Escândalo sobre sede olímpica de 2002 traz lições à Fifa

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Image caption Joseph Blatter renunciou na terça-feira ao cargo que ocupa há 17 anos; novo ocupante será decidido em votação extraordinária ainda sem data marcada

Quem quer que assuma a missão de resgatar a credibilidade da Fifa poderá aproveitar lições de uma outra grande entidade esportiva sacudida por um escândalo de corrupção, mas que soube se "reinventar": o Comitê Olímpico Internacional (COI).

Em 1998, vieram à tona denúncias de que dirigentes da entidade máxima do movimento olímpico aceitaram subornos em diversas formas para garantir que a cidade de Salt Lake City, nos EUA, sediasse os Jogos de Inverno de 2002.

Terrenos

E foi um próprio membro do COI, o suíço Marc Hodler, quem expôs o esquema de "mimos" distribuídos pelo comitê organizador de Salt Lake City aos delegados.

Uma investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelou que terrenos, bolsas em universidades locais e mesmo tratamentos médicos para parentes dos membros do COI estavam na lista dos lobistas da candidatura da cidade americana (além de volumosas somas em dinheiro), que antes de ser escolhida sede olímpica de inverno, em 1995, tentara outras quatro vezes receber os Jogos.

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O escândalo causou uma avalanche no movimento olímpico. Pelo menos dez delegados foram expulsos ou forçados a renunciar, incluindo dois sul-americanos. Dez outros receberam suspensões.

Além disso, o COI mudou as regras de candidatura olímpica, instituindo limites de preço para presentes dados a delegados e proibindo que membros que não fizessem partes de comissões avaliadoras visitassem as cidades candidatas.

As cidades candidatas começaram a ser monitoradas mais de perto, e seus representantes passaram a ter acesso controlado aos delegados votantes do COI durante a campanha, informa a Reuters.

E foram impostas restrições aos mandatos para novos membros do COI e limite de 12 anos para o mandato do presidente.

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Image caption O belga Rogge foi eleito presidente do COI em 2001, após escândalo de Salt Lake City

"Acima de tudo, o COI percebeu que a credibilidade do movimento olímpico ficou seriamente afetada pelo escândalo de Salt Lake City e que precisava de reformas que fossem além de manobras de relações públicas", afirma o acadêmico britânico Will Jennings, pesquisador da Universidade de Southampton e especialista na governança de grandes eventos esportivos.

"O problema é que, enquanto Salt Lake City não envolveu nenhum dos pesos-pesados do COI diretamente, a situação na Fifa me parece bem mais grave no que diz respeito à conduta da organização como um todo. O desafio de limpar a imagem será muito maior para a Fifa."

Quedas

Em comum, Salt Lake City e o escândalo da Fifa têm o fato de terem encerrado longos reinados. No COI, em 2001, um movimento "mãos limpas" resultou na decisão do então presidente, o espanhol Juan Antonio Samaranch, de não disputar a reeleição para o cargo que ocupava desde 1980 - mesmo que a investigação não tenha encontrado envolvimento de Samaranch nas propinas.

O eleito foi o belga Jacque Rogge, que ficaria 12 anos no cargo.

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Já o suíço Sepp Blatter, presidente da Fifa desde 1998, anunciou na terça-feira sua renúncia ao cargo, menos de uma semana depois de ser reeleito para um quinto mandato à frente da entidade máxima do futebol. Seu substituto será escolhido em uma votação extraordinária ainda sem data marcada.

"O COI soube responder a seu período mais difícil com reformas e uma renovação de liderança que recuperou a confiança na forma, por exemplo, como as sedes olímpicas passaram a ser escolhidas. O problema para a Fifa é a percepção de que a estrutura inteira da organização está podre", afirma Jennings.

"O substituto de Blatter precisará lidar com acusações bem mais graves que as enfrentadas por Rogge", pondera Jennings.

No entanto, o exemplo da reinvenção do COI ao menos serve de guia para a Fifa, a entidade envolvida na maior crise de seus 111 anos de história.

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