Mundo corporativo: gerente intermediário pode estar com dias contados

Image caption Ator Ricky Gervais encarnou a figura do gerente intermediário na série 'The Office'

A todo momento, em vários países, ouvimos políticos fazerem promessas sobre a criação de mais empregos para a classe média. São intenções louváveis, mas, infelizmente, se eles têm em mente aquelas pessoas que costumavam ocupar cargos médios de gestão, vão ter uma surpresa em saber que se trata de algo em vias de extinção.

Apesar de sabermos que sempre haverá lugar para algumas pessoas supervisionarem o trabalho de outras, a triste realidade é que mudanças nas tecnologias, na cultura do mundo dos negócios e na própria força de trabalho estão conspirando para derrubar a figura do gerente intermediário, presente há décadas dentro das empresas.

Devemos deixar de lado a expectativa de que as companhias terão um plano de carreira tradicional, pela qual o funcionário sobe degrau por degrau. Precisamos até esquecer a noção de que o gerente intermediário é a argamassa que une todos os empregados e garante um alinhamento de objetivos em toda a hierarquia corporativa.

Tudo isso está mudando.

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Computadores tomando conta

Apesar de elogiados, os avanços tecnológicos a que temos assistido já pesaram sobre os cargos de níveis mais baixos. Softwares usados nos escritórios, incluindo o e-mail, permitem que assistentes acumulem mais tarefas. Nos Estados Unidos, os caixas automáticos substituíram o office boy que ia ao banco, a Amazon eliminou os balconistas e os serviços automatizados de atendimento ao cliente reduziram a necessidade de se ter pessoas respondendo a muitas chamadas.

Mais acima na hierarquia, o problema se agrava ainda mais, principalmente em determinadas profissões. Afinal, o que deve ter acontecido com aquelas pessoas que supervisionavam todos esses trabalhadores que perderam seus empregos?

Eles não são mais tão necessários quanto antes. Mas a coisa ainda piora (ou melhora, se pensarmos sob a ótica da empresa que precisa reduzir custos).

Gerentes de Recursos Humanos, por exemplo, ficam para trás se comparados com os mais novos algoritmos capazes de identificar as habilidades necessárias para um determinado cargo e de encontrar o melhor talento para a vaga. Então, muitas empresas estão começando a se perguntar se realmente precisam de tantos gerentes de RH.

Executivos que até agora ganhavam para identificar as preferências do consumidor em relação a vários tipos de produto não conseguem competir com as análises de dados realizadas pelos vários sites de vendas – da Apple e do Netflix à Amazon, por exemplo. Estes conseguem nos oferecer o produto ou o conteúdo que nos interessa com muito mais precisão, baseados em nosso comportamento online.

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Revolução cultural

Mas o declínio do gerente intermediário não se deve apenas às inovações tecnológicas. A cultura das start-ups também teve um enorme impacto. Isso porque as start-ups odeiam o gerente intermediário! Nessas empresas, há pessoas que geram ideias de negócios, outras que desenvolvem os sistemas e outras que vendem o produto resultado dessas ideias e dos sistemas desenvolvidos.

Nenhuma dessas funções essenciais no mundo das start-ups depende de um gestor intermediário para garantir que os empregados estejam cumprindo com suas obrigações. Pelo contrário, as start-ups encarnam o conceito de se fazer mais com menos gente, incentivando cada indivíduo a assumir uma responsabilidade maior.

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A influência da Geração Y

As novidades da tecnologia e a mudança na cultura dos negócios encontram uma ressonância natural entre os jovens da chamada Geração Y, que hoje representa a maior faixa etária na força de trabalho de países como os Estados Unidos.

A ideia de ser supervisionado por um gerente cuja função é apenas supervisionar em vez de colocar a mão na massa, é simplesmente abominável para quem acabou de sair da universidade acreditando que sabe mais do que os mais velhos.

De onde vem tanta autoconfiança? Dos pais, claro, que fizeram questão de sempre recompensar seus filhos, independentemente de seu comportamento ou de suas realizações.

O resultado é que esses jovens procuram – ou até exigem – empregos que tenham um propósito claro, no qual eles possam ter um impacto. Confinar essa geração a cargos menores que demandam se reportar a um gerente intermediário simplesmente não funciona.

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Daqui para a frente

Todas as mudanças aqui citadas se uniram para formar um mundo onde os gestores intermediários serão menos valorizados e mais dispensáveis. Essa revolução já começou e creio que só tende a se acelerar.

Mas nem tudo é ruim. Eu particularmente admiro a ideia de empresas onde as pessoas ganham para fazer as coisas e não só para garantir que outros façam as coisas. E a ascensão da Geração Y coincide com essas mudanças que vão criar organizações moldadas da maneira como esses jovens preferem trabalhar. Isso também é bom.

Cargos em determinados setores poderão estar menos vulneráveis. Apesar de a indústria da tecnologia não morrer de amores pelos gestores intermediários, um projeto que sai de uma start-up para ser implantado em grande escala em outra empresa talvez precise da supervisão de um ou mais gerentes.

Companhias que estejam crescendo rapidamente, em qualquer indústria, também vão necessitar de profissionais para gerenciar novas oportunidades. Mas a competição por esses cargos também deve se intensificar.

Para aqueles que estão no epicentro dessa transformação, no entanto, as perspectivas não são tão boas. Alguns gerentes de hoje vão tentar se manter no posto pelo maior tempo possível. E isso deve funcionar por algum tempo.

Mas para quem tem um horizonte a longo prazo, talvez seja melhor se concentrar o quanto antes em ficar do lado certo da história – atualizando-se, procurando oportunidades para colocar a mão na massa e adotando uma mentalidade mais empreendedora, independentemente do tamanho da empresa onde trabalhem.

Ficar atolado no meio do caminho é que não pode ser.

*Sydney Finkelstein é professor de estratégia e liderança na Tuck School of Business, nos Estados Unidos, e autor de 16 livros, entre eles 'Por Que Executivos Inteligentes Falham'.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site da BBC Capital.