O programa dinamarquês que 'desradicaliza' jovens muçulmanos

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Ahmed* fez parte de um programa criado na segunda maior cidade da Dinamarca, conhecido como Modelo Aarhus. O programa tenta dissuadir jovens de juntar-se voluntariamente à Al-Qaeda e ao grupo autodenominado "Estado Islâmico" (EI). Pelo menos 30 dinamarqueses foram para a Síria em 2013, mas apenas um em 2014 e dois, até agora, em 2015.

Nos encontramos em um restaurante barulhento no centro de Aarhus. Mas logo temos de sair de lá, porque o que o jovem Ahmed* tem a me contar exige privacidade. Então vamos para um hotel, onde sentamos em um quarto silencioso.

Ele foi convencido, há alguns anos, a dar um passo atrás em um caminho que poderia tê-lo transformado em um jihadista. Ao lado dele está Mahmoud, um dos responsáveis por essa mudança. Ahmed me conta que tem 25 anos e nasceu na Somália, mas mora na Dinamarca desde os seis anos.

Ele diz que teve uma infância tranquila, vivendo como uma "criança normal" nos subúrbios de Aarhus. Gostava de jogar futebol, ia bem na escola e estava aprendendo dinamarquês rapidamente. "Minha vida era boa naquela época."

Quando entrou na adolescência, seu pai o levou para participar do Hajj, a grande peregrinação anual a Meca. "Era importante para o meu pai que eu me tornasse mais religioso", disse. "E eu realmente não sabia muito sobre minha religião. Era como se eu tivesse a deixado na Somália. Mas meu pai me disse: 'você é um muçulmano, você tem nome de muçulmano. Você tem que saber a sua história, seu passado, sua religião'."

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Então, toda a família foi para Mecca e Ahmed lembra de ter voltando à Dinamarca com um grande sentimento de alívio. "Quando nós voltamos, eu estava bem feliz e me sentia uma nova pessoa agora que tinha uma identidade religiosa. Eu vi como é importante para uma pessoa ter uma conexão com seu Deus."

As demonstrações de fé de Ahmed, no entanto, criaram problemas para ele na escola. Ele abandonou o jeans e a camiseta e passou a usar roupas islâmicas. Além disso, tornou-se defensivo e belicoso quando surgiam assuntos ligados à religião.

Ele reconhece hoje que, na época, podia ter lidado melhor com a situação, mas afirma que reagia de maneira agressiva porque sentia que tinha de defender sua religião diante de seus colegas dinamarqueses.

"Eles diziam coisas como: 'Vocês apedrejam suas mulheres e chicoteiam quem fala sobre o que quer' e eu sentia que tinha de defender o islamismo, mas eu não sabia debater bem – então o que eu falava não soava correto." Logo, Ahmed viu as consequências de seu discurso "não soar correto".

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Image caption Os subúrbios de Aarhus, onde cresceu Ahmed, incluem alguns dos bairros mais pobres da Dinamarca

Intimação

Certo dia, o pai de Ahmed ligou, avisando que ele fora intimado a comparecer na polícia, após uma denúncia feita pelo diretor de sua escola. Na delegacia, o garoto ouviu que estava ali porque seus colegas pensavam que ele era um extremista capaz de coisas perigosas, que ele havia se radicalizado durante sua viagem à Arábia Saudita.

O jovem conta que ficou em choque e sentiu que seria colocado no próximo voo para (a base militar americana de) Guantánamo. "Eu não tinha palavras para me defender."

Os policiais foram a sua casa pediram a senha de todos as redes sociais das quais ele participava. "Dei tudo a eles (as senhas) e foi humilhante vê-los vasculhar minha casa. Quando eles saíram, eu estava muito irritado."

Ele conta que a situação ficou ainda pior porque tudo aconteceu durante suas provas finais. Ele foi reprovado na maioria delas, e a escola, segundo ele, não permitiu que as fizesse em outra data.

