Ascensão social é desafio para segunda geração de imigrantes no Japão

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Image caption Escolas brasileiras servem de abrigo para jovens brasileiros que fogem do bullying das escolas japonesas

Lucas*, 18, chegou ao Japão com menos de dois anos de idade. "Cresci ouvindo meus pais dizerem que logo voltaríamos ao Brasil", diz o jovem, que prefere não se identificar.

Por isso, estudou em uma das cerca de 50 escolas brasileiras no Japão. Os anos foram passando e a volta ao país natal nunca se concretizou. Aos 15, o pai sugeriu que abandonasse os estudos para ingressar em uma fábrica."Ele disse que era para que a família juntasse dinheiro mais rápido para poder voltar ao Brasil", lembra.

"Não me arrependo da escolha. Hoje, tenho meu próprio dinheiro e, mais para frente, posso retomar os estudos", disse à BBC Brasil, sem mencionar quando pretende voltar para a escola.

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O caminho de Lucas não é incomum entre os milhares de filhos de brasileiros no Japão. Poucos concluem os estudos, segundo a professora Alessandra Lima, 39, que leciona em uma escola brasileira na cidade de Toyohashi, na província de Aichi.

Sem formação completa brasileira e sem ter passado por instituições de ensino japonesas, a segunda geração de imigrantes brasileiros no Japão sofre com a falta de perspectivas e baixa ascensão social.

Assim, muitos seguem o mesmo caminho que levou seus pais ao Japão: o trabalho nas fábricas.

A princípio, a opção é temporária, vista como meio para financiar estudos no Brasil. "Mas muitos acabam se arrependendo", diz a professora.

"Para o jovem que cresce no Japão é muito difícil escolher o futuro e o dinheiro acaba falando mais alto", sugere Luan Suehara, 25, ao se referir aos salários atrativos das fábricas japonesas.

"Com pouco tempo de trabalho, a gente consegue comprar um bom carro e isso acaba criando uma estabilidade ilusória", acrescenta o brasileiro. "Ficamos acomodados e acabamos nos tornando prisioneiros da situação", emenda.

O jovem está há 11 anos no Japão, se formou em uma escola brasileira e chegou a voltar ao Brasil para cursar uma faculdade de administração de empresas. Mas foi obrigado a voltar para ajudar a mãe, que ficou doente.

Atualmente, Luan divide o tempo entre o trabalho pesado em uma fábrica de eletrônicos e os estudos. Ele aprende japonês e cursa uma faculdade à distância.

"Quero investir numa carreira profissional, não importa onde", afirma o jovem, que tenta incentivar os amigos a sonhar com um emprego qualificado.

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Image caption Luan divide o tempo entre o trabalho e os estudos

Sonho

Foi justamente por causa de um sonho que Letícia Matsuda, 16, voltou ao Brasil no começo deste ano.

"Sempre quis ser cantora e, há dois anos, comecei a fazer shows em eventos da comunidade brasileira no Japão, cantando músicas sertanejas", conta.

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Letícia foi para o Japão com um ano de idade. Passou toda a infância lá, mas a vontade de fazer sucesso no Brasil a fez voltar ao país onde nasceu.

"Sei que não será fácil, mas acredito que todos temos a capacidade de ter um futuro brilhante, é só correr atrás dos sonhos."

Mas, segundo a professora Alessandra, o caso de Letícia ainda é exceção.

"A maioria está perdida em relação ao futuro", lamenta.

Novos objetivos

Para Alvaro Katsuaki Kanasiro, 31, pesquisador e aluno de doutorado em antropologia, pela Universidade de Tsukuba, essa segunda geração precisa ser entendida como um grupo em transição e transformação, e não como subproduto da primeira.

"Não podemos olhar para este grupo como se cultivassem a mesma ideia da primeira geração. As necessidades e as aspirações são um pouco diferentes dos pais e avós."

"Vejo que há muitas pessoas nas escolas ou envolvidas com a questão educacional se mobilizando para apoiar esses jovens", afirma.

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O contato que Alvaro teve com os jovens que frequentavam tanto escolas brasileiras quanto japonesas mostrou que nem sempre o retorno ao Brasil é algo a ser buscado.

"Não é simplesmente voltar. Esse jovem precisa ter uma rede de pessoas e conexões que o ajudem na readaptação ao país e isso tudo faz parte de uma estratégia familiar", explica.

"Da mesma forma que o Japão pode não satisfazer as vontades deles", completa. Por isso, defende o pesquisador, é preciso ampliar o debate sobre educação na comunidade brasileira do Japão.

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Image caption Letícia voltou ao Brasil para tentar a carreira de cantora

Documentário

Foi justamente para mostrar essa insegurança sobre "para onde ir e o que fazer" que o pesquisador japonês Kimihiro Tsumura, da Universidade Gakuin de Hamamatsu, e a cineasta Mayu Nakamura acompanharam a vida de cinco jovens brasileiros por dois anos e meio.

O resultado foi o documentário Andorinhas Solitárias – Nasci uma Criança Dekassegui, que mostra a busca incansável destes jovens por um lugar onde possam chamar de "casa".

O filme, lançado em 2012, teve grande repercussão no Japão e acabou gerando uma série de debates sobre o tema da educação.

No Japão, o ensino fundamental é obrigatório para jovens até 15 anos. Mas a lei não é válida para os estrangeiros.

Por isso, muitos brasileiros nem terminam a educação básica e já ingressam no mercado temporário de trabalho.

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"Os jovens não têm tido oportunidades suficientes se comparado ao grande potencial deles", diz Lilian Terumi Hatano, pesquisadora e professora da Universidade Kinki.

Lilian é a coordenadora de um dos eventos mais importantes de discussão da educação de brasileiros no Japão, o Fórum de Educação Brasil-Japão, realizado pela quarta vez consecutiva este ano no começo de maio.

"Será que a educação oferecida está preparando o jovem para o exercício pleno da cidadania?", questiona Lilian.

Escolas brasileiras

Existem hoje no Japão cerca de 50 instituições de ensino brasileiras, a maioria com currículo escolar reconhecido pelo Ministério da Educação do Brasil.

Isto significa que o aluno pode dar continuidade aos estudos quando retornar ao Brasil.

Segundo dados do Ministério da Justiça japonês, existem no país cerca de 25 mil crianças e jovens brasileiros em idade escolar.

A grande maioria estuda em escola japonesa, mas a escola brasileira ainda é importante para a comunidade brasileira no Japão.

"Ao longo das pesquisas, notei que os pais matriculam os filhos na escola brasileira não apenas porque eles têm a intenção de retorno ao Brasil ou apenas porque eles estão preocupados em ver os filhos falando português, mas também porque a escola atua como um 'abrigo' para essas crianças, que muitas vezes foram vítimas de bullying em escolas japonesas", conta Alvaro.

Isto, segundo o pesquisador, denuncia a ineficiência da escola japonesa para lidar com alunos estrangeiros e a exposição a um ambiente que não é saudável.

"Enquanto a educação dos estrangeiros também não for obrigatória no Japão, nunca vai existir uma política educacional que contemple todas as crianças", alerta Lilian.