As ditaduras estão com os dias contados?

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Image caption Regime de Joseph Stalin na antiga União Soviética acabou com 49 milhões de mortos

Cidadãos que vivem em democracias geralmente associam ditaduras a repressão, abusos dos direitos humanos, pobreza e tumultos.

De fato, ditaduras custaram um número incontável de vidas, chegando a 49 milhões na União Soviética de Joseph Stálin, e até 3 milhões sob o regime de Pol Pot no Camboja.

Com números como esses, parece que acabar com as ditaduras de uma vez por todas deveria ser um objetivo pelo qual vale a pena lutar.

Mas será que isso pode um dia acontecer? O que permite que um ditador ascenda ao poder e o que poderá mudar no futuro desses líderes?

Sem trocas no poder

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Image caption Benito Mussolini governou a Itália constitucionalmente até 1925, quando se declarou ditador

Os termos "ditador" e "ditadura" podem, claro, ser subjetivos – e até pejorativos. No mundo acadêmico, no entanto, essas palavras têm definições mais mensuráveis e objetivas.

Segundo Natasha Ezrow, professora do departamento de governo da Universidade de Essex, na Grã-Bretanha, a maioria dos especialistas que estudam o assunto parte de uma definição simples: "Quando não há substituições no Poder Executivo, tem-se uma ditadura", afirma ela.

Isso significa que ditaduras podem ser construídas em torno de um indivíduo que tenha estabelecido um culto à personalidade, de um único partido governista ou de uma oligarquia comandada por militares.

Em geral, segundo pesquisadores, as ditaduras também têm outras marcas registradas: diferentemente de monarcas, que são escolhidos dentre um pequeno grupo de pessoas, geralmente pertencentes a uma família real, ditadores podem vir de uma grande parcela da população.

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Conluios e comparsas

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Image caption Analistas reconhecem traços comuns em ditadores, como a vaidade e fantasias de poder

Ditaduras podem ou não incluir algum grau de terrorismo de Estado, mas, de acordo com especialistas, elas quase sempre envolvem conluio, especialmente a apropriação de fundos do Estado para um seleto grupo de aliados.

"Quando você depende do apoio de pouquíssimas pessoas para permanecer no poder, a maneira mais eficiente de governar é através da corrupção, de propinas, chantagens, extorsões e outros", explica Bruce Bueno de Mesquita, professor de política na Universidade de Nova York.

Com o poder estabelecido dessa maneira, um ditador que queira se manter no topo não age em nome da maioria da população, mas sim para beneficiar um pequeno grupo de pessoas das quais ele – e, historicamente, é sempre "ele" – depende para manter o controle.

"O mau comportamento dos ditadores não vem de uma patologia inerente ou do azar de se ter líderes psicopatas", afirma Mesquita. "É porque a estrutura política induz a esses comportamentos."

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Caráter à prova

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Image caption Riquezas como diamante e petróleo alimentam regimes ditatoriais em partes da África

Mesmo depois de compensar os comparsas, no entanto, em geral ainda sobra muito dinheiro. E é aí que o caráter do ditador é colocado à prova, segundo os cientistas políticos: ele pode manter o dinheiro para si mesmo e seus aliados, ou pode usá-lo para melhorar a vida de seus cidadãos.

Mas ainda que ele se enquadre na segunda categoria – e muitos ditadores o fazem – isso não quer dizer que as coisas vão funcionar.

Ter genuinamente boas intenções para a sociedade não necessariamente significa ter boas ideias para implementá-las, como alguns líderes demonstraram desastrosamente ao longo da História.

Os pesquisadores identificam outro problema comum associado a ditaduras. Ditadores não são necessariamente pessoas malvadas, mas muitos compartilham de uma série de traços de personalidade um tanto infelizes: muitos alimentam fantasias de poder ilimitado, beleza, glória, honra e dominação, combinadas à ausência de empatia.

"Provavelmente, a vaga de ditador é algo que atrai o grupo mais sórdido da nossa espécie, principalmente os narcisistas", define Steven Pinker, professor de psicologia da Universidade Harvard.

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Mais da metade

Por tudo isso, a vida em uma ditadura deveria parecer algo extremamente desvantajoso. Mas há muitos países que poderiam ser legitimamente classificados como ditaduras segundo a definição acadêmica.

A Freedom House, ONG sediada em Washington que realiza pesquisas sobre democracia, estima que cerca de 60% dos habitantes do mundo vivam sob ditaduras, e 2 bilhões de pessoas sofrem em um regime opressivo.

Segundo a entidade, hoje ainda existem 106 ditaduras totais ou parciais – o equivalente a 54% das nações do mundo.

Os fatores que dão margem à ascensão de ditaduras não mudaram muito ao longo dos séculos. Algumas das primeiras foram estabelecidas na Roma Antiga em tempos de crise. "Um único indivíduo, como Júlio César, recebia muito poder para ajudar a sociedade a lidar com uma crise e para depois abrir mão desse poder, mas muitos não queriam abrir mão", explica Richard Overy, historiador da Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha.

Muitas ditaduras modernas e recentes – como as de Adolf Hitler e Benito Mussolini, por exemplo – foram estabelecidas em épocas de agitação social. E as futuras ditaduras também serão. "Neste século, haverá pontos agudos de crise. Não acho que vamos assistir ao fim das ditaduras, assim como não vamos assistir ao fim das guerras", diz Overy.

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Pressão econômica e da mídia

Mas assim como a violência diminuiu, de maneira geral, ao longo da História, o número de ditaduras também caiu, especialmente desde os anos 70, com a queda de regimes na América Latina e no Leste Europeu – apesar de alguns desses países agora estarem beirando um retorno à antiga forma de governo.

"É mais difícil justificar ditaduras hoje em dia, em parte porque o mundo inteiro está nos olhos da mídia", afirma Overy.

Consequentemente, algumas das ditaduras que ainda persistem podem estar com seus dias contados, principalmente se o regime opressivo estiver contribuindo para problemas econômicos internos.

Algumas ditaduras, no entanto, não mostram sinais de fragilidade. "O que temos hoje são ditaduras extremamente duráveis", afirma Erica Chenoweth, professora de estudos internacionais na Universidade de Denver, nos Estados Unidos.

Por exemplo, alguns governos da África e do Oriente Médio que se enquadram na definição de ditadura são ricos o suficiente para alimentar sua existência contínua, com diamantes, petróleo e minérios.

Outro motivo que faz algumas ditaduras persistirem e outras emergirem é a própria democracia. "As pessoas têm uma noção ingênua de que as democracias querem promover democracia. Mas isso não é verdade", diz Mesquita, que argumenta que líderes democráticos muitas vezes financiam ditaduras em nome de seus próprios interesses.

Por isso, enquanto é impossível prever onde ditaduras vão aparecer e onde vão se manter por um longo tempo, mas é quase certo que elas estarão sempre entre nós.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.