"Foi como um soco na cara, algo que me fez sentir que toda a sociedade era racista. Na época, pensei: 'Eles me chamam de terrorista? Então eu vou dar a eles o terrorista que eles querem'."

Ahmed sorri enquanto me conta a história – anos depois, isso soa como uma grande bobagem.

O jovem contou tudo a seus amigos na mesquita local. Eles lhe apoiaram e, juntos, tinham longas discussões sobre a hipocrisia do Ocidente ao lidar com muçulmanos e países de maioria muçulmana. Eles assistiam a muitos vídeos de jihadistas na internet.

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Ahmed se lembra especialmente dos vídeos de Anwar Al-Awlaki, o clérigo americano radical de ascendência iemenita, que foi morto em um ataque de drone em 2011.

"Ele dizia coisas como: 'Estamos em guerra com o Ocidente, os ocidentais irão matar todos os muçulmanos do mundo se não os enfrentarmos' e eu pensava: 'Ok' e meus amigos diziam: 'Ele está totalmente certo'."

Até que alguém sugeriu que, para aprender mais sobre o Islã e ser respeitado como muçulmano, ele teria de ir para o Paquistão. "Ele me falou de uma escola lá, que tinha bons professores e que ensinava o Islã da melhor maneira possível", relembra.

Encontro

Ahmed chegou a contar à família sobre os planos de ir ao Paquistão. Seu pai disse que não o impediria, mas exigiu que ele terminasse os estudos na Dinamarca antes. Foi quando o garoto recebeu outra ligação da polícia, que o convidava para tomar um café.

"Algo dentro de mim dizia que eles nunca me deixariam em paz. Então decidi ir lá e falar na cara deles minha opinião. Disse que estava indo para o Paquistão, que não era ilegal, que eu podia fazer o que eu quisesse da minha vida."

Mas os policiais tinham outra oferta. Eles queriam que Ahmed conhecesse outro rapaz muçulmano, que poderia conversar com ele sobre seus sentimentos e sua raiva de uma maneira que a polícia não conseguiria. Ahmed sorri ao lembrar de sua indignação. Que tipo de muçulmano poderia ser aquele? Claramente, um traidor.

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Foi então que ele conheceu Mahmoud e entrou no que hoje é conhecido como o Modelo Aarhus.

Ahmed conta que levou sete meses para relaxar. No começo, revistava Mahmoud sempre que se encontravam, para ter certeza que ele não estava escondendo um microfone.

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Image caption Modelo envolve rede de policais, professores e assistentes sociais para identificar jovens no caminho da radicalização

Ele diz que, no início, ficava frustrado com as discussões, porque Mahmoud parecia ter uma resposta lógica e tranquila para tudo – tanto que pedia para que seus amigos da mesquita o ajudassem com respostas para lidar com o "muçulmano traidor que estava trabalhando para a polícia".

Mas, então, ele começou "baixar a guarda", segundo descreve, e a entender como o caminho que ele estava prestes a seguir era perigoso.

"Eu comecei a ouvir esse cara, porque ele não desistia. Ele me dizia: 'É verdade, você não foi tratado corretamente, mas você vai arruinar sua vida se for para o Paquistão'.", diz.

O argumento fez sentido para Ahmed. Mahmoud não estava dizendo que ele não poderia ser um muçulmano. Só estava dizendo que ele poderia ser muçulmano e ter um futuro próspero na Dinamarca. "Você pode ser útil à sociedade, e não um perigo para ela", dizia Mahmoud.

Ahmed terminou a escola e, ao invés de ir para o Paquistão, foi para a universidade. Ele está perto de se formar e casou-se. "Estou feliz hoje. Vejo meu futuro na Dinamarca. Não conseguia ver antes, porque tudo era escuridão."

"Agora que terminei meu programa, espero poder me tornar um mentor algum dia e ajudar outras pessoas que estiveram na mesma situação", afirma.