Brasil não tem estrutura para aproveitar talentos do futebol feminino, diz veterana Sissi

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Image caption Sissi participou da seleção que foi terceiro lugar na Copa do Mundo de 1999

Terceiro lugar na Copa do Mundo de 1999, vice-campeã do mesmo torneio em 2007, medalha de prata nas Olimpíadas de 2004 e 2008. A história da seleção brasileira de futebol feminino não é recheada de títulos como a do masculino, mas é semelhante na capacidade de produzir talentos.

Só da seleção atual – que estreia na Copa do Mundo do Canadá nesta terça-feira contra a Coreia do Sul –, pelo menos três jogadoras conquistaram feitos históricos mundialmente.

A meio-campista Formiga é a única jogadora a participar de cinco Olimpíadas (ela jogou em todas as edições desde que a modalidade foi oficializada nos Jogos) e disputará sua sexta Copa do Mundo agora; a atacante Cristiane é a maior artilheira da história olímpica, com 12 gols; e a camisa 10 Marta bateu recorde conquistando por cinco vezes o prêmio de melhor jogadora do mundo da Fifa, de 2006 a 2010.

Todas elas têm algo em comum: precisaram sair do Brasil para conseguirem crescer no futebol.

E para a veterana Sissi – craque da seleção de 1989 a 2001 –, esse é um dos principais motivos que fazem com que o país nunca tenha ocupado o lugar mais alto do pódio no futebol feminino. "Se o Brasil tivesse a estrutura que os Estados Unidos têm, ganharia tudo", afirma, em entrevista à BBC Brasil.

"No Brasil, a gente nasce pra jogar, aqui (nos Estados Unidos) a gente treina pra elas virarem jogadoras de futebol. O Brasil tem talento, se tivesse um pouquinho do que o futebol masculino tem, dava para conseguir muito mais."

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Sissi esteve na primeira seleção brasileira formada no fim da década de 1980. Ela dedicou mais de dez anos à camisa verde-amarela, com a qual conquistou o histórico terceiro lugar no Mundial de 1999, em que foi artilheira.

Desde 2001, a jogadora mora nos Estados Unidos, onde é venerada pela torcida e encontrou espaço para seguir trabalhando com o futebol – na Califórnia, ela é técnica do Walnut Creek Soccer Club. À reportagem, ela contou as diferenças do tratamento do futebol feminino lá e cá.

"Aqui o futebol feminino compete com basquete, beisebol... mas tem seu próprio espaço. Tem liga principal, tem liga amadora, tem onde jogar. As escolas têm campo, estrutura. Há até um campeonato oficial de futebol feminino entre as escolas", diz.

"Precisa do trabalho de base. Se não tiver isso, não tem jeito. A Alemanha fez isso e hoje é número um, favorita para ganhar o Mundial."

Títulos

Para Sissi, o Brasil continuará "batendo na trave" se não mudar a forma de pensar o esporte.

"Enquanto o Brasil tiver esse problema, não dá para ir muito longe. Não dá pra trabalhar dois meses e conseguir resultado."

Além de perder jogadoras para os times europeus ou americanos, o país começa a correr o risco de perder também atletas da seleção, diz a veterana.

Ela cita a história da atacante Catarina Macario, de 16 anos, que foi buscar estrutura nos Estados Unidos e recusou o convite para a seleção brasileira de base. Ela joga no San Diego atualmente e é a primeira do ranking de jogadoras no país em sua categoria.

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"Catarina preferiu ficar nos EUA por causa da estrutura. É a numero um na idade dela aqui nos EUA e já está sendo sondada pela seleção americana", relata Sissi.

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Image caption Para Sissi, futebol feminino brasileiro não pode depender apenas de Marta

"Ela foi convidada pra jogar na seleção sub-17 e recusou porque não achava que ia ter as condições e as chances que tem aqui."

Seleção permanente

Como estratégia para esta Copa do Mundo – que vai até 5 de julho – e para a Olimpíada de 2016, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) optou por uma estratégia diferente: convocou a seleção feminina no início do ano e manteve as meninas treinando juntas em um time "permanente".

A ideia era fornecer uma boa estrutura para as meninas – o que nem sempre elas encontram nos clubes – e criar um entrosamento maior. No entanto, longe dos clubes, elas não disputam campeonatos e ganham pouca experiência em competições para valer.

"Acho que a gente vai ter ideia se valeu a pena ou não dependendo de como o Brasil for no Mundial", diz Sissi. "O Brasil veio três, quatro dias antes para o Canadá, outras seleções foram muito antes para se adaptar, reconhecer o lugar, o gramado sintético. Dependendo do desempenho delas agora vamos saber se a estratégia deu certo."

A seleção brasileira está no grupo E da Copa do Mundo, ao lado de Coreia do Sul, Espanha e Costa Rica. O time, sob o comando do técnico Vadão, mescla a experiência de veteranas como Formiga, de 37 anos, Marta e Cristiane, com a juventude dos novos talentos, como a meia Andressinha, de 19 anos, que se destacou como artilheira do campeonato sul-americano sub-20 neste ano.

Apesar de não ter conquistado bons resultados nas últimas competições – queda nas quartas de final tanto no Mundial de 2011, quanto na Olimpíada de 2012, a seleção brasileira conta com o peso de uma camisa tradicional para impor respeito na Copa do Canadá.

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"O Brasil ainda é muito respeitado. Aqui os americanos só falam em passar em primeiro do grupo para fugir do Brasil nas oitavas de final. Marta ainda desperta muito respeito", afirma Sissi.

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Image caption Sissi afirma que nos EUA as meninas são treinadas para jogar futebol, usufruindo de uma boa infraestrutura (Foto: Arquivo Pessoal)

"Mas Marta sozinha não vai conseguir fazer tudo, não dá pra depender só do talento dela. Se o Brasil estiver preparado mentalmente, físicamente, dá para chegar longe. Se conseguir jogar todo mundo no mesmo pensamento, quem sabe elas não chegam à final?"

Estrutura

Após a Copa do Mundo do ano passado, a CBF ganhou verba da Fifa para investir em futebol feminino. A entidade máxima do futebol destinou 15% dos R$ 100 milhões que deixou como parte do "legado da Copa" à modalidade, que recebeu mais atenção neste ano.

A presidente Dilma Rousseff disse, no início deste ano, que uma das "prioridades" seria a "massificação do futebol feminino".

A CBF realizou um Seminário de Desenvolvimento do futebol feminino com parte desse dinheiro no mês passado e pediu apoio do governo federal para popularizar a modalidade.

"O governo tem que nos ajudar. Temos que colocar o futebol feminino nas escolas, com as aulas de educação física. Temos que abrir oportunidades para as meninas que desejam jogar futebol", disse o presidente da entidade, Marco Polo Del Nero, na ocasião.

A representante da Fifa presente no evento, Mayi Cruz Bianco, ressaltou a importância desse investimento. "Vocês têm um grande potencial dentro de campo, paixão e conhecimento. Precisam colocá-los em prática."

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