Derrubadas pelos voos ‘low-cost’, praias britânicas ensaiam volta à moda

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Image caption Margate, em Kent, tem atraído mais veranistas do que nas últimas décadas

Em 5 de maio de 1962, o primeiro voo comercial da então recém-inaugurada companhia aérea britânica Euravia decolou de Manchester, na Inglaterra, lotado de famílias de classe média que buscavam férias longe dos tradicionais destinos praianos ingleses, como Blackpool e Skegness. Em vez disso, iam para Palma de Mallorca, na Espanha.

Até então, o litoral britânico era o principal destino de verão da maioria dos trabalhadores de classe média do país. Em 1949, 5 milhões de veranistas lotaram os então badalados balneários da Grã-Bretanha.

Para aqueles que não podiam pagar por uma semana na praia, a British Railways, estatal que administrava os trens do país na época, oferecia passagens gratuitas para um “bate-e-volta” de um dia.

Mas nos anos 60, as cidades litorâneas da Grã-Bretanha entraram em uma rápida decadência. E muitas ainda não se recuperaram.

Os pacotes de viagens já existiam antes do voo da Euravia de 1962. No entanto, com novos aviões, salários melhores e o desemprego em queda – sem falar no desejo coletivo de fugir do tempo duvidoso, do mar gelado e das estradas lotadas -, o número de viagens a destinos de praia no exterior cresceu exponencialmente.

E como fazer com que o turista que tinha conhecido a Grécia ou outras pérolas do Mediterrâneo voltasse a frequentar destinos ingleses menos sedutores, como Canvey Island, Cleethorpes ou Clacton-on-Sea?

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Isoladas e decadentes

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Image caption Banhistas em Eastbourne, em 1930, época da era dourada dos balneários britânicos

Em parte por causa da ascensão dos voos internacionais, trens expressos que durante décadas levavam os trabalhadores do norte da Inglaterra para as praias do sul desapareceram sem deixar rastros.

Balneários bem-sucedidos como Ilfracombe e Padstow, que também forneciam peixes para o mercado de Londres, se viram cortados da rede de ferrovias nacional. Suas economias foram atingidas em cheio.

Outras cidades litorâneas que dependiam exclusivamente dos grandes centros e das multidões de veranistas sofreram ainda mais – entre elas Margate, Ramsgate e Hastings, no condado de Kent.

Neste ano, apenas cerca de 250 mil pessoas devem passear por algum dos 55 cais ainda existentes na Grã-Bretanha – 20 vezes menos do que no pós-guerra. Muitas dessas estruturas foram desmanteladas a partir de 1949. Uma enorme leva de hotéis grandiosos à beira-mar também desapareceu, dando lugar a apartamentos populares.

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A força da nostalgia

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Image caption Abandono de Dungeness atraiu artistas, como o cineasta Derek Jarman, que se mudou para a cidade

Mas, apesar dos problemas sociais e econômicos que muitas dessas cidades enfrentam, nem tudo é desespero.

Uma certa preguiça geral de enfrentar o estresse e a superlotação das atuais viagens aéreas, o baixo preço das elegantes casas vitorianas do litoral e o aumento do número de trabalhadores autônomos que preferem sair dos grandes centros estão ajudando a reavivar balneários que viviam em decadência – entre eles, Margate, Ramsgate e Hastings.

A maior benesse para o litoral britânico, no entanto, parece ser outra coisa: a nostalgia.

Hoje, há no país uma sensação de que, em meio às complicadas, caras e lotadas férias no exterior, os ingleses se esqueceram do simples prazer proporcionado por piqueniques, mergulhos e sorvetes nas susas próprias praias – prazeres hoje mais vistos em fotos antigas, filmes, livros e programas de TV.

A nostalgia fez com que algumas dessas cidades se reerguessem nos últimos anos. Em 1998, o antigo Labworth Café, uma construção dos anos 30 em Canvey Island, foi restaurado e reaberto como um restaurante de luxo.

O cineasta vanguardista Derek Jarman e outros artistas se mudaram para a interessante Dungeness, na costa de Kent. Isso sem falar na peixaria do famoso chef Rick Stein em Padstow, a popularidade cada vez maior do surfe na costa da Cornualha, a nova galeria de arte contemporânea de Margate...

A recuperação de muitos balneários britânicos ainda está engatinhando, mas tudo indica que a maré virou de verdade.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Culture.