Como a agitada Dubai se transforma durante o Ramadã

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Image caption No Ramadã, escritórios, lojas e restaurantes de Dubai reduzem horário de funcionamento

A cada ano, durante quatro semanas, a vida frenética dos Emirados Árabes Unidos se acalma para marcar o mês sagrado do Ramadã.

Nesse período, os muçulmanos obedecem a um rígido jejum durante as horas de sol. A festa é móvel e respeita o calendário lunar. Por isso, este ano, ela coincide com o pico do verão no país, onde a temperatura pode chegar a 45ºC durante o dia e raramente cai para menos de 30ºC à noite.

Se jejuar por várias horas já é difícil, o calor não ajuda.

"São 15 horas de jejum, um período muito longo. Mas depois do primeiro dia, seu corpo se adapta e passa a sofrer menos", garante Mahmoud Abul Ata, executivo de origem egípcia que trabalha em Dubai. "O primeiro dia é o mais difícil porque você precisa cortar tudo ao mesmo tempo, inclusive café e cigarro. É comum ter dores de cabeça. Mas também se trata de uma desintoxicação. Você está dando um descanso ao corpo."

Em Dubai, durante o Ramadã, as horas de trabalho são reduzidas, e muitos serviços públicos e privados simplesmente fecham durante a tarde. Quase todos os restaurantes e cafés mantêm as portas fechadas de dia. Alguns oferecem comida para viagem, mas é proibido comer e beber em público. As boates e casas de show entram de férias.

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Estrangeiros se dividem

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Image caption Neste ano, o Ramadã coincide com o pico do verão nos Emirados Árabes Unidos

Para evitar os desafios do Ramadã durante o verão, muitos dos milhões de estrangeiros não muçulmanos que vivem nos Emirados preferem deixar o país temporariamente. Com o fim das aulas, na semana passada, os aeroportos têm registrado um enorme movimento.

Já os que ficam podem aproveitar a oportunidade e a tranquilidade para conhecer mais a fundo a cultura dos Emirados.

Kelly Harvarde, consultora de relações públicas britânica, está passando seu sétimo Ramadã em Dubai. "Em vez de reclamar de algumas restrições impostas nesse período, prefiro aceitar as tradições do lugar que escolhi para viver", conta. "Se estamos aqui por opção, acho que devemos entender a cultura local."

Já a personal trainer Roisin Thomas, que é irlandesa, decidiu aderir ao Ramadã em solidariedade a seus clientes muçulmanos. Este é o primeiro ano em que cumpre o jejum diário. Sua rotina começa às 03h30, com um shake de proteínas e 1,5 litro de água, além de batatas-doces e ovos. "A pior parte é ficar sem beber água", explica.

Stephan Hope, britânico que trabalha em um escritório em Dubai, diz gostar do Ramadã porque costuma ter um bom café da manhã antes do trabalho e uma verdadeira pausa para o almoço. "Há menos carros nas ruas e gente nas lojas, então tudo fica mais agradável", conclui.

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Agito à noite

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Image caption Hotéis fecham seus bares, mas decoram restaurantes para a quebra do jejum à noite

Apesar de Dubai parecer meio devagar durante o dia, a cidade ganha vida depois do pôr do sol, quando as pessoas quebram o jejum e se encontram para comemorar em grandes grupos, em casa ou nos restaurantes.

As multidões tomam conta dos vários shopping centers, que ficam abertos até 2h ou 3h nesse período.

Os estabelecimentos que tiveram seus negócios afetados durante o dia costumam recuperar o faturamento com o horário estendido. As revendedoras de carros oferecem promoções durante o Ramadã, fazendo deste um dos melhores períodos do ano em vendas.

Os hotéis, que fecham seus bares durante todo o mês e param de servir bebidas alcoólicas, oferecem banquetes criando um ambiente tipicamente beduíno, com tendas.

Um dos Iftar (quebra de jejum) mais badalados deste ano é o da Ghaf Kitchen, uma empresa local de catering que instalou um de seus food-trucks no bairro artístico de Alserkal, criando um restaurante pop-up chamado Ramadan Garden.

Com estrelas no teto, muitas plantas e longas mesas ideais para grupos grandes, o local simula o prazer de comer ao ar livre, mas com o conforto do ar-condicionado.

"Queríamos um lugar claro e vibrante para as pessoas curtirem uma boa comida e quebrarem o jejum juntas", explica David O'Brien, diretor do Ghaf Group.

Afinal, para os muçulmanos, o Ramadã é também um período de reflexão. "É um momento muito espiritual e uma chance de nos lembrarmos das pessoas que têm menos sorte na vida e que têm que passar longos períodos sem comida diariamente", afirma Abul Ata. "É importante para ensinarmos a nossos filhos que não é possível ter tudo o que se quer o tempo todo".

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site da BBC Capital.