O que empresas podem aprender com o escândalo da Fifa

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Image caption Para analista, se apenas sócios estão no comando, interesse pessoal deles pode se sobrepor ao da entidade

A recente prisão de sete executivos da Fifa, acusados de corrupção nos mais altos níveis do órgão que regulamenta o futebol mundial, acionou alarmes em todo o mundo. Dias depois, o presidente da entidade, Sepp Blatter, anunciou que deixará o cargo quando houver uma nova eleição, provavelmente em dezembro.

Mas quem estava tomando conta desses manda-chuvas? Como deixaram a suposta corrupção sistemática e uma liderança fraca reinarem por tantos anos na organização?

Enquanto a magnitude das supostas condutas ilegais e o do mal funcionamento dentro da Fifa impressiona por sua escala e longevidade, o escândalo também serve como uma advertência sobre os riscos que podem ser enfrentados por grupos e empresas controlados exclusivamente por seus próprios membros.

Nas organizações desse tipo, é fundamental que os sócios assumam papéis-chave na administração, mas se somente eles estiverem no comando, há o perigo de o ambiente se tornar um lugar onde o interesse pessoal de cada membro se sobreponha ao que é melhor para a entidade como um todo.

Problemas apodrecendo

Preocupações acerca de problemas que podem surgir desse modelo de gerenciamento não estão apenas limitadas à Fifa. Recentemente, o The Co-Operative Group – a maior cooperativa da Grã-Bretanha, que atua em uma série de setores, como varejo, bancos e turismo, entre outros – foi obrigado a mudar sua estrutura administrativa.

A restruturação ocorreu por causa de uma grave crise dentro do braço bancário do grupo, depois que vários erros internos foram tornados públicos ao lado de um balancete bastante prejudicado.

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Mas o que exatamente pode dar errado em uma empresa autorregulada? Uma das principais questões está ligada ao interesse pessoal. Entidades como a Fifa podem sofrer quando seus membros, guiados por seus próprios desejos, necessidades e vontades, autorizam decisões coletivas que lhes beneficiam exclusivamente em detrimento da organização.

As empresas também podem sofrer com a chamada "vista grossa", quando seus administradores evitam enfrentar os problemas ou até ignoram oportunidades que possam beneficiar a organização, desde que suas próprias necessidades estejam sendo supridas.

Se essas questões forem deixadas apodrecendo, é praticamente inevitável que isso resulte na destruição da organização.

Mas há boas notícias. Enquanto o apodrecimento endêmico pode ter sua raiz na má administração e na falta de princípios sólidos de governança, as soluções também saem daí.

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Image caption Blatter anunciou renúncia, mas ficará no cargo até eleições extraordinárias

A liderança é o que dá o tom. O conselho e a equipe executiva não podem simplesmente proclamar que as decisões que adotam são imparciais e pelo bem da organização como um todo. Eles precisam agir com integridade, transparência e estarem dispostos a serem responsabilizados se algo der errado.

Acima de tudo, eles precisam estabelecer medidas concretas para garantir que é assim que a organização funciona, agora e sempre.

Uma nova administração para a Fifa

Esse processo pode ser bastante doloroso, dependendo de onde cada empresa se encontra. E há três estágios em que mudanças precisam ser feitas: quando a entidade está falida, problemática e com a ficha limpa.

A Fifa é o melhor exemplo de uma organização fundamentalmente falida. Sepp Blatter anunciou que está deixando seu cargo, e um congresso extraordinário será realizado para eleger um novo presidente. Mas só isso não será suficiente. Será preciso fazer uma mudança profunda, instalar uma estrutura administrativa completamente nova. O papel do diretor-executivo ou presidente do conselho precisa ser separado.

E ainda mais importante é realizar uma investigação completa e firme das alegações de corrupção e más práticas. Para fazer isso da melhor maneira possível, é preciso trazer consultores externos de altíssima credibilidade – não da confiança dos membros da Fifa, mas sim uma equipe neutra com uma reputação global e que ajudará a abrir o caminho para a reestruturação e a ressurreição da entidade.

Outra questão premente: a quem esses consultores vão se reportar? Blatter afirmou que vai permanecer na Fifa até um novo presidente ser eleito, o que poderá acontecer em dezembro. Mas ele realmente deveria sair agora e permitir a instalação de um presidente interino ou de um conselho formado por membros que não tenham sido atingidos pelas denúncias.

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Se continuar no cargo, Blatter vai estar "tocando o barco a partir de sua cova". E há o risco de ele se envolver mais com seu próprio legado individual em vez de começar as mudanças necessárias.

Outra opção, caso os problemas sejam profundos demais para serem resolvidos, seria desmontar a organização completamente e recomeçar do zero. É uma maneira de passar diretamente da categoria "falida" para a categoria "ficha limpa". E muitas vezes essa pode ser a única solução para certas empresas.

Firmeza e ousadia

E o que fazer no caso de organizações que estão no estágio "problemático" mas ainda não estão falidas? Há muitas entidades que se enquadram nessa categoria.

O melhor é agir com firmeza e fazer uma mudança ousada. Eu mesma já estive envolvida em empresas que sofreram esses processos, e percebi que pode ser difícil e doloroso instituir tamanha reviravolta.

Por outro lado, quase todas saíram mais fortes e mais capazes, e se beneficiaram não só do processo quanto da própria mudança.

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Image caption Empresas que se renovaram saíram do processo mais fortes e mais capazes

O Co-Operative Group está bem no meio dessa transição. Eles introduziram novos modelos administrativos, um presidente independente, um conselho com membros novos e independentes e um novo CEO. Todo o processo está sendo conduzido publicamente. Não há dúvidas de que a trajetória tem sido dura e ainda está longe de acabar. Mas a vontade de mudar é certamente impressionante.

E as novas empresas? Bem, elas estão em um lugar muito melhor, porque podem começar suas atividades com uma ficha limpa, e têm a oportunidade de aprender com os erros de outras.

Mas há vários aspectos que precisam ser instituídos e esclarecidos desde o início.

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O primeiro passo é apontar um ou mais membros independentes para o conselho. Assim como diretores independentes têm um papel importante em start-ups, oferecendo uma voz imparcial, a mesma lógica se aplica a organizações autorregulamentadas.

Outra ação importante é determinar mandatos de uma certa duração, não só para os membros do conselho mas também para seu presidente.

Também é fundamental separar os papeis do presidente do conselho e do presidente-executivo. Se algo der errado e algum deles sair, a empresa poderá continuar relativamente estável.

É essencial ainda esclarecer os papeis de quem se senta à mesa do conselho. Serão eles representantes de suas próprias organizações e de seus próprios interesses ou eles deixarão sua afiliação para trás enquanto estão na sala de reuniões?

Entidades com partes afiliadas, como a Fifa e o Co-Operative Group, assim como várias outras, são regidas melhor quando seguem princípios rígidos de administração e têm membros de conselho bem treinados e comprometidos.

Geralmente essas entidades são criadas para o bem comum. Mas ter boas intenções não é suficiente.

Consertá-las pode ser um desafio tremendo, mas é algo possível desde que se mergulhe nos problemas sem rodeios e o quanto antes, quando as mudanças serão menos dolorosas e os benefícios serão muitos.

*As opiniões expressas aqui são exclusivas da autora e não da BBC, da BBC.com ou da BBC Brasil. Lucy Marcus é uma autora premiada e membro dos conselhos de várias empresas, além de ser CEO da Marcus Venture Consulting.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Capital.