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Memórias do exílio: a Londres de Caetano Veloso e Gilberto Gil

O cinema de rua, a loja de instrumentos, o gramado dos parques, a casinha de esquina, o vaivém de indianos, o policial sorridente.

A Londres que abrigou Caetano Veloso e Gilberto Gil durante três anos de exílio na ditadura militar (1969-1971) continua intacta - exceto pelo mítico Café Picasso, que fechou as portas em 2009 e deixou órfã uma clientela de estrelas, da dupla baiana a Mick Jagger e Eric Clapton.

A BBC Brasil conversou com Caetano e Gil sobre suas memórias londrinas e foi conferir como estão, hoje, seus lugares prediletos.

Os pais da Tropicália voltam à cidade nesta quarta-feira, onde apresentam juntos o show “Dois Amigos – Um Século de Música", em comemoração aos 50 anos de carreira de um e de outro.

Reportagens sobre o reencontro ganharam destaque na imprensa britânica desde o início do ano. Para a revista Time Out, o show é "uma chance incrivelmente rara de ver dois mestres reunidos após meio século".

Caetano e Gil são classificados como "ícones da contracultura" pela publicação.

Leia mais: Caetano e Gil conversam com a BBC inglesa sobre seus 50 anos de parceria

Bowie, Hendrix, Clapton, Gil e Veloso

"Toda vez que eu penso em Londres, eu penso em uma loja de instrumentos musicais, Rose Morris", disse Gil à BBC Brasil, semanas antes de embarcar para a capital inglesa.

Há 95 anos, o estabelecimento ocupa o mesmo salão escuro na Denmark Street, uma via pequena e estreita, conhecida como "a rua da música" pelos londrinos. À reportagem, o vendedor Joe Perkins, da Rose Morris, conta que, David Bowie e Jimi Hendrix se conheceram na calçada vizinha.

"Boa parte da herança musical britânica nasceu aqui", diz Perkins.

Sentado ao lado de Gil, em frente a pôsteres antigos em um estúdio no Rio, Caetano conta que uma de suas lembranças britânicas mais intensas é o Café Picasso, antiga meca de músicos, hippies e artistas no bairro de Chelsea. "Eu ia sempre, quase todo dia", disse Caetano, que na época dividia uma casa com o amigo músico, suas esposas e seu empresário a 200 metros do café.

A BBC Brasil foi até a antiga casa da dupla na rua Redesdale - era uma tarde quente de segunda-feira e o prédio estava vazio e trancado.

Já o Picasso original não existe mais, mas perto do antigo prédio encontramos o músico Spencer Martin, de 66 anos, bebendo um "pint" de cerveja numa mesa de madeira de um pub. Distante de seu saxofone, com a mão esquerda imobilizada por uma torção, ele conta, emocionado, que pisou pela primeira vez no café quando tinha apenas 18 anos.

"Aquilo aos domingos ficava lotado", lembra. "Todo mundo lia os jornais dominicais, especialmente as páginas de música. Nós comentávamos sobre shows e fazíamos planos de um dia aparecer naqueles publicações."

Martin diz que cruzou com o guitarrista Eric Clapton mais de uma vez no salão do velho café. Diz não se lembrar de Caetano e Gil, especificamente, mas diz ter uma boa explicação.

"Certamente cruzei com muita gente que se tornou grande. O café era um ponto de encontro de músicos jovens, todos em início de carreira, era uma época em que tudo estava acontecendo na cidade."

Das cores e aromas da cultura indiana pelas ruas londrinas até o lendário Electric – cinema centenário imortalizado por Caetano no disco Transa -, embarque conosco neste passeio pelos locais que encantaram os tropicalistas em sua temporada do outro lado do Atlântico.

Reportagem: Julia Carneiro, no Rio de Janeiro, e Ricardo Senra, da BBC Brasil em Londres.

Filmagem e edição: Alvaro Ricciardelli