Aos 40 anos, ‘Tubarão’ parece comédia’

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Image caption Quando você é um adulto e assiste a Tubarão em 2015, é bem provável que se flagre apreciando os diálogos, mas sem susto

"Depois que os gritos começaram, não pararam mais". É disso que o produtor David Brown se lembra de uma exibição prévia de Tubarão, de Steven Spielberg, 40 anos atrás. Naquele momento, Brown soube imediatamente que o filme seria um grande sucesso.

Na época, críticos o descreveram como "uma máquina do medo". Nos anos seguintes, a produção foi listada como um dos "mais aterrorizantes" da história do cinema, enquanto fãs devotos ainda se vangloriam do profundo trauma que sofreram ao assistir ao filme na infância.

Mas há algo curioso aqui. Quando você é um adulto e assiste a Tubarão em 2015, é bem provável que se flagre apreciando os diálogos, sorrindo com as ótimas atuações, cantarolando a música-tema de John Williams e admirando a genialidade de Spielberg ao sugerir a presença do tubarão sem jamais mostrá-lo. Ficar assustado, no entanto, provavelmente não vai acontecer.

Duas comédias

Isso não quer dizer que não exista tensão enquanto se espera pela próxima aparição de uma barbatana ou que você não vá saltar alguns milímetros do sofá quando aquele sinistro triângulo preto toma a tela. Mas é um susto diferente, tanto que o filme hoje está classificado entre aqueles adequados a crianças.

Hoje, Tubarão funciona melhor como uma comédia do que como um filme de horror. Ou ainda, como duas comédias: a primeira sobre o policial de cidade grande se adaptando à vida em uma pequena ilha, e a outra sobre três homens sem muitas afinidades aprontando a bordo de um barco.

A primeira dessas comédias se passa no pitoresco balneário de Amity, na costa leste dos Estados Unidos, para onde o policial nova-iorquino Brody (Roy Scheider) é mandado para assumir o cargo de delegado. Quando o corpo de um turista aparece despedaçado na praia, Brody teme estar lidando com um tubarão feroz.

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Image caption Produção foi listada como um dos "mais aterrorizantes" da história do cinema

A imprensa, então, invade o local, enquanto os moradores entram em disputa para conseguir apanhar o bicho e abocanhar uma recompensa, enquanto o desastrado prefeito só se preocupa com a má publicidade para a ilha.

Até aí, Tubarão é uma sátira agitada e barulhenta sobre a incompetência das pequenas cidades, com o ator Carl Gottlieb fazendo proezas dignas dos irmãos Marx.

Quando Richard Dreyfuss entra em cena na pele de Hooper, um tipo inteligente mas inseguro, muitos espectadores se lembram imediatamente de outro comediante: Woody Allen.

Dosagem do terror

Os ataques do tubarão são, na verdade, mais bizarros do que aterrorizantes. Isso se deve, em parte, ao fato de, nesses 40 anos, termos perdido nossa sensibilidade diante de filmes cada vez mais macabros.

E, em parte, porque os diretores dos suspenses de hoje, com recursos digitais para editar o som e as imagens, aprenderam a fazer uma sintonia fina de cada susto, de uma maneira impossível em 1975.

E o tubarão de borracha usado no filme parece ridículo aos nossos olhos de século 21.

Mas o principal motivo de Tubarão não ser tão amedrontador é que essa não era a intenção de Spielberg.

Um exemplo é a sequência na qual dois homens tentam capturar o tubarão com uma corrente amarrada a um píer – que o monstro acaba partindo ao meio, lançando um dos personagens ao mar. Por alguns segundos, roemos as unhas preocupados se o homem vai conseguir escapar.

Mas logo depois, lá está ele na praia, pronto para ir para casa. A rapidez da cena não se compara ao que se faz hoje em dia para criar suspense.

Falas famosas

A segunda metade de Tubarão é ainda mais engraçada que a primeira. Determinado a acabar com a ameaça de vez, Brody sai para o mar com Hooper e Quint (Robert Shaw), um veterano de guerra. Ao ouvir da mulher o que ela deve dizer aos filhos, o delegado responde: "Fale que eu fui pescar".

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Image caption Hoje, Tubarão funciona melhor como uma comédia do que como um filme de horror

E isso resume bem o que acontece daí por diante. O filme assume um ar relaxado de pescaria, quando os três homens se sentem livres para beber cerveja e jogar conversa fora, enquanto a trilha sonora nos faz acreditar que estamos assistindo a uma história sobre marinheiros.

É claro que, logo em seguida, o tubarão surge e, finalmente, podemos ver seus dentes pontiagudos. Mas, novamente, Spielberg toma cuidado para diminuir o impacto dessa revelação, cortando a cena quase que no mesmo instante.

O que se vê em seguida é uma reação cômica de Brody em um sobressalto, seus olhos arregalados mas seu cigarro ainda na boca. E sua fala mais famosa, improvisada por Scheider no cenário: "Vamos precisar de um barco maior".

Agradando multidões

O que Tubarão evidencia é que mesmo quando Spielberg estava realizando um thriller sobre um tubarão-branco de 7 metros com um apetite por carne humana, ele já tinha um instinto para agradar as multidões – mais do que se mostrar um sadista com prazer em mostrar horrores.

E foi graças a esse instinto que Tubarão se tornou um dos filmes mais lucrativos de todos os tempos, enquanto Spielberg foi aclamado como um mestre do cinema comercial.

Em alguns aspectos, entretanto, o tom irreverente do filme teve um efeito nocivo: hoje em dia, nenhum terremoto ou invasão alienígena em Hollywood está completa sem um sorrisinho e uma piadinha vindos de seu protagonista.

Mas em Tubarão, essa mistura de suspense e humor ainda tem um ar inovador, mesmo hoje em dia. Foi uma mistura que Spielberg viria a usar várias outras vezes, principalmente na bem-sucedida série do personagem Indiana Jones.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Culture.