Paes no início da apresentação.

Em outro elogio, o prefeito até se atrapalhou misturando os nomes das empreiteiras Camargo Corrêa e Queiroz Galvão - esta última, a responsável pela obra do Complexo Esportivo de Deodoro, segundo principal local de competições dos Jogos.

"Vou aqui fazer uma defesa da capacidade de engenharia de uma Camargo Galvão, eles pegaram Deodoro há seis meses, obra que estava atrasada há dois anos, e colocaram tudo no prazo."

Do lado da plateia, o prefeito pareceu agradar e contou com a simpatia dos empresários presentes que, ao final do evento, chegaram a questioná-lo sobre uma possível candidatura dele à Presidência da República.

"Precisamos de novas lideranças. Eduardo Paes, o senhor será ou não candidato à Presidência em 2018?", questionou João Doria Júnior.

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Image caption João Doria, presidente do LIDE e organizador do evento, ao lado do prefeito Eduardo Paes - os dois trocaram elogios durante o seminário

Mas o prefeito desconversou. "Adoro ser prefeito do Rio, tenho orgulho da posição que cheguei. Não paro um segundo para pensar no que eu quero ser depois."

'Mau humor'

Eduardo Paes disse ainda que o cenário de "mau humor" motivado pela crise econômica, pelos escândalos da Lava Jato e pelos problemas de organização da Copa têm dificultado a organização da Olimpíada.

"Nesse momento em que o Brasil volta a nos envergonhar no cenário mundial, no Brasil em que as obras acabam por um custo maior, no Brasil da Lava Jato, temos que mostrar que tem um Brasil que produz", afirmou

"Não é fácil tocar a Olimpíada agora. Era mais fácil quando a gente ganhou, o país estava mais animado. Esse mau humor que tomou conta dificulta muito. Se a gente já tinha que se provar, tem que se provar mais ainda."

O prefeito afirmou que todas as obras olímpicas estão em dia e anunciou que 57% do orçamento dos Jogos – de R$ 38,2 bilhões – seria bancado com dinheiro privado.

"Aumenta nossa responsabilidade de mostrar que nem tudo é tão ruim, tem muito problema, muito desafio, mas não é essa desgraça que às vezes parece ser", disse.

"No Brasil, nem tudo é Lava Jato, nem tudo é o Paulo Roberto (Costa, ex-diretor da Petrobras, condenado a 7 anos de prisão por lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato da Polícia Federal). Se a gente conseguir mostrar isso, acho que a gente vai ter avançado enorme."

Paes também saiu em defesa do empresariado ao comentar os recentes escândalos de corrupção. "Às vezes o setor privado fica compelido por circunstâncias que se criam, apesar de a gente não achar que isso seja boa justificativa nunca, mas…Talvez o pecado original esteja no setor público. Temos que mostrar que nem todo o setor público não é só o Paulo Roberto."