Ursos-pardos aprendem a 'fazer amizade' com pescadores no Japão

Image caption Fêmeas trazem seus filhotes para a convivência com humanos

Tidos como os maiores predadores terrestres vivendo hoje no mundo e capazes de correr a uma velocidade de 48 quilômetros por hora, ursos-pardos podem ser extremamente perigosos.

Um ataque a um ser humano pode ser fatal e tem mais chances de acontecer se os animais forem surpreendidos ou se uma fêmea perceber um intruso entre ela e seus filhotes.

Mas na península de Shiretoko, na ilha de Hokkaido, no Japão –, uma região famosa por abrigar uma das maiores populações de ursos-pardos do mundo – esses mamíferos não assustam mais os habitantes locais.

Isso porque, durante uma parte do ano, cerca de 200 ursos compartilham seu espaço nessa área remota e selvagem com pescadores que, assim como os animais, dependem da desova do salmão que ocorre em agosto.

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Sem medos

Image caption Ursos de Shiretoko dependem da desova do salmão para comer, assim como pescadores

Os ursos passeiam livremente em volta da pequena base usada pelos pescadores no verão, em uma coexistência surpreendentemente pacífica capturada pela série da BBC Japan: Earth’s Enchanted Islands ("Japão: As ilhas encantadas da Terra", em tradução literal).

"É algo que faz parte da nossa vida. Mesmo que os ursos apareçam, eles só passam por nós. Não temos medo deles", conta Oose, pescador com 50 anos de experiência na península.

A convivência lado a lado, no entanto, nem sempre foi harmoniosa.

No passado, os pescadores pediam a caçadores que matassem qualquer urso que se aproximasse demais do acampamento. E ainda é possível ver os restos de uma cerca elétrica usada para manter os animais à distância.

Mas aos poucos os pescadores começaram a perceber que os ursos não eram tão ameaçadores quando imaginavam.

Image caption Pescadores perceberam que ursos não os temiam e rondavam sua base

"Demorou anos, na realidade. Nós fazíamos um grande barulho quando avistávamos um urso porque tínhamos medo deles. Mas os ursos não pareciam assustados pelo ruído e não iam embora – assim como também não vinham nos atacar", explica Oose.

"Hoje há muitos ursos mas eles não machucam o ser humano, e nós também não fazemos nada contra eles."

Os pescadores agora aprenderam a olhar nos olhos de qualquer urso que se aproxime demais, além de prestar atenção nos sinais de alerta dados pelos ursos.

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Filhotes ‘educados’

Image caption Península japonesa é famosa pela população de cerca de 200 ursos-pardos

As fêmeas também costumam levar seus filhotes para a base dos pescadores para que eles aprendam "como se comportar em volta de humanos".

Foi esse longo relacionamento que permitiu ao cinegrafista Graham MacFarlane filmar de perto a caçada do salmão pelos ursos.

"No início, era bem assustador sair do carro para tentar conseguir os melhores pontos de filmagem, principalmente depois que eu vi a velocidade com que eles se atiram às presas", afirma MacFarlane.

Mas, enquanto esse relacionamento ocorre em um ambiente protegido, a audácia do ursos em relação aos humanos pode provocar alertas se eles chegam a áreas urbanas da península.

"Quando os ursos vão a uma aldeia e passeiam por ali, eles provocam tumulto e acabam correndo o risco de serem mortos", afirma Masami Sugano, que realizou um estudo sobre essa população para a Fundação Shiretoko.

"Por isso, se os animais se aproximam demais, os moradores tentam assustá-los usando fogos de artifício ou balas de borracha e os ensinam a temer o homem".

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Earth.