Diante de crise, Brasil busca aproximação com ‘clube dos ricos’ em Paris

Reunião da OCDE em Paris, nesta quarta-feira | Foto: Itamaraty Direito de imagem Itamaraty
Image caption Em Paris, Mauro Vieira (esq.) e Joaquim Levy (dir.) falaram sobre importância de "conhecer" o que a OCDE pode oferecer ao Brasil

Em meio à crise econômica, o Brasil tenta aproximar-se mais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), também conhecida como "clube dos ricos". O país assinou nesta quarta-feira, em Paris, um acordo de cooperação com a entidade.

A OCDE, fundada em 1960 por 18 países europeus, os Estados Unidos e o Canadá, reúne hoje 34 membros – a grande maioria economias avançadas, mas também alguns países emergentes, como o México, a Turquia, o Chile e a Estônia.

O chamado acordo-marco de cooperação, com prazo de duração de dois anos, dá estrutura jurídica à colaboração entre o Brasil e a organização, que teve início nos anos 90.

Na avaliação do governo brasileiro, "a aproximação com a OCDE é parte da estratégia de recriar as bases de um crescimento sustentável da economia" e de obter mais espaço no mercado internacional.

Em uma entrevista coletiva após a assinatura do acordo na sede da organização, os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e das Relações Exteriores, Mauro Vieira, ressaltaram o que consideram benefícios do estreitamento de laços entre o Brasil e a OCDE, em cujo âmbito são discutidos temas de interesse global e acordos que regulamentam setores econômicos.

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Mudança de visão

O atual desejo de aproximação com a OCDE, no entanto, contrasta com a posição defendida pelo governo brasileiro nos últimos anos.

O Brasil já vem participando há anos, com o estatuto de parceiro-chave, de quase todos os comitês da OCDE, como o do aço e o que regulamenta o financiamento do setor aeronáutico, mas não havia, até então, solicitado o reforço da cooperação.

Em 2007, durante uma reunião ministerial da organização, o ex-chanceler Celso Amorim minimizou a importância de o Brasil se tornar membro da organização.

Naquela época, a OCDE havia iniciado discussões para a adesão de novos membros, como o Chile, a Eslovênia e Israel, e não havia convidado o Brasil para integrar as negociações.

"Entrar na OCDE não é uma reivindicação nem uma aspiração do Brasil. Antigamente se dizia que era preciso entrar na OCDE porque isso seria um selo de qualidade. O Brasil já tem seu selo de qualidade por sua política econômica e social e não precisa mais buscar isso", declarou Amorim na época, em uma coletiva em Paris.

Na visão do governo no passado, sobretudo na gestão do ex-presidente Lula, entrar no "clube dos ricos" poderia pôr fim à representatividade que o Brasil havia adquirido junto a países pobres e em desenvolvimento.

"Precisamos saber se não seria exigida a saída do G77 (que reúne países em desenvolvimento e também pobres, como Uganda e Haiti). O Brasil não aceitaria se afastar desse grupo", afirmou Amorim.

Agora, Vieira e Levy dizem que o novo acordo de cooperação não significa que a adesão à organização poderá ocorrer no futuro, mas indicam que isso será avaliado.

"Com esse acordo-marco, vamos ter a possibilidade de estar mais presentes e conhecer melhor a organização. Vamos ver o que nos convém mais no fim desse prazo de avaliação (de dois anos)", afirmou Vieira.

"Esse acordo não é uma adesão automática com data marcada. A economia brasileira cresceu muito nos últimos anos e é necessário conhecer melhor o que a organização pode oferecer."

Para Levy, a aproximação com a OCDE mostra a evolução da economia brasileira, "mais madura e que sabe competir no mercado internacional".

"Não é uma questão de juntar-se ou não a um clube. É mais uma questão de participar de decisões que afetam nossa vida", disse Levy, alegando que diversos assuntos discutidos na OCDE, como práticas sobre tributação internacional, afetam as empresas brasileiras e a competitividade do país.

"A OCDE também é um fórum de discussões sociais. É absolutamente de interesse do Brasil."