Quem é o primeiro homem da Fifa a admitir corrupção

Chuck Blazer | Foto: AP Direito de imagem AP
Image caption Apesar de ser uma figura importante do futebol nas Américas, Blazer nunca praticou o esporte

De todas as histórias que emergiram do escândalo de corrupção na Fifa, uma das mais espetaculares é a do americano Chuck Blazer, ex-membro do Comitê Executivo da entidade e agora o primeiro a admitir às autoridades que recebeu propina relacionada à escolha da África do Sul como sede da Copa do Mundo de 2010.

Em um depoimento concedido a autoridades dos Estados Unidos em 2013 – cuja transcrição foi divulgada pela primeira vez nesta quarta-feira – ele afirma que também recebeu suborno pela escolha da sede da Copa de 1998 e se declara culpado de 10 acusações, entre elas sonegação fiscal.

As informações implicam uma série de outros altos executivos da Fifa. Na semana passada, 14 pessoas foram acusadas de suborno, formação de quadrilha para extorsão e lavagem de dinheiro.

O Departamento de Justiça americano afirma que a entidade aceitou propinas e comissões estimadas em mais de US$ 150 milhões durante um período de 24 anos.

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A investigação, divida entre Estados Unidos e Suíça, levou à renúncia do presidente da Fifa, Sepp Blatter, dias após sua reeleição para um quinto mandato.

Mas, para um homem cuja carreira acabou por ser a epítome das alegações contra a entidade máxima do futebol mundial, pode ser surpreendente – ou, talvez, pertinente – que Chuck Blazer nunca tenha atuado no esporte.

"Chuck sabe muito sobre futebol, mas nunca percebi nele nenhuma paixão real pelo jogo", disse Doug Logan, outra figura proeminente no futebol dos Estados Unidos, disse ao site Buzzfeed. "Ele é o que eu chamo carinhosamente de suit (a palavra "terno", em inglês, usada como gíria para burocrata)."

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Ostentação

O envolvimento de Blazer com o futebol começou quando ele treinou o time de seu filho na cidade de New Rochelle, em Nova York, nos anos 1970.

Seu talento como vendedor e seu conhecimento sobre o negócio do futebol fez com que ele fizesse carreira em organizações regionais e, em seguida, na Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf).

O americano aliou-se ao administrador de futebol de Trinidad e Tobago Jack Warner para arquitetar a eleição de Warner para a presidência da Concacaf em 1990.

Os dois levaram a sede da Concacaf da Cidade da Guatemala para os Estados Unidos. Nesta época, Blazer assinou um contrato com a Concacaf que o dava direito a 10% de comissão em todos os contratos de patrocínio e de cessão de direitos para a TV da organização por meio de sua empresa, a Sportvertising. A manobra o rendeu o apelido de "Sr. Dez Porcento".

Entre 1996 e 2013, o empresário fez parte do Comitê Executivo da Fifa e frequentemente falava sobre seu estilo de vida no alto escalão da entidade.

Até fevereiro de 2014, ele manteve um blog no qual documentava viagens, encontros com líderes internacionais e com a Miss Universo de 2011, o momento em que assistiu ao Super Bowl americano na suíte de um hotel de luxo e sua predileção por roupas caras.

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Image caption Escândalo de corrupção deflagrado por investigação americana e suíça provocou renúncia de Blatter após reeleição

Há relatos de que ele manteria um apartamento para ele e outro só para seus gatos no famoso arranha-céu Trump Tower, em Nova York, que Warner o acusou de ter comprado com fundos da Concacaf.

Seu estilo de vida luxuoso começou a ser questionado quando investigadores americanos passaram a examinar pagamentos confidenciais feitos em contas internacionais operadas por Blazer.

Ao ser abordado por policiais federais em 2011, o executivo teria concordado em gravar conversas com seus colegas usando um microfone escondido em um chaveiro.

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Confissão

No depoimento às autoridades americanas, Blazer afirma que "começando por volta de 2004 e até 2011, eu e outros do Comitê Executivo da Fifa concordamos em aceitar propinas relacionadas com a escolha da África do Sul como país-sede da Copa do Mundo de 2010".

No início desta quarta-feira, a África do sul negou ter pago uma propina de US$ 10 milhões para garantir que receberia o evento.

"Eu e outros aceitamos propinas e comissões relacionadas com a transmissão e outros direitos das Copas de Ouro (campeonato regional da Concacaf) de 1996, 1998, 2000, 2002 e 2003", afirmou o americano.

O Departamento de Justiça americano diz que Blazer, que tem 70 anos e estaria sofrendo de câncer no cólon, devolveu mais de US$ 1,9 milhões aos cofres americanos ao dar o depoimento e concordou em pagar outra parte quando receber a sentença.

Além da investigação americana, autoridades suíças também examinam a escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022.

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