Saída de Blatter inicia período difícil de reformas na Fifa, diz pesquisador

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Image caption Escândalo de corrupção fará Fifa repensar seu modo de atuar, na opinião de Roger Pielke

A renúncia do presidente da Fifa, Joseph Blatter, após a escolha de seu sucessor em um congresso extraordinário deverá dar início a um difícil período de reformas na organização que rege o futebol mundial, diz à BBC Brasil Roger Pielke Jr., professor da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos.

"Haverá muitas discussões sobre maior transparência financeira, sobre a criação de um conselho com membros independentes, como as grandes empresas têm. A estrutura atual impediu que muitas dessas reformas fossem adotadas", afirma Pielke, que pesquisa a governança de organizações esportivas internacionais.

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Menos de uma semana após ser reeleito para um quinto mandato, Blatter anunciou nesta terça-deira que deixará o cargo e que convocará eleições para substituí-lo. A renúncia ocorreu após a polícia suíça prender, a pedido dos Estados Unidos, vários dirigentes da Fifa implicados numa investigação do Departamento de Justiça americano.

Com a saída de Blatter, Roger Pielke afirma que a entidade será forçada a seguir modelos de gestão similares aos de grandes organismos multilaterais, como a ONU e o Fundo Monetário Internacional (FMI), algo que outras organizações esportivas já fizeram. Mas, para avançar, ele diz que a Fifa terá de superar disputas internas entre países ricos e pobres, que devem se tornar mais pronunciadas.

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Leia a seguir os principais trechos da entrevista, concedida por telefone nesta terça-feira.

BBC Brasil - Você imaginou que um dia Blatter pudesse renunciar?

Roger Pielke - Por anos, sempre que houve escândalos na Fifa, erraram todos os que disseram que a origanização estava caminhando rumo a reformas, que sua liderança mudaria. Os eventos da semana passada, culminando com os de hoje (terça), são uma surpresa.

BBC Brasil - Quais serão os próximos acontecimentos?

Pielke - É o fim do reinado de Sepp Blatter. A Fifa está no começo de um significante e difícil esforço de reforma. A Fifa operou dessa maneira por muitos anos e não tem as características de uma grande empresa ou organização internacional. Há muitas discussões difíceis e ações que devem ser tomadas para levar a organização para o século 21.

BBC Brasil - Quais são os principais desafios?

Pielke - Muita atenção será dada à escolha da pessoa que liderará a Fifa. Mas, nos bastidores, num nível mais técnico, haverá discussões sobre como a organização deve mudar sua forma de atuar. Por exemplo, o comitê executivo - o colégio de cardeais da Fifa - deveria ser reformado para que seus membros sejam democraticamente eleitos pelas 209 federações?

Haverá muitas discussões sobre maior transparência financeira, sobre a criação de um conselho com membros independentes, como as grandes empresas têm. A estrutura atual impediu que muitas dessas reformas fossem adotadas.

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Image caption 'Fim do reinado de Blatter' é uma surpresa, avalia acadêmico que estuda a Fifa

BBC Brasil - Haverá uma disputa interna na Fifa entre países desenvolvidos - como os da Europa e os Estados Unidos - de um lado, e países pobres - africanos e latino-americanos - de outro?

Pielke - Sim. A Fifa diz que é uma organização verdadeiramente global: tem 209 nações de todo o mundo, representando toda a diversidade de povos, estruturas de governo, culturas e tradições. Então, é claro que eles terão dificuldades.

Por outro lado, as dificuldades não são diferentes ou mais significativas do que as enfrentadas pela ONU, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), por outras organizações multilaterais onde pessoas de todo o mundo tentam trabalhar juntas.

BBC Brasil - Por que devemos esperar que uma organização esportiva como a Fifa passe a seguir os padrões de entidades como a ONU ou o FMI?

Pielke - Há algum tempo, organizações esportivas têm caminhado nessa direção, o que é uma das razões pelas quais o caso da Fifa chama tanta atenção. Ela resistiu a isso. Houve o escândalo do Comitê Olímpico Internacional nos anos 90 que resultou em reformas; os casos de doping em esportes levaram à criação da Agência Mundial Antidoping, que opera sob a regras de um tratado da ONU. Vemos essa integração mais próxima entre esportes e a sociedade civil global, e em alguns casos também com governos. A Fifa está atrasada nessa tendência.

BBC Brasil - Alguns analistas dizem que a investigação nos Estados Unidos sobre a Fifa não é só sobre corrupção, mas também sobre geopolítica. Qual sua visão?

Pielke - Sempre que o governo dos Estados Unidos age em algum contexto externo onde leis foram violadas, isso envolve geopolítica. As leis com as quais os Estados Unidos tipicamente conduzem esses casos são usadas para nivelar o jogo para negócios americanos e para lidar com danos que companhias ou cidadãos americanos sofreram.

Ninguém deveria acreditar que os Estados Unidos estão agindo com um espírito de fairplay, por algo que tenha a ver com o esporte. São negócios, e grandes negócios. É isso o que o futebol virou.

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Image caption Mudanças na Fifa deveriam ser feitas de acordo com demandas da sociedade, defende Pielke

BBC Brasil - Acha que podemos ver grandes mudanças na maneira como empresas lidam com a Fifa? Os grandes patrocinadores continuam ao lado dela.

Pielke - Sempre que há um escândalo esportivo envolvendo um atleta ou uma organização, os grandes patrocinadores são os últimos a agir. Agora que há uma reforma acontecendo, os patrocinadores podem ver a oportunidade de se associar a uma história positiva e ficar com a Fifa.

BBC Brasil - Há alguma relação entre as investigações e a crescente popularidade do futebol nos Estados Unidos?

Pielke - Obviamente o futebol tem uma audiência significativa entre um subgrupo do público americano. É hoje muito mais fácil ver os principais jogos europeus na TV, as pessoas amam a Copa do Mundo.

Ninguém está reclamando por estarmos indo atrás da Fifa. (Os senadores) John McCain e Robert Menendez escreveram uma carta à Fifa reclamando da Copa do Mundo na Rússia. Então, o assunto está na agenda.

As pessoas acharam surpreendente que isso tenha vindo dos Estados Unidos, que não são um país futebolístico, mas os Estados Unidos se preocupam com esportes e também com corrupção. Quando as duas coisas se misturam, é uma mistura política bem potente.

